quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Aconteceu no lançamento

Por Fabio Ramos




estava escrito


na
camisa
do
autor:


me leve
para Sorocaba


(...)


o nome
na lombada
se autoexplicava


(...)


puxou a orelha
do livro


leu
as
cascatas


impressas na contracapa


lançou o
livro
do vigésimo andar


e pulou
junto


(...)


está escrito


no
túmulo
do
autor:


uma vida de reticências
que termina
com


um ponto final

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Crédito

Por Denise Fernandes




Desde a morte do meu irmão, me senti sem crédito no céu. Como se Deus estivesse muito desgostoso comigo. Muda, oração recolhida, repleta de silêncio. O luto se transforma em medo. Medo de Deus, do destino, do imponderável, da morte, da perda, da dor, das células. E também o medo do Medo, o medo maior que corrói diante do abismo. Luto sem fim.

Primavera que alegra o coração esmigalhado. Digo pra mim mesma que não adianta chorar. É quase um sentimento de dever, que não entendo: segurar o choro assim, com tanto motivo pra chorar. Mas o sentimento é de reter o choro, como uma cozinheira regulando os temperos na panela. Preciso obedecer meus próprios comandos. Mesmo sem entender.

O barco virou faz tempo, e agora é esse mar. Fiquei fora de moda. O fracasso me ama.

Medo de nunca mais reencarnar, de sumir para sempre na escada infinita da evolução. Medo de ser meu buraco negro, minha sombra. Medo de ser tudo o que eu não queria ser.

Então fico muda e curvada perante Deus. Medo de rezar, medo de irritar a Deus. Medo que Deus seja evangélico ou católico, medo que Deus seja esse louvor exagerado da Bíblia, medo que Deus seja alguma seita islâmica, medo que Deus seja Jerusalém.

Ando descalça, em busca de espinhos para meus pés. Sou o pecado em todas as religiões. Vontade de me perder de Deus, de acordar ateu.

E, então, vem o Papai Noel e eu sinto uma esperança besta, ridícula mesmo, com aquele cheiro de fim de feira. O Papai Noel me traz um cartão de crédito para eu começar a sonhar tudo de novo, me lembra que vem ano novo. Pego a caneta e começo a lista: sonho um, sonho dois e, rápido, já tenho dez sonhos novos, num carro cheio de desejos me carregando para um novo ano, onde sou eu que me renovo, sou eu que viro número, antítese, solução. Sou eu que tento me iludir, como um bêbado que abraça sua garrafa ainda não totalmente vazia, fico colada no Papai Noel, sentindo seu cheiro vermelho e de farsa, farsa boa, sim, me engana que eu gosto. Minha árvore está pronta. Por favor, Papai Noel, fique comigo. Neste mundo confuso, de pouco Deus e tantas religiões, sua generosidade obesa me conforta. Quero seu abraço macio, enquanto aproveito esse crédito que me resta.

Feliz Natal e Feliz Ano Novo a todos!

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Chamas- Duetto

Por Ana Paula Perissé


Imagem: Natalia Baykalova


                                            uma vez que te fosse
                                            livre
                                            eu te daria
                                            insensada,
                                            toda
                                            a variante que nos pega
                                            de fogo
                                            sempre.


                                            e, se eu fosse.
                                            
                                            guardaria cada scintilla
                                            em meus poros
                                            veias
                                            da vida que se faz
                                            quente
                                            dentro,
                                            acto de existir-mos.


                                            (sempre)


                                            hoje.

domingo, 10 de dezembro de 2017

O silêncio de quem ama

Por Oswaldo Antônio Begiato




Hoje serás apenas
O quadro breve pendurado na cerca
Que guia a estrada.


Não te querem amante
E não te querem mãe
E não te querem filha.
Eles te querem apenas mulher
Mundanamente retratada no quadro.
No quadro breve.


No quadro roto e mal pintado
Que um dia descuidado de suas obrigações
O destino pendurou entre os arames farpados
Da cerca que guia a estrada.


Enquanto isso, eu te amo... Breve e silenciosamente!

sábado, 9 de dezembro de 2017

Adeus ano velho

Por Meriam Lazaro




Quando muda o calendário,
Com o virar da folhinha,
Leves são os fogos que se erguem no cenário,
Queimam olhos que aplaudem quando descem as cortinas...
Mas por que no abecedário a morte antecede a vida?
Ó rito humano sumário!
Breve ensaio da partida.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Belo Horizonte

Por Mayanna Velame




O horizonte
É sempre belo
Em Belo Horizonte.


É por isso que meu coração
Pampulha por ti!

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Quero você

Por Nana Yamada




Te quero,
Te desejo,
Você me faz arder
De vontades
Oh...!
Depois que você entrou
Na minha vida
Perdi o rumo
Da minha vida.
Passou como um furacão,
Tirou todas as coisas
Do lugar como um terremoto.
Eu só queria uma
Noite de amor
Uma noite de promessas
Jurando no seu ouvido...
Com você
Faria,
Iria,
Aconteceria,
Tudo seria possível
Desde que você queira
Sentir,
Compartilhar,
Esse sentimento que
Nunca soube
Controlar...

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Deleite

Por Fabio Ramos




bateu o olho
e não
quis
disfarçar


também pudera:


a beleza
da
mulher


(hipnotiza)


e
não
apenas ele:


são
maxilares
em
queda


a contemplar


(...)


no
caminho
para algum local


o inusitado
se dá:


um
vento
a surpreende e


LEVANTA


sua
saia


(...)


o que
esses admiradores
veem


você pode imaginar