sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Órbita

Por Mayanna Velame
 
 


                                         Desenhei nuvens
                                         no lençol que te cobria.
                                         Pintei estrelas nas paredes do teu quarto.
                                         Ofereci chuva no calor do telhado.
 

                                         E te apresentei o Sol
                                         na escuridão soturna.
                                         Escrevi versos em teu caderno,
                                         mudei os movimentos da Terra.
                                         Renomeei planetas, pilotei astronaves.
 

                                         Astronauta fora de órbita.
                                         A Lua ladeada de estrelas.
                                         Satélites de amor circulam
                                         na imensidão do universo.
 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Como locomover-se numa cidade entupida

Por Amilcar Neves*



Conversinha típica à beira do mar no meio de um janeiro quente como um inferno com as respectivas mulheres no mesmo círculo, os dois casais sob um guarda-sol comum na areia. Falar do que com as madames ali, bebericando espumante de olhos e ouvidos atilados?

O futebol ainda não começou, o carnaval anda longe, a Copa mostra-se morna talvez porque a Seleção não precisou fazer força para participar, o que deixa o torcedor meio ressabiado, sem saber direito o que esperar do time, as eleições, mais distantes ainda, estão fora de cogitação nas especulações desocupadas especialmente porque as coligações não se definiram e tais definições definitivas certamente causarão enormes surpresas, pelo que recomendam a prudência e o bom senso que não se fale mal de ninguém, posto que o adversário de ontem até a manhã de hoje poderá muito bem ser o grande aliado da semana que vem, no próximo governo, já que a coerência foi banida da vida partidária, mas também não se vai falar de trabalho, assunto para ser tratado durante o expediente, jamais nos momentos de descanso e relaxamento que as férias sempre nos proporcionam, além disso o Natal, cada vez mais minguado como fonte de conversas e considerações de qualquer ordem, está esgotado desde o dia seguinte e o Réveillon já rendeu todas as fofocas, intrigas, maledicências, indiscrições e confissões, despido hoje da possibilidade de revelar novidades e cogitações originais.

O assunto calor estiolou-se em menos de dois minutos e meio ("Serão mais três dias de calor e muita radiação ultravioleta, depois cairá um vento Sul que soprará tempestades terríveis de raios, trovões e uma quantidade de granizo nunca antes vista neste País", pontificou um, ao que o outro retrucou, discordando: "Isso é o que o homem do tempo na TV garante, mas há séculos não existe meteorologista cujas previsões sejam cem por cento confiáveis, o que leva à conclusão de que, sendo assim, de pouco vale prever o tempo").

O natural, em verdade, seria observar com demora e gozo, na praia toda, e comentar sem rodeios ou travas, a abundância que lhes passa aos olhos ou que se deixa estar pelas cercanias: abundância de pés, braços, mãos, pescoços, cabeças, orelhas, cabelos, mas isso traria o risco considerável de deixar ao menos despeitadas suas respectivas consortes, as quais, além disso, poderiam muito bem retaliar pousando olhos e sorrisos sobre peitos cabeludos e pernas musculosas, para dizer o mínimo.

Assim, cidadãos conscientes e respeitáveis, só lhes resta discorrer reciprocamente suas preocupações cidadãs com relação à escassa mobilidade da cidade, ao menos da cidade que ambos conhecem muito bem, onde vivem, trabalham o ano inteiro e criam suas famílias.

- A não ser pra ganhar dinheiro, verdadeiras fortunas, não sei pra que tanto técnico dando palpite, realizando estudos e fazendo relatórios. Qualquer prefeito medianamente sagaz já teria percebido há muito o que todo mundo está vendo: as escolas, desde os berçários até as universidades, é que atravancam a cidade. Dê férias para essa gente toda e, mesmo com a invasão de turistas, encontra-se com facilidade lugar para estacionar no Centro a qualquer horário.

- Claro! Isso é transparente como água mineral! Se não consegue resolver o problema do transporte escolar, basta o prefeito proibir o funcionamento de todo e qualquer estabelecimento de ensino no município, incluindo os cursos de corte e costura. Na hora a cidade vira um paraíso.

* Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 22.01.14

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Vidente no Viaduto (do Chá)

Por Fabio Ramos
 
 


trago a pessoa
amada em
7 dias
 
trago a pessoa
armada
em
7 minutos
 
trago a pessoa
atada em
7 laços
 
trago a pessoa
assada
em
7 pedaços
 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

climático

Por Ana Paula Perissé
 
 


                                             são relâmpagos
                                             a conjunção
                                             de outrora.

                                             raios.
                                             (sem trovão,
                                             ao longe,
                                             há de
                                             se ter
                                             fugas)

                                             são auroras.
                                             (apenas
                                             jejum
                                             de lembranças
                                             agora
                                             sem fôrmas)

                                             Descuide-se
                                             para o céu:
                                             a neblina nunca será
                                             em vão

                                             .
                                             .
                                             .

                                             brumáticos em desvio.

                                             ao léu.

domingo, 26 de janeiro de 2014

sábado, 25 de janeiro de 2014

Papagaio de suíço, tartaruga meninão,
primeiras palavras e outras orelhadas

Por Meriam Lazaro
 
 


Desde os tempos da escrita à mão, a caneta se atira na frente e escreve “guaio” no final da palavra papagaio. Aconteceu de novo no computador. Não desconheço a grafia, mas são daquelas coisas inúteis que se grudam e não deixam a gente. Freud, aquele do cachimbo, dizia que rimos das piadinhas porque refletem algo a nosso respeito. O que justificaria por que rimos de algumas coisas e não vemos graça em outras que quase matam os outros de rir. Desde criança tenho fama de calada. Assim, guardei com muito gosto a piadinha do papagaio do suíço. Um feirante, daqueles que vendem de tudo, tinha um papagaio falante no alto da barraca. O suíço tentava comprá-lo a qualquer preço. Desculpando-se por não poder vender aquele papagaio, de estimação para a família, prometeu trazer outro para que o próprio comprador o ensinasse a falar. Assim foi que na ausência de um emplumado, trouxe outro. O suíço, com sotaque típico, passou a ensinar todas as palavras que sabia para... uma coruja! Dias depois, passou para as compras da semana e o feirante perguntou-lhe: “E aí, o papagaio já está falando?” O suíço respondeu: “Pois, pois... Falar, ainda não fala, mas presta uma atenção!”

Se os ouvidos são seletivos, quando estamos num coletivo não podemos evitar ouvir esquisitices. O pai, com o filho de dois anos no colo, ensinava: “Fala filho, fala: Chupa-cabra!” O guri, com voz molinha, repetiu: “Thu-ta-ta-ba.” Outro dia, sentadas à minha frente, uma senhora respondeu para a outra: “Estou indo consultar. Comi um pastel e senti na primeira mordida que a bochecha descarrilou.” Não me perguntem, pois não tenho a mínima ideia do porque da escolha de palavras. No tempo em que aquele pai era menino, havia histórias de invasão de criaturas do espaço que atacavam as cabras no campo, deixando marcas no pescoço do animal, após chupar todo o seu sangue. Por isso o nome chupa-cabra. Quem sabe, ele teve uma cabra ou outro animal como bichinho de estimação?... Quanto às duas senhoras, ouvi que a bochecha havia sido descarrilada após morder o pastel assassino. Como no domingo haveria um churrasco boca-livre, segundo continuação da conversa, entendi que caberia ao dentista repor os dentes nos trilhos com urgência.

Por conta desta mania de "orelhada", no cabeleireiro outro dia ouvi de uma das clientes um caso curioso sobre uma tartaruga. Tudo começou porque tentávamos consolar a manicure da perda da sua cadelinha Chihuahua. A veterinária atribuiu o câncer do animal ao fato de não ter sido castrada ou vice-versa. Sabemos que não há motivo específico que se possa atribuir para esta doença nos animais ou nos humanos. Qualquer comentário neste sentido só acrescenta culpa à dor. Como sempre acontece nestes casos, a pessoa em luto promete nunca mais criar outro animalzinho para com isto evitar o apego. Aí veio a conversa da tartaruga perdida. Meninão era uma tartaruga que dormia em cima de um travesseiro ao lado da cama da dona. Deixava-se afagar, gostava de colo e tinha uma piscina inflável. A família foi veranear e levaram Meninão para a praia. Um dia esqueceram a porta aberta e Meninão, que andava por tudo, saiu de casa. Lá fora as crianças viram Meninão e o cercaram curiosos. Um avô, com receio de que o neto inventasse de adotar o animal, resolveu devolver a tartaruga ao valão, onde volta e meia era visto um daquela espécie. Quando se deram conta do desaparecimento de Meninão, saíram todos à procura. Foram até o valão e nada. Indagaram ao salva-vidas e este informou que viu a tartaruga sair do valão, atravessar a rua, quando um Fiat vermelho parou e o recolheu. Ele não anotou a placa. Começou a peregrinação pela praia atrás de todos os carros vermelhos, bordôs e verdes (o salva-vidas poderia ser daltônico). Tudo em vão. Anos se passaram e hoje a mãe-tartaruga é uma feliz mãe-gata. Espera que meninão não tenha virado ensopado, mas que esteja feliz com outra família.

