segunda-feira, 30 de junho de 2014

partido-alto

Por Ana Paula Perissé
 
 


                                               sou quase
                                               nada.
                                               é por absoluto
                                               que seja
                                               parte
                                               .
                                               .
                                               .
                                               de 1' samba de
                                               memórias,
                                               partido-alto
                                               de esquecer-me
                                               quase tua.

                                               (batuque constante
                                               de uma praia raiada)

 

domingo, 29 de junho de 2014

sábado, 28 de junho de 2014

O quebra-cabeça

Por Meriam Lazaro




Inocência, beleza, asas. Assim respondo à pergunta de Anita: O que lhe sugere esta margarida? Costumo dizer que margarida, prímula, zínia são flores com verdadeira cara de flor! Daquelas que as crianças desenham, imensas como árvores ao lado da casinha com janela em formato de coração. Completa a obra de arte um lago cheio de patos metidos a cisnes, o sol esquisito num canto sobre nuvens esfiapadas, pássaros voando e os membros da família lado a lado, incluindo o novel Picasso. Entre as pétalas do quebra-cabeça encontro também histórias e canções, como a doce “La Margarita Dijo No”, de Alejandro Sanz, acompanhado por coral de vozes infantis. O tradicional oráculo bem-me-quer, mal me quer finaliza a canção... Amor, estranho amor que se pergunta a uma flor! Também embelezam a floração, as Deises cativantes que receberam o nome inglês da flor. Outras, como a Dona da questão, que se identificam com imagens de brancas margaridas e sorriem para nós com o sorriso de Maria. Por fim, o centro dourado, dá asas à flor. A beleza das flores atrai não somente nossos sentidos, mas pássaros, borboletas, besouros.  Para que a vida se mantenha, a flor os atrai ao pólen e assim alada, se espalha pelo mundo.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

A chuva nossa de cada dia

Por Mayanna Velame




Confesso que gosto muito de tempos chuvosos. Não sei exatamente o motivo, mas creio que seja, talvez, pelo fato de me sentir mais introspectiva e sensível.


Da janela de um carro, ou da janela da minha casa, aprecio feliz as gotículas de água, que descem do céu e beijam, sem pudor, a terra que pisamos.


Porém, o que me encanta mesmo são os eventos que acontecem no céu, antes mesmo da chuva cair: o horizonte se torna nebuloso e as nuvens brancas se transformam em grandes blocos negros e densos.


Na verdade, não estou falando daquelas chuvas avassaladoras, que destroem casas, alagam ruas e aniquilam plantações. Estou me referindo àquelas chuvas que benzem mansamente as manhãs, deixando-nos prisioneiros de nossas camas - em plena segunda-feira. Há também as chuvas indesejadas, que descem da casa de Deus nos fins de tarde (depois de um dia exaustivo e rotineiro). Estas soam com mais melancolia, porque anunciam a chegada soturna da noite.


E por fim, temos as chuvas noturnas. Acompanhadas das nuvens ruborizadas, convertem o bucólico momento em solidão e nostalgia. No mais, o que resta é terminar de escrever esta singela crônica, beber meu vinho e continuar ouvindo os chuviscos abençoados, que agora repousam sobre o telhado de casa.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A traição do corvo branco

Por Amilcar Neves*



Dorinda sempre manteve uma relação descuidada com os corvos brancos. Para ela, pouco valia a cor do corvo e, sim, a desimportância de qualquer corvo. Assuntos corvinos jamais lhe atraíram a atenção. Tinha mais o que fazer na vida do que ocupar-se - e, menos ainda, do que preocupar-se - com corvos ou bichos de semelhante quilate. Neste sentido, sua única preocupação prendeu-se ao teor de pureza do ouro, medido em quilates, da aliança de noivado proposta por seus noivos. O primeiro deles, só pra começar, ofereceu-lhe em embalagem de aparente luxo uma joia falsa, que sequer 18 quilates alcançou: despediu o noivo e foi em busca doutros, mais bem aquilatados.

