sábado, 22 de julho de 2017

Tempo

Por Meriam Lazaro




Segura o ano, menino,
de augúrios
com tinta nanquim,
que o tempo cativo é moinho
que gira e passa,
e nesse passa passa
só passa
para ter um fim.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Céu de pipas

Por Mayanna Velame




Estacionei na última vaga restante. Era uma tarde ensolarada, típica de verão. O vento sacolejava os galhos das árvores. A dança da natureza. Julho dizia adeus. Seus poucos dias beliscavam o mês de agosto.


Dentro do carro permaneci, averiguando meus pertences (antes do desembarque). Enquanto isso, o para-brisa do automóvel se convertia numa tela, pronta a exibir um flagrante das coisas boas da vida: no campo de futebol de uma escola, algumas crianças aprendiam a empinar pipas. Testemunhar aquele momento foi notável. Sempre admirei a destreza de quem sabe manusear uma pipa. Era fascinante vê-la trêmula no céu, segura apenas por uma linha esticada.


Lembrei-me de Charlie Brown  e sua sina de emaranhar-se entre a rabiola. É preciso ter perícia para fazê-la voar. Na tarde que se lançava, as crianças não se intimidavam com o desafio proposto. Seguravam o carretel, prestando atenção na direção do vento e nas palavras do professor. Porque, naquela circunstância, só importava o fato de terem uma pipa nas mãos.


Quanto a mim, ressuscitei um pouco dos meus sonhos de menina. Eu também me sentia uma criança inocente; entregando-me ao ato heroico de fazer uma pipa invadir o espaço dos anjos.


Tive vontade de arregaçar as mangas, suspender as bainhas da calça e despir os pés. Correr solta. Sentir o calor da terra quente. Entretanto, não era viável realizar esse desejo. As obrigações do mundo real me chamavam. E a fantasia ficou reclusa em meus pensamentos.


Ao descer do carro, deparei-me com os gritos eufóricos das crianças. Sorrindo, caminhei rumo ao compromisso. No horizonte, nuvens despontavam tranquilas. O céu era um palco azul cintilado, que recebia o esquadrão de pipas coloridas (verdadeiras bailarinas ritmadas pelo afago do vento).

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Não sei mais

Por Nana Yamada




Não sei mais
Como posso seguir
Sem você
Como posso continuar
Sem você


  Não sei mais
Como descrever
Um sentimento
Como ouvir a voz
Do coração


  Não sei mais
Buscar inspirações
Regar sentimentos
Dar vida às palavras
Enfim, poetizar


  Não sei mais
Como é que eu vivia
Antes de você
Como é que eu era
Antes de você


  Não sei mais
Como cheguei
Sem você
Como lidei
Sem você


Não sei mais
Nada mais
Sem você
Nada existe

quarta-feira, 19 de julho de 2017

O impossível

Por Fabio Ramos


"O Rapto de Proserpina" - Gian Lorenzo Bernini


seu corpo


refeito
em
mármore


está
no museu


(...)


podemos
ver


e jamais tocar


(...)


o
primor
do escultor


em reproduzir formas
é assombroso


(porém)


cabe
uma ressalva:


ele
será
sempre


malfadado se


tentar
recriar


a
beleza
de


seu interior

terça-feira, 18 de julho de 2017

Vidro sujo

Por Denise Fernandes




Aves que ressurgem enquanto espero a primavera. Chuva fina no inverno, atiçando fogo sem fim. Vou dizer não aos deuses, me encolher como uma pedra, enquanto respiro destino e exatidão. Vou dizer sim aos deuses, me tornar uma poeira presente em toda estação, enquanto inspiro sombras e azul.

Mas não sinto vontade de limpar o vidro que está sujo. Agora me perguntei porque os vidros precisam ficar limpinhos, qual a importância do vidro limpo. Do lado de dentro, nunca vejo bem mesmo o lado de fora. Rodeada por ilusões, por que limpar o vidro sujo? Pior ainda seria, nesse momento, chamar alguém para limpar a merda do vidro. Desculpa vidro, sem querer ofender sua falta de alma, já amando sua proteção contra o frio, mas não dá para entender porque preciso passar a tarde esfregando o vidro que se sujou.

O noticiário fala com sua voz robótica, alguém morreu, alguém morreu, já não escuto bem o noticiário porque sei que ele fala sempre a mesma morte: a morte violenta, a morte estúpida, a morte assustadora, a morte morte. Então, fico aqui, televisão ligada, olhando a sujeira do vidro, ouvindo o turbilhão de pensamentos da minha cabeça, esperando um outro tipo de morte. A morte invisível que não sai na televisão.

Quero viver mais de ar, do que de vidros. A mão inerte não quer se ralar na limpeza. Penso agora em ler esse vidro perturbador, sujinho. Então, escuto um mar dentro de mim. E uma avalanche de questionamentos: pra quê passar batom, pra quê cortar o cabelo, pra quê tentar organizar o que é coisa e espelho, pra quê tanta coisa, se só no meu corpo mora o sentido e a razão para tudo que existe.

A paixão de Clarice Lispector encontrou uma barata olhando a sua personagem, e eu encontrei esse vidro sujo no meio da minha vida. Se uma barata passasse pelo vidro, talvez eu tivesse algum ânimo para limpá-lo.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

mulher de pedra

Por Ana Paula Perissé




                                        névoa cedo
                                        desfigura-se assim
                                        em paleta pálida de rubro
                                        ermo.


                                        vestida cedo
                                        madruga sóis
                                        em cores essenciais:


                                        e como se fosse algo de terra
                                        cedo
                                        liquefeita,
                                        refaz em borbulhas
                                        o róseo da mulher imaterial
                                        que deixou.


                                        altitude densa por entre
                                        heras
                                        despenca amanheceres
                                        imóvel sem enigma
                                        porque explícita


                                        (deitada e nua
                                        sem libido
                                        de céu,


                                        ainda cedo)

domingo, 16 de julho de 2017

sábado, 15 de julho de 2017

Ilusão

Por Meriam Lazaro




A folha caiu ao chão.
Se confundiu com o cisco,
mas de lá, feito avião,
ergueu-se em voo e risco...
Ao céu azul, o azulão!