 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Rabisco

Por Mayanna Velame
 
 

 
                                                                    Eu rabisco
                                                                    Risco
                                                                    Pisco
                                                                    Estico
                                                                    O teu nome.


                                                                    Você cisca
                                                                    Petisca
                                                                    Trisca
                                                                    Fisga
                                                                    O meu olhar.
 

                                                                    Nós beliscamos
                                                                    Discamos
                                                                    E confiscamos
                                                                    O amor...

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Falar de passarinho

Por Amilcar Neves* 

 

Há muitos anos, quando o Córrego Grande era verdadeiramente nativo e manezinho, contaminado que anda agora pela praga de edifícios, construídos cada vez mais altos e mais próximos entre si e obrigando ao escoamento (?) de multidões de gente pelas mesmas ruas estreitas de meados do século passado, quando o Córrego Grande falava com inequívoco sotaque açoriano (não, não era sotaque, era o idioma da cidade e da Ilha toda, hoje é que se fala com sotaque por aqui tudo), naquele tempo a Maria Alice saiu para comprar na agropecuária do bairro, a qual também vendia materiais elétricos e hidráulicos, um quilo de grãos para alimentar passarinhos errantes que não semeiam nem colhem.

- Parrua? - o vendedor pedia melhores especificações do produto pretendido.

- Parrua? Não sei... - a garota não sabia mesmo, achava que se tratava de uma marca.

- É parrua? - e o moço fez-se mais explícito: - É pra passarinho de rua?

Era. Era para colocar nas gaiolas com grades parcialmente removidas, permitindo a entrada e saída livre das aves vagabundas. Alguém um dia comentou:

- Que pena que as gaiolas estão estragadas! Já pensaste? Podias ter passarinhos só para ti!

Para evitar esse tipo de comiseração, e mesmo porque as gaiolas de bambu foram se deteriorando com o uso, acabei adotando comedouros apenas cobertos, feitos de MDF, esse derivado da madeira tão em uso pelos marceneiros.

Ninguém imagina o tamanho do apetite dessa gente. Passarinho come pra burro. E é povo exigente, reclama se falta comida, faz greve se o prato está vazio, não canta nem aparece mais. Na abundância, começam ariscos e depois se acostumam com os humanos, com seus grunhidos desafinados e sua movimentação apressada. Nem se abalam mais, depois de um certo tempo, após adquirirem confiança e perceberem que sua vida e sua liberdade pouca ameaça sofrem. Passarinho é bicho esperto e sagaz. Consome parrua e semente de girassol aos montões.

A parrua da loja do bairro, que ainda hoje me fornece a alimentação para esses seres alados (que não são anjos, bem entendido), serve muito bem a pombas-rola, sabiás, pardais (sempre escorraçados, contentam-se em comer no chão as sobras que caem da plataforma do banquete aéreo), corruíras e, especialmente, canários, que vivem aninhando-se e procriando por ali (suponho que também concebam pelas redondezas da minha churrasqueira, mas ainda não consegui-lo flagrá-los no ato).

Dalton Trevisan fala de canários em Orgias do Minotauro. Escreve a respeito o contista paranaense: "Já viu canarinha branca se banhando de penas arrepiadas na tigela florida?"