Não seria depois de casada, com cinco filhos para criar e encaminhar neste mundo cada vez mais confuso, que ela se envolveria com corvos, corvachos ou corvinas. Se fosse para dedicar algum esforço, seria ao povo das corvetas, um pessoal de inegável futuro e inabalável prestígio, especialmente junto às moças do Sul catarinenses. Nenhuma donzela da região haveria de negar uma homenagem, uma curvatura, um sonho lúbrico ao povo corveteiro.

Foi então que lhe chegou a notícia pelo inseparável iPhone: aí vinha em breve, para visitá-los, a ela, ao marido pragmático e aos filhos (embora todos autônomos ou casados) o sobrinho da Capital, distante ainda que incessantemente referido e, mesmo, reverenciado pela gente do seu imenso clã.

Sim, em poucos dias Manoel Osório arribaria aos ermos de Cocal do Sul com o desígnio primordial de visitá-la, a ela, sua tia Dorinda Osória, altamente estimada por ele dentre todas as mulheres osórias. Ao ler a tela iridescente que rebrilhava aos derradeiros raios de um poente magnífico sobre todos os demais, Dorinda aprumou-se, refletiu sobre suas obrigações e responsabilidades, suspirou e disse de si para si: sim, seja o que Deus quiser e o destino enviar! Gostava muito de Manoel Osório, embora não deixasse de incomodá-la um grande bocado o fato de seu sobrinho morar, único entre os Osórios, na Ilha de Santa Catarina. Era meio como se ele, teimoso na sua decisão de fixar-se num local que lhe fora vedado, quisesse desafiar toda a família, a começar pelo tetravô, então vivo à ocasião da deliberação de não retornar ao Sul. Manoel Osório preferia assumir os incríveis ônus de permanecer para sempre (?) na Capital ao invés de cumprir a imposição quase sagrada de devolver à sua terra o que ela lhe proporcionara: uma formação digna, como a todos os Osórios e Osórias, numa das melhores faculdades de Direito do País. Por isso Manoel Osório era veladamente admirado pelos seus, especialmente pelos mais jovens, e abertamente censurado por todos, em especial pelos mais idosos.

Manoel Osório confessava à tia Dorinda Osória que intentava consumir com ela os dias do feriadão de Semana Santa, Páscoa e Tiradentes, tudo emendado, para conhecer o tal de corvo branco, aproveitando-se da ocasião e da proximidade geográfica para ir ver o morro da igreja e visitar uma certa pedra furada.

Dorinda Osória não chegava a atinar bem sobre o que seriam essas coisas. Em conversas com um e outro aqui e acolá, colecionando opiniões e alinhavando comentários, deduziu que tudo passava por uma estrada de chão batido que demandava os altos do planalto.

Quando o sobrinho aportou, o único que lhe pôde dizer é que uma chuva intensa nos últimos dias interditara a passagem para o seu sonho, o que a ele lhe pareceu um ato de extremas desconsideração e deslealdade.


* Conto publicado no jornal "Diário Catarinense" de 23.04.14

quarta-feira, 25 de junho de 2014

cumé qui é?

Por Fabio Ramos


Seu Lunga

em
vez de
"furúnculo"
disse
FURUNCU


em vez de
"sustar o cheque"
disse
ASSUSTAR O
CHEQUE


em vez
de
"estupro"
disse
ESTRUPU


em
vez de
"mortadela"
disse
MORTANDELA


em
vez de
"hemorroida"
disse
EMORRÓIDIA


e
ainda
chamou o
prof.
de
IGONORÂNTI

terça-feira, 24 de junho de 2014

O samba de um dente só

Por Denise Fernandes
 
 


     É um prazer ver o Tom Jobim apresentando o "Samba de uma nota só". Como sou a consequência inevitável de você.
 
     Mesmo que eu me sinta triste e sem ter a certeza se isso tem a ver com alguém ou só comigo mesma.
 
