domingo, 28 de maio de 2017

Teatro amador

Por Oswaldo Antônio Begiato




Tenho por máscaras
Um fascínio incontrolável.


Será que guardo
no meu mais profundo abismo
um desejo de teatro?


Ou será que a Verdade
amarga a minha imagem crua
e me mete medo?


O que quero eu revelar,
o que quero eu negar,
se a máscara que uso
é cópia fiel de meu rosto roto?

sábado, 27 de maio de 2017

As flores de plástico não morrem

Por Meriam Lazaro


Imagem: Meriam Lazaro


O tempo, quando quer, corre mais que coelho. Não era o caso agora, em que lhe faltavam horas, dias, meses e os ponteiros permaneciam parados. Na antessala, imaginava o paraíso. Lis seria o seu nome... Ganharia canção de ninar trazida por um pássaro. A ave negra abriria as asas, se transformando em uma esfera azul dançante. Como quem invoca a proteção dos quatro elementos, a ave soltaria cada trinado mais belo que o outro, atraindo as bênçãos celestiais: fecundidade, elegância, pureza! Depois viriam as ninfas do velho arroio dilúvio para acrescentar: beleza, atração, perfume! Que mais poderia querer uma futura e orgulhosa mãezinha? E não é que houve a intromissão dos seres da floresta que exigiram pagamento em troca daquelas qualidades?! Para gozar de fecundidade e beleza, sua pequena Lis deveria passar pela dor; em nome da elegância e atração lhe seria exigido sacrifício; pela pureza e perfume teria que lidar com a incerteza do destino. Quem iria querer ver a luz de um mundo assim? Antes que o espírito do fogo se manifestasse, decidiu apelar: – Vocês, que vieram do início da evolução do homem, poderiam anular a dor, o sacrifício e a incerteza profetizados pelos gnomos? Labaredas do tamanho de uma árvore se manifestaram: – Sim. Mas para não sofrer há somente um meio, se você concordar... – Faço qualquer coisa! Atalhou a mulher, já sem dor alguma. Com estrondo de trovão, a Salamandra bradou: – Digo-lhe, então, que sua flor não morrerá jamais! A eternidade se precipitou... No hospital, o médico recomendou à enfermeira que despertasse a paciente da anestesia. Antes da volta para casa, seus pais haviam se desfeito do berço, enxoval, brinquedos e tudo mais que pudesse despertar na filha a tristeza pelos sonhos perdidos. Esquecido num canto do teto, um móbile zombava desse cuidado. Feito de plástico, pequenas flores-de-lis giravam e giravam embaladas pela canção dos Titãs: "A dor vai fechar esses cortes. Flores. Flores. As flores de plástico não morrem".

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Conto aberto

Por Mayanna Velame




Uma folha em branco sobre a mesa. Uma caneta sem tampa, abandonada entre as páginas de um dicionário. Dedos nervosos, de unhas ruídas, tamborilam a escrivaninha (repleta de papéis surrados). A imaginação não voa.


A garrafa de vinho, seca, espatifa-se no chão. Cacos de vidro são palavras despedaçadas. Cigarro aceso. Uma baforada e a fumaça encobre as ideias. Uma palavra escrita logo é apagada.


A cadeira está vazia. Passos soltos pelo apartamento. Silêncio, suspiros, suor, transpiração e inspiração. O relógio se mostra, os ponteiros dançam. O balé das horas é sempre melancólico. A mão alcança um lápis de ponta fina. Ele é levado à boca e, dos lábios, recebe umidade. Escrever é não desistir. Um corpo se debruça sobre a escrivaninha. Consoantes, vogais, frases, orações, períodos e parágrafos. Escrevemos para quê?


Palavras passeiam sobre a folha em branco. Personagens prisioneiros de suas atitudes involuntárias. Devaneios secretos, peripécias, reviravoltas, leitores. Um conto aberto, sem ponto final...