Mas as minhas preferidas, indubitavelmente, as aves mais simpáticas e graciosas, bem como as mais joviais e barulhentas, nunca sozinhas, vindo sempre aos bandos (ontem contei sete delas, conta de mentiroso, num mesmo comedouro), para quem lhes reservo doses generosas de sementes pequenas de girassol, são as verdes e ágeis tirivas. Sobre elas ensina Júlio Ribeiro, em seu amaldiçoado e escandaloso romance A Carne:

"- Quantas espécies temos de papagaios?

"- Ao certo, que eu saiba, seis: tuins, periquitos, cuiús, sabiacis, que são estes, baitacas e papagaios propriamente ditos.

"- E de arás?

"- Quatro: tirivas, araguaris, maracanãs e araras."

De minha parte, até já contratei uma amiga minha, fonoaudióloga: a falar de passarinho, confesso, prefiro falar com passarinho. Muito dela espero no tocante a essa almejada proficiência.

* Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 15.01.14

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Interligados

Por Fabio Ramos
 
 


tens uma janela
motivando
o brilho
do
olhar
(mas não só)
 

a problemática:
 

alguém
à
distância
também pode usufruir
dessa visão?
 

a
solucionática:
 

ela
já sabe
como fazê-lo
 

reuniu
habilmente
o
canto
dos pássaros
 

o frescor
das
ondas
 

o céu
multicor
 

e colocou
tudo
no
envelope
 

quando
a encomenda
chegar
ao
destinatário
outra janela se
abrirá
 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Dizer

Por Denise Fernandes
 
 



                                           Dizer te amo para quê?
                                           Amor invisível,
                                           em meio a tantas declarações.
                                           Mas forte, como o voo no pássaro.
                                           No seu facebook, sou o silêncio.
                                           Me amaram com palavras e
                                           eram só palavras.
                                           Agora sei quanto vale o gesto.
                                           Seu corpo no meu,
                                           lua refletida na água.
                                           Essa noite te desejo em código,
                                           tem tantos mistérios no querer!
 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Encantata

Por Ana Paula Perissé
 
 
Imagem: Maria Cristina Faleroni
 
 
                                                  existe
                                                  1´colchão
                                                  de ilusões

 
                                                  a nos rondar
                                                  como sombra 
                                                  do mundo

 
                                                  ( lá no tecido
                                                  do céu,
                                                  1´florata
                                                  em densa mata
                                                  nua
                                                  por tamanha
                                                  alegria
                                                  de se
                                                  descobrir

 
                                                  *
                                                  *
                                                  *

 
                                                  a cantada)
 

domingo, 19 de janeiro de 2014

sábado, 18 de janeiro de 2014

Minha Vida em Duas Linhas?

Por Meriam Lazaro
 
 

 
Que não sejam retas, mas contínuas...
Misteriosas, como que adivinhas.
Ainda quero muito ziguezague!
 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Recomeçar

Por Mayanna Velame
 
 


“Recomeçar é mais difícil que começar”. Foi com essas palavras, ditas durante uma palestra, que minha mente ficou a refletir a respeito da vida. Todos dizem que, no início de um novo ano, temos o direito de recomeçar. Então elaboramos, recriamos e planejamos aquilo que não conquistamos anteriormente.

Quando uma casa é construída, seus alicerces e pilares são muito bem fundamentados. Para reconstruí-la, no entanto, precisamos demoli-la, retirar o entulho, pedras e cascalhos, para assim começarmos o processo de edificação.

Se para refazer uma moradia de concreto, areia, tijolos e cimento já é difícil e trabalhoso, imagine para nós, seres humanos – arquitetados e tecidos por emoções, sentimentos, razões, medos e desejos.

Recomeçar a vida, seja em qualquer nuance, exige de nós humildade e reconhecimento. Os erros cometidos, as falhas não revistas, a ansiedade ferina são ingredientes que formam, na maioria das vezes, o nosso fracasso.

Nos momentos que recomeçamos, estamos dando uma nova chance para nós mesmos. Chance de mudarmos o curso de nossos sonhos, da nossa história. Nem sempre acertamos o alvo na primeira tentativa. Ninguém aprende a ler sem antes reconhecer as letras, as sílabas que formam as palavras.

Tropeçar, cair e levantar são verbos imprescindíveis para todo tipo de aprendizado que passamos e passaremos (enquanto tivermos vida). Desilusões amorosas não significam que devemos parar de amar. Da mesma forma que originais, negados pelas editoras, não decretam a desistência de escrever.