     Mas não é que eu me sinta completamente triste. Me sinto como o dente só. Exatamente como ele. Explico: um amigo meu dentista me contou que foi procurado por um homem com um dente só para a confecção de uma dentadura. Meu amigo propôs que seu único dente fosse retirado numa rápida e indolor cirurgia, para melhor eficiência da dentadura. O homem recuou. Pelo amor de Deus, doutor, o dente não. O dente fica. Esse dente é mais importante que tudo, o senhor não sabe. Mas a dentadura vai ficar mais difícil, muito mais cara. Não tem importância, Doutor, esse dente é muito importante e tem muito valor, o senhor não faz ideia. Eu pago. O valor do dente é muito alto e compensa meu investimento.
 
     Esse dente pilar esse dente esperança esse dente triste de solidão, dente que janta e almoça e toma café sozinho, dente rodeado de ar, dente rodeado de vento, dente saudade dos outros, me sinto como esse dente cravado na boca, à espera, não mais dos outros, mas da dentadura; como uma alma na boca, a dentadura, a companhia. E no espaço da espera, o dente pensa, sente mais. Como uma pessoa supersensível, o dente respira com dificuldade, sentindo cada momento como se fosse uma música. O dente sente pressa, uma ansiedade como se estivesse apaixonado. Na janela da boca, o dente espia o tempo todo a dentadura que não chega.
 
     O dente sofre. Mas talvez seja um sofrimento bom, o dente não sabe. O dente é tudo o que sobrou, uma pergunta, uma força, um presente do destino, talvez uma graça de Deus, dente sagrado uno, envolvido pela dentadura. Dente, mordida e sabor. Dente cheio de possibilidades. Meu amigo dentista também é tomado pelo amor ao dente. E capricha. Porque com a dentadura o dente único adquire importância absoluta. É mais que um dente, é uma semente que vai brotando e dizendo o que ainda podemos não só sonhar, mas também realizar. Quem não tem esse dente só, se sente perdido, sem saber por onde ir. No caos da boca, como encontrar o norte, a estrela que orienta? Boca mar, esse dente só é o próprio continente e o porto onde eu espero, espero, espero.
 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

aion

Por Ana Paula Perissé
 
 


                                          (flerte
                                          em flamejante

                                          dúvida)

                                          à dureza
                                          do passado que se desponta
                                          um dedo do meio
                                          como se fosse mar,
                                          ou 1´sorriso crédulo
                                          por ondas ribeirinhas.

                                          cada pequena
                                          paquera
                                          em desviante dívida¨

                                          "de sonhos de outrora
                                          afago
                                          fantasmas em pretexto
                                          de perder-me

                                          lux.

 

domingo, 22 de junho de 2014

sábado, 21 de junho de 2014

A contadora de histórias

Por Meriam Lazaro




Nasceu. Chorou. Chorou. Chorou. Mamou. Dormiu. Dormiu. Dormiu. Dias depois os doadores de esperma e óvulo desapareceram e ela foi parar num lar para adoção com outras crianças. Engatinhou. Caminhou. Fez peraltices. As tias do lar pareciam não ser tão amorosas. Sempre apressadas plantavam, colhiam, faziam beijos-de-moça para vender, pediam ajuda pela comunidade.


Comia. Brincava. Estudava. Aprendeu a ler. Aprendeu a escrever. Aprendeu a desenhar. Aprendeu a contar histórias tristes a seu respeito e a respeito das outras crianças. Completou a maior idade ainda no lar, pois não havia permanecido mais que alguns dias pelas famílias que a haviam escolhido para adoção. Hora de ganhar o mundo. Casou-se. Quis ter filhos. Não pode tê-los.


Querer nem sempre é poder, mas dá ideias para a ação. Foi cuidar de crianças num lar para adoção. Mãe-crecheira, sempre apressada plantava, colhia, fazia beijos-de-moça para vender, pedia ajuda pela comunidade. Crianças são incansáveis e famintas. Mantê-las limpas, saudáveis, alimentadas, fora de perigo é mais que amor.


Mas aquelas crianças precisavam de cura para a mágoa, o que no mundo atual tem alto custo. Pediu ajuda aos céus! Aprendeu a recontar sua história, onde um pai e uma mãe lhe doaram a vida; inclusive, a mãe, com risco de perder a própria vida, pois o parto tem dessas coisas. Contava que a maior missão dos pais era justamente esta. Cuidar, qualquer um pode fazê-lo sem riscos.