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Seu toque

Por Nana Yamada




Um toque teu poderia
Me matar de vontades
Querer fazer-me mergulhar
Nessa onda sem fim de amor


Qualquer momento poderia
Me afogar nesse profundo amor
Mas tuas mãos vêm me salvar
Me fazem flutuar como se eu fosse um dente-de-leão


Teu toque me faz despertar
Faz-me enxergar que o amor
É tudo o que preciso
Teu toque é irresistível


Você que tem o gosto viciante
Eu me perco nessa loucura
Me perco a te olhar
Me enlouqueço a te tocar


Água escorrendo pelo teu corpo
Minha boca que passeia no teu corpo
Meu corpo querendo sentir o seu
Desejando ser tocada por você


Vício em querer você
Quase não posso me controlar
O que será que você fez comigo?
Me fez perder o rumo da minha vida


Você não sabe quão maravilhoso é
Contar com teu amor
Poder sentir teu coração bater
No meu peito descontrolavelmente


Vem correndo até a mim
Já não quero mais esperar
Vem logo matar essa sede
Minha boca sente sua falta


Não se preocupe
Meu corpo deseja apenas você
Meu coração só quer te amar
E minha alma grita por você


Sinto saudades do seu toque
Sinto saudades da sua mão quente
Sinto saudades das noites não dormidas
Sinto saudades de cada pedaço de você...

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Intervalo no escritório

Por Fabio Ramos




deu
uma pausa


foi
à
cozinha


por
um gole
de
café


(...)


ESTARIA


com
os
colegas


no
jardim


se fumasse


(...)


quem ligou


para
o
seu


NÚMERO


(...)


vai
ao banheiro


e
volta
ao trabalho

terça-feira, 23 de maio de 2017

Doe-se

Por Denise Fernandes




Já faz um tempo. Meu anjo da guarda dizendo que eu deveria retomar o projeto de livros para trabalhadores da construção civil. Esses homens inteligentes, que edificam os sonhos materiais de todos nós, e que são vistos como pessoas burras. Trabalham muito e não tem tempo, nem incentivo, para ir a uma biblioteca ou para frequentar atividades culturais. Geralmente não tem nenhum acesso a livros. E quando têm acesso, o único livro desses trabalhadores é a Bíblia.

O anjo falando e eu dando voltas. Pensava no que fazer, e pensava sem nada fazer.

Até que um dia Jesus, o marceneiro, apareceu aqui em casa. Jesus, um senhor de cabelos brancos, contador de casos e histórias. Me disse que anda pelas ruas e lembra das portas e serviços que fez, em madeira, nas residências; de como ele mesmo, através do seu trabalho, está na vida de tanta gente, em tantas casas. Simpático, além de habilidoso, Jesus me lembrou do compromisso que havia marcado com meu anjo da guarda. Dei um livro a ele. Tirei uma foto do momento.

Doar faz mais sentido que guardar. Tenho doado livros para trabalhadores da construção civil desde então. Provavelmente, o livro doado não vai ser lido da mesma maneira que seria na academia. Por isso mesmo, essa doação (para outros tipos de leitores) é tão interessante.

Quando era jovem, eu batalhava para ter os livros que achava importantes. Lendo livros emprestados ou de bibliotecas, sentia um pouco de dó de não ter o livro pra mim. Imaginava que seria proprietária de uma boa biblioteca. Num momento da minha vida, cheguei a ter muitos livros em casa. E vieram as dificuldades para organizá-los e limpá-los. Os objetos do meu desejo começaram a me causar alergia. E era uma agressão: desejava que meu corpo se desligasse da alergia. Achava que eu tinha que mudar. Não pensava em mudar os livros.

Mas foi mudando que meu corpo melhorou. Libertei os livros da solidão de prateleiras monótonas, de pó fino e denso, invadindo as páginas. O livro liberta mais na mão das pessoas do que dormindo na estante.

E quando penso nos livros, penso em mais. Em quanta doação pode ser feita, em quanto guardamos  pressionados por uma cultura de acúmulo. Não só objetos; mas carinho, alimento, palavras, ideias, conhecimentos.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

O que me falta viver

Por Ana Paula Perissé




                                         alguma coisa
                                         que ainda não tem nome
                                         mas que existe
                                         tão grande


                                         a incerteza de saber
                                         vibra na corda de cada cello
                                         encantado
                                         sob os ombros
                                         de um músico da noite


                                         brilha cada vez mais
                                         ofuscado
                                         dentro de cada pedaço de pele
                                         que se assanha
                                         em encerrá-lo
                                         em mim


                                         e as sombras que carrego
                                         iluminam-se ao teu luar
                                         insano
                                         inominado
                                         em procura aflita
                                         acende
                                         a chama
                                         de uma clareira
                                         enluarada
                                         prateada e depressa
                                         atirada em cima
                                         de mim


                                         aflitar-se de tanto buscar!


                                         pois
                                         que venha, então
                                         para o resto dos meus dias

domingo, 21 de maio de 2017