Nossa vida é mesclada por começos e recomeços. Encontros e desencontros, chegadas e partidas. O ciclo da existência humana se repete sempre. Mas as nossas atitudes e convicções devem também ser as mesmas? A vida é um poema de estrofes, com versos inacabados.
 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Conversa de vizinhos sobre forminhas de gelo

Por Amilcar Neves* 

 

Passava em frente à casa do amigo quando foi por ele interpelado. Isso era-lhe habitual. Não a interpelação, esclareça-se esta circunstância a bem da verdade histórica, mas o passear pela calçada do vizinho de bairro (bairro, ainda - coisa rara -, de casas unifamiliares, mesmo que de famílias unipessoais). Sabe, a possibilidade sempre estatística de que a Mônica andasse meio distraída por ali.

Passava a pé pelo passeio, convenientemente desapressado, e foi chamado, desgraçadamente não pela mulher, mas pelo marido, ambos, no entanto, igualmente amigões fraternos de longa data.

- Ia ligar agora mesmo para tua casa, Manoel Osório, e saber se estavas sem água - falou Eduardo.

- Tudo bem - respondeu o amigo -, posso voltar já para casa e aguardar a tua ligação, a qual sempre me é gratíssimo atender.

- Obrigado pela boa vontade, mas não te incomodes, por favor. É que fiquei com minhas três caixas d'água a zero, já pensava até numa cisterna de 20 mil litros.

- Algumas pessoas dão a um aparato assim o nome de piscina. Na verdade, acabei de ficar sem água, sim, mas apenas no bebedouro da cozinha, um caso de filtro sujo. Fiz a retrolavagem e a água retornou fresca e saudável - explicou Manoel Osório enquanto pensava com seus botões: e essa Mônica, será que não vai aparecer de uma vez? Essa Mônica de pernas estonteantes, essa Mônica interminável como os aparelhos de barbear de propaganda, que se usam um sem-fim de vezes sem que eles se gastem, sem que eles te irritem a pele, sem que te canses deles? As pernas da Mônica como propaganda de barbeador de lâminas múltiplas, insuperável: insuperáveis.

- Ligava para o pessoal da água - Eduardo ia dizendo - e eles garantiam que tinha algo errado, pois não havia reclamação alguma aqui do bairro. Tanto negaram problemas que, num estalo, resolvi conferir e vi: algum gaiato passou aqui e fechou o registro de entrada. Tornei a ligar para o 0800 da empresa, pedi desculpas pela aporrinhação, mínimo que podia fazer, e voltei para cá: acabo de imobilizar o registro com dois rolos e meio da mais encardida fita adesiva que existe.

- Trabalho de mestre, eu diria - congratulou-se Manoel Osório com o marido da Mônica; e pensou consigo: e ela que não aparece, ela que certa feita saiu do banho assustada com uma perereca na parede e surgiu à frente dele e de Eduardo enrolada apenas em uma toalha. Em uma toalha de rosto, somente o diabo sabe como as mulheres conseguem esconder tanto sob tão pouco pano.

Fez-se silêncio entre os dois amigos: de júbilo da parte de Eduardo pelo belo trabalho executado e de abatimento dada a profunda frustração de Manoel Osório. O qual silêncio este enfim quebra:

- Procuro formas de gelo, meu caro Eduardo, porém daquelas antigas, metálicas. Não há uísque tão saboroso quanto as doses temperadas por gelo de forminha de alumínio. Sabes onde...

- Por Zeus, Manoel Osório! Por Deus! Avisa-me se encontrares dessas preciosidades em algum lugar do mundo! - seus olhos inundam-se de recordações da infância. - Minha avó tinha dúzias dessas forminhas. Quando a doce velhinha morreu, sumiram todas elas. Se lhe fosses pedir um suco de laranja, ela, exigente e preciosista como toda virginiana com ascendente em Touro, te serviria um suco de laranjas naturais com pedras de gelo de igual matéria. Armazenava dezenas de forminhas, cada qual com gelo de diferente suco. Se encontrares alguma dessas, meu amigo, não te esqueças de mim, querido, eu te suplico.

* Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 08.01.14