Ensinou as crianças a contar histórias. Reunidas em grupo de duas, cada uma contava uma história mais triste que a outra. Depois trocavam de história onde deveriam recontar a história da parceira sob a visão de um anjo. Aprenderam que toda história pode ser contada pelo menos de dois pontos de vista diferentes e que a felicidade, a fé, o bom ânimo, assim como outros sentimentos podem ser exercitados.


As crianças saíram a contar histórias leves, onde a gratidão levava a melhor. A mágoa, pouco a pouco, foi conduzida para longe das histórias. Ainda seria sentida, pois é irmã companheira de outros sentimentos na espécie humana, mas não necessita ser cultuada. Não foram felizes para sempre, porque "sempre" não quer dizer nada. Mas foram felizes, a sua maneira, um dia por vez. Sorriu. Sorriu. Sorriu.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

1986

Por Mayanna Velame




Gosto muito desse clima de Copa do Mundo. Mesmo que a nossa seja alvo de críticas – muitas das vezes exageradas e sem fundamentos. Mas, nesta crônica, não vou utilizar as palavras para protagonizar discursos hipócritas e pseudo-patrióticos.


Prefiro me refugiar à memória e recordar a Copa de 1986, quando esta cronista tinha apenas três aninhos de idade. Na época, viajei com minha mãe e meu irmão ao Rio de Janeiro, para uma temporada de um mês. A cidade maravilhosa rendia-se a um rigoroso inverno. Para mim, que sou do Norte do país, era gostoso sentir aquele vento gélido roçar minhas bochechas e afagar meus cabelos.


Lembro-me de correr, que nem uma desventurada, pelas calçadas da Praça Saens Peña. Sorrindo, eu espantava os pombinhos e me deliciava com pipocas e amendoins torrados. Melhor que isso era poder contemplar o pôr do sol, na Praia da Urca. Passear de braços dados com mamãe e vovó, enquanto meus olhos miúdos observavam as bandeirolas, com as cores da bandeira nacional, sobressaindo-se entre o céu cinzento da capital fluminense. O Rio de Janeiro lindo, na percepção de uma criança.


Mas o ápice se dava na hora de assistir aos jogos, na casa de minha avó. A cada partida, o coração era testado; a cada jogo ganho, alívio, euforia. Vovó rezava, apegava-se a todos os santos, ao Papa e a Deus. Orava o Pai-Nosso, a Ave-Maria e tudo mais que podia. Eu apenas a esquadrinhava. Não entendia nada de futebol, mas conseguia absorver aquela atmosfera, que somente uma Copa do Mundo causa naqueles que a apreciam.


Para comemorar, vovó satisfazia os desejos do nosso estômago, com guloseimas intermináveis. Milho cozido sempre foi a minha pedida. Momentos únicos que a memória guarda – e registra com recortes. Momentos como uma partida de um mundial. Inesquecíveis recordações que ecoam na mente, como um grito de gol.


Em 1986, o Brasil não ganhou a competição. Tristeza geral para todos. Inclusive para vovó, que não conseguiu esconder suas lágrimas. Quanto a mim, eu ocultei a melancolia de ter que voltar para Manaus.


Não haveria mais Corcovado, Cristo Redentor, Copacabana, bondinhos, Praia da Urca. E muito menos haveria vovó, com suas rezas e promessas. No entanto, restaram essas lembranças (imortalizadas como grandes finais, numa Copa do Mundo).

quinta-feira, 19 de junho de 2014

A função e o papel de uma feira do livro

Por Amilcar Neves*



A função de uma feira do livro é obvia: vender livros. Assim como, numa feira de gado, o objetivo é vender gado. Numa feira de informática, vender equipamentos, acessórios, aplicativos e serviços. Uma feira de informática, pois, já não vende apenas computadores e assemelhados. Vende também ideias, conceitos, treinamento, desejos e expectativas, ou seja, amarra o seu consumidor e busca incessantemente cativar novos clientes. De início não se fala em marcas, mas em segmentos de mercado. O mais importante é que haja gente querendo comprar computadores. Ou portáteis, ou leitores de livros, ou tabuletas, ou telefones expertos. Gerada essa vontade incontrolável de possuir algo novo, moderno, recente, maravilhoso, passa-se à segunda etapa do processo: a competência das marcas intimamente relacionada aos preços de venda, que são os valores que se está disposto a pagar. Aqui já estamos falando do papel da feira de informática.

Com os livros não é diferente do que com o gado e os eletrônicos.

A própria feira de gado não vende apenas gado. Reses talvez nem sejam a maior parte dos negócios. Feira de gado que se preze venderá vacinas, remédios, unguentos, inseticidas, carrapaticidas, serviços veterinários, técnicas de inseminação artificial, de aumento da produção do leite e de incremento da geração de carne; venderá equipamentos para tratar do gado e explorar suas potencialidades, venderá formas de organização da produção, tecnologias de abate e de manejo, promoverá tantas palestras quantas puder sobre todos os aspectos envolvidos na atividade vacum, trará - pagando bem e oferecendo todo conforto possível, mesmo para gente da terra onde se realiza a feira - especialistas e conhecedores renomados, vaqueiros e fazendeiros experimentados, professores e pesquisadores gabaritados que arrebatarão pequenas multidões para suas falas, seminários, oficinas, mesas-redondas, palestras, conferências, demonstrações, colóquios, cafés da manhã e papos de corredor, tudo no sentido de enfeitiçar mais e mais gente com as belezas, inclusive as financeiras, do trato com esse tipo de bicho.

Com os livros não é diferente do que com o gado e os eletrônicos.

Sexta-feira passada estive em Joinville para participar de reunião do Grupo Gestor do Fórum Catarinense do Livro e da Leitura. O encontro se deu na sala de reunião da Reitoriabda Univille. Univille é a Universidade da Região de Joinville. Estava presente gente da Universidade, do ProLer Joinville e da Biblioteca Pública Municipal Rolf Colin. A justificativa era uma: muita gente não pôde comparecer porque estava superenvolvida com a Feira do Livro da cidade.

A caminho de lá, no rádio do carro a Udesc FM Joinville "tocava" uma longa entrevista com Luiz Carlos Lacerda, cineasta e poeta carioca, um dos convidados da feira onde mais tarde palestraria e autografaria. Udesc é a Universidade do Estado de Santa Catarina, com campus ao lado da Univille.

Na feira, foi possível comprar livros de qualidade por preços extremamente convincentes. Algo como 3 livros por dez reais. A Taça de Ouro, de Henry James, ou 35 Noites de Paixão, de Dalton Trevisan, não serão obras dignas de uma boa estante? Ou O Dia em que Getúlio Matou Allende, de Flavio Tavares, e Péricles, Príncipe de Tiro, de William Shakespeare, a dez reais cada, serão coisas de jogar fora? Isto é a função de uma feira do livro.

Seu papel, difundir o prazer imenso da leitura e seduzir perdidamente novos leitores.

* Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 16.04.14

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Ching-Ling

Por Fabio Ramos




na barraquinha
do camelô


tem
pente
de plástico


espelho com
moldura
laranja


tem óculos
de sol


bijuteria
que
enferruja


tem
protetor
de
bilhete único


filmes em
dvd


tem
miudezas
para o
lar


cortador
de
unha
também


tem
isqueiro


raquete
que
dá choque em
mosquito


tem
camisa
falsificada


e brinquedos
à pilha


tem
cueca
meia touca luva
guarda
chuva


até
imagem de
Nossa Senhora
Aparecida


tudo
tudo
vem da china

terça-feira, 17 de junho de 2014

Medo da palavra

Por Denise Fernandes



 
E agora essa dificuldade para escrever, esse medo da palavra. Ele disse: "Pense bem no que vai me dizer". Se é assim, fico quieta. E não se cala só a boca, se cala a mão, se cala o pé. No silêncio sem palavras. Porque sei que sou incapaz de pensar bem um assunto. Só consigo pensar um pensar sem fim, cheio de perguntas, um pensar inacabado, que não é um pensar bem, mas só um pensar e talvez repensar.


E simplesmente pensar no poder das palavras, no que elas são – faca, perdão, razão, emoção. Alguns poucos pensamentos já me fazem optar pelo silêncio. O silêncio garante que não vamos discutir nossa relação, que teremos palavras mínimas, mas (como ele já percebeu) exatas. Contida, a sós, com milhares de palavras passando dentro de mim sem que ninguém as conheça, pisando com delicadeza o mesmo campo de brasas, sempre o mesmo, não há a mínima possibilidade do entendimento. Esqueço o que tinha começado a fazer no meio, fico ali: o que vim buscar no quarto? Devo desistir um pouco mais de tudo, me esconder no íntimo, mais silencioso do que esse silêncio de palavras?


Mas é verdade que, sem a palavra, meus sentimentos e emoções ficam mais livres. Água correndo livre, protegida de rótulos, de palavras definidoras. Meus sentimentos ficam mais como são sem as palavras, cores do mundo, flores do mundo, sentimentos do corpo, sensações, sensações indizíveis, indefiníveis. Sem a palavra, a verdade é corpo. Sem pensar bem, vou falar um pouco. Se ele também tem medo das palavras é porque sabe como elas são.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

sonho de alice

Por Ana Paula Perissé


Imagem: Salvador Dali para Lewis Carroll
Alice's Adventures in Wonderland


                          sonho içado sonho irado sonho náufrago sonho k
                          despencam texturas
                          slices de Alices
                          e pedaços vermelhos de cais

                          floresce nua
                          sem mio
                          arranhada/depurada
                          cravejada de gozo e de
                          fúria oblíqua
                          .
                          .
                          .
                          posso entrar?

sábado, 14 de junho de 2014

Janela indiscreta

Por Meriam Lazaro
 
 
 
O filme Janela Indiscreta narra a história de um fotógrafo que, com a perna imobilizada, observa de janela a janela um assassinato bem ao estilo que nos envolve na trama, quase imperceptivelmente, imortalizado por HITCHCOCK. Daquele período de quase inocência das janelas é encantador observar a beleza das divas, despidas dos recursos da plástica moderna e das imagens digitalizadas. Assim é a beleza de GRACE KELLY no filme e de tantas verdadeiras divas do cinema.

Distante da fama, as primeiras imagens da televisão foram-me explicadas como sendo de bonecos em movimento lá dentro, o que dado o tamanho dos aparelhos da época e à farta imaginação infantil bem seria possível. A indiscrição ficava por conta do uso de binóculos que, por um lado, distanciavam e, por outro, aproximavam as imagens de quem passava na rua.

Hoje o acesso à informação é de todos. Quem quiser pesquisar pela internet o seu endereço residencial, não raro, se depara com sua janela da sala ou com seu filho no jogo de bola da esquina. Assim, neste inventário não sei se contabilizo como ganho a fácil exposição de ideias e particularidades na internet ou como perda crescente a do abençoado anonimato.

Os sítios de busca da internet permitem acesso à variada informação de valor e também a lixo. O consumismo se agiganta como a maior onda do planeta. Na busca de oferecer em primeira mão a mercadoria de que o público alvo necessita antes mesmo de o saber e assim cativá-lo, anunciantes captam o que se pesquisa e se escreve na internet e o que se compra com cartão de crédito. Quem observar os anúncios das lojas ao lado de seus textos terá uma ideia do que falo.

- Ah, mas nem todos os anúncios tem relação com o que escrevo, dirão alguns. Não é bem assim. Os sítios que frequentamos têm anunciantes limitados e já ressabiados com ações judiciais sobre privacidade. Convém, entre um anúncio sobre produtos para a adolescente grávida que pesquisou na internet sobre óleos para evitar estrias na pele, outro nada a ver, como um anúncio sobre caniço para pescaria.

Depois tem gente que se indigna com anúncios em sua caixa postal sobre utensílios mágicos para aumentar isto ou aquilo. Pior ainda são os que compram o ilusório utensílio e, não obtendo o resultado desejado, se veem tolhidos de reclamar para não se expor ainda mais ao ridículo. Não se engane! O deus da internet tem olho que a tudo vê.



quinta-feira, 12 de junho de 2014

A visita de Bud, que veio de Vermont

Por Amilcar Neves*
 
 
 
Bud, de nome William, saiu de Vermont para visitar o filho que mora no Brasil.
 
 
Assim que soube que Nathan, o filho em questão, namorava uma garota brasileira em Nova York, ele correu até uma livraria de Middlebury à procura de títulos sobre o Brasil. Middlebury é a cidade mais próxima da sua casa. À época, Bud e a mulher viviam literalmente no mato. Haviam abdicado inclusive da energia elétrica. Na livraria, descobriu a Amazônia e ficou fascinado pela imensa floresta tropical. Naquela livraria, naquele momento, todo o Brasil resumia-se à Amazônia.
 
 
Bud leu o livro que comprara e tudo o mais (pouca coisa) que conseguiu garimpar sobre a região. Sem luz, não é muito o que se pode encontrar sobre qualquer assunto. As publicações impressas acabam por se tornar a fonte exclusiva de informação e conhecimento. Em sentido figurado, Bud mergulhou naqueles rios caudalosos, comparou as árvores que via nas fotos com as que tinha na sua floresta, soube de alguns bichos da mata e inteirou-se dos índios brasileiros, tão diversos dos peles-vermelhas.
 
 
Então sucedeu que o filho e a namorada casaram e partiram para o Brasil. Bud exultou: agora conheceria a única coisa que sabia do país que recentemente descobrira: a Amazônia. Com os dois morando no Brasil, qualquer que fosse o local escolhido, ao visitá-los ele estaria praticamente ao lado da imponente floresta. Um dia ele descobriria que, em extensão territorial contígua, o Brasil é maior do que os Estados Unidos, que nos ultrapassa em área apenas pela ajuda substancial fornecida pelo Alasca.
 
 
O novel casal foi morar em Feira de Santana, na Bahia, e Bud não veio visitá-lo. Mudou para João Pessoa, na Paraíba, e Bud não foi até lá. Então, estabeleceu-se na Ilha de Santa Catarina e Bud enfim apareceu. A Amazônia ficou longe (e cara) demais e Bud, por seu turno, também se mudara para a cidade (no caso, a própria Middlebury) e para a luz elétrica. Os tempos, pois, eram outros. Os interesses, eventualmente, também.
 
Em Florianópolis, Bud encontrou uma população pouco menor do que o total de todos os habitantes do seu Vermont, que soma cerca de 625 mil almas (a maioria das quais cristã, sendo os católicos o grupo religioso mais numeroso). Também encontrou muitas montanhas verdes na Ilha, o que remete simultaneamente aos 77% de cobertura do território por florestas e ao nome do estado, Vermont, batizado pelos primeiros colonizadores, os franceses, com uma descrição: verts monts, ou seja, montes verdes.
 
 
Bud não haveria de passar pelo Estado sem descer a Serra do Rio do Rastro, aventura estonteante que efetivamente concretizou num dia de especiais clareza e transparência. Na Ilha, não cansou de conhecer praias e comer frutos do mar, o que incluiu camarão ao bafo e peixe com pirão. Como não poderia deixar de ser, saboreou um autêntico churrasco gaúcho, passando pela indefectível caipirinha - mas apenas para prová-la, pois seu domínio etílico não ultrapassa a cerveja e o vinho. Seu sonho agora é aprender a usar a tarrafa. Outro dia, invejava a perícia de um garoto de 12 anos tarrafeando na Lagoa e trazendo na rede, ali ao vivo, à sua frente, peixes de verdade.
 
 
Mas o que mais o encantou, sem dúvida, foi um local em que esteve por diversas vezes, inclusive alcançando-o a pé pela trilha que leva até o Ponto 16, um dos atracadouros dos barcos que ali fazem as vezes de ônibus: a Costa da Lagoa.
 
 
- Ainda vou comprar uma casa aqui! - proclama maravilhado um Bud de 72 anos.
 
 
* Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 09.04.14