terça-feira, 30 de setembro de 2014

O espetáculo da lágrima

Por André Vianna 

 

Se por tristeza ou alegria é mistério
Mas ela nasceu
E languida desceu pela face da menina
- Dançando sem pés - A lágrima bailarina
Movimentou-se como se não houvesse amanhã
Roçou o nariz, rodopio pela maçã, afagou a tez
E num afã insano saltou triunfal e, tal qual Sol,
Ela se pôs no horizonte do rosto
Caiu o pano
 

Nasci no Rio de Janeiro em 1978. Publiquei em diversas antologias poéticas e também tenho um livro de contos - Sobre o Natural e o Sobrenatural - lançado pela Editora Multifoco.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

duas luas

Por Ana Paula Perissé




                                             (fagulha ardorosa
                                             em pulsar desviante)


                                             sopra ventania
                                             molha maré
                                             encolhe mundo
                                             para que me caiba
                                             alma já na superfície
                                             de pele tua...


                                             (fricção de células
                                             em bailado nocturno)


                                             estranha-me
                                             senão te respirar
                                             em âmbar:
                                             lua em frenesi
                                             de duas
                                             no horizonte.


domingo, 28 de setembro de 2014

sábado, 27 de setembro de 2014

Surreal

Por Meriam Lazaro
 
 


O espaço branco permitia a visão de várias portas: largas, nem tão largas, estreitas, só o marco.


Dedos giram a maçaneta. Amapola brincava sem brinquedos. Seu Joaquim Polegário era o portuga da padaria, naturalmente. Com bigodão desenhado nos cantos da boca. Precisava de uma noiva urgente. Que tal dona Amistosa, uma espanhola? Da direita não ia dar! Teriam que morar no mesmo lado esquerdo do peito. Seu coração, indicador de corações solitários, apontou Dona Iolanda Palma, dos olhos de nanquim. Daqui em diante seria: Dona Lola Polegário, elegante esposa de um estrangeiro. Vovô Papa falava pra todo mundo que ela daria uma boa contadora no caixa da família. Mais alto que todos, vovô era conhecido como o Pai dos Toldos, por causa do chapéu de tampinha de refrigerante. Essa onda de reciclagem de qualquer jeito, deixava Tio Saturnino com vergonha da parentada e a se esconder sob os anéis de papel. Criança não ia ter naquele lado não! Melhor que o mascote da família Palma fosse um cão com focinho de miolo de pão. Minguinho, cão travesso e mal educado gostava de cutucar as orelhas dos outros.


Na outra casa moraria a família mais divertida do planeta! Dona Amistosa Quirodáctilo,que contava histórias sobre tudo que era coisa, com sorriso pontilhado, devia ter duzentos anos. Era a espanhola mais brasileira que havia. Tinha sido parteira, benzedeira, carpideira, costureira, lavadeira, cozinheira, enfermeira, marinheira e uma porção de eiras. Até engraxate... Coisa que só tinha visto trabalharem os meninos da Vila Mão Fina, agachados lá na praça da Matriz. Agora, o Seu Coralino era o indicador regente das fofocas do bairro. Magrinho, parecia descarnado, andava pelos paralelepípedos como se flutuasse agitando uma imaginária varinha de maestro. O pobre velhinho se atrapalhava todo ao contar causos, mas divertia mesmo assim. Trocava nomes, datas, fatos, tudo! Era um tal de Saci que jogava beisebol, um pajé Sting que fazia OM... com seu cachimbo de ouro, a freira que dançava tango e outros absurdos. No lado direito, o mais alto de todos era o Padre Amatulo. Bonachão, gostava de se vestir de Drácula toda sexta-feira treze (que no calendário daquele povoado feliz era toda sexta-feira), quando esvaziava um garrafão de vinho. Depois, havia as gêmeas Pã e Mela. Caneta esferográfica verde e caneta vermelha Bic da ponta fina, que nem as duas rainhas de Alice no País das Maravilhas. Nada, nada parecidas. Devia ser proibido ter irmã gêmea mais bonita que a outra.


A porta se abre. Quando o enfermeiro entrou trazendo a bandeja inox e o algodão no álcool para apagar todo mundo, Amapola bateu palmas e sorriu. Tinha em cada mão uma história inteira pra contar!

 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Malefícios do tabaco

Por Amilcar Neves*

 

Magra, decidida, pilotando seu próprio carro, comprado com o esforço do seu honesto trabalho, entra apressada no posto de combustível, os vidros laterais dianteiros baixados até a metade. Adentra o recinto, como gostam de falar certos locutores de futebol: "o juiz adentrou o gramado verde do colosso citadino". Não é juiz, e sim árbitro, mas fica muito mais fácil xingá-lo de juiz ladrão do que de árbitro larápio, ou o que o valha.
 
 
Mas ela. No posto, demonstra não ter tempo a perder, atarefada que anda num dia de final de semana, esses compromissos todos que não a deixam sossegada. Para junto a uma das bombas de gasolina (por sorte, não havia ninguém à sua frente - para sorte do ausente, evidentemente) e pede que encham com o líquido de fácil e explosiva combustão um garrafão branco de plástico que estende ao frentista com a mão esquerda.
 
 
Uma típica profissional bem-sucedida dos tempos modernos. Mas não está só. Junto dela, saltitando em seu colo, uma cadelinha de apartamento. Quer dizer: a cadelinha de apartamento é sua cachorrinha de estimação, quase o motivo de sua vida. A moça é vidrada em natureza, bichos e meio ambiente. Superantenada com o planeta, exigente no tocante ao respeito devido a todo e qualquer ser vivo. A cadelinha chegou muda e continua muda, o que é virtude rara nesse tipo de animalzinho.
 
 
Na mão direita, a moça traz um cigarro aceso, um longo cigarro que certamente foi aceso no caminho, já bem depois de ter passado a última esquina antes do posto. Fumando. No posto. Posto de gasolina. De vez em quando, o cigarro desaparece com a mão por baixo do volante. De vez em quando, o cigarro se sustenta aceso entre os lábios dela (mesmo porque cigarros não têm lábios).
 
 
Um cliente foi chamar-lhe a atenção por motivos óbvios, afinal estava do outro lado da mesma bomba, que por pouco não vira uma bomba. Na meio da segunda frase dele, ela corta, irritada, com sua voz de travesti:
 
 
- Foi uma imprudência, claro. Uma falha, um erro, eu sei. Já pedi desculpas. Não precisa falar mais nada, não está vendo que já estou apagando o cigarro?
 
 
Antecedentes
 
 
O caso é o seguinte, moço, explica o frentista. Outro dia nós fomos falar, pedir com toda a educação, com o cuidado que o negócio exige - não podemos ficar incomodando os clientes, cliente incomodado vira ex-cliente, não volta nunca mais. Mas esse de que lhe falo: era um cara fazendo a mesma coisa, fumando junto da bomba. Senhor, foi um escândalo! O sujeito virou bicho. Gritou, xingou, puxou um rol de direitos, pegou nome do funcionário, pegou nome do gerente, pegou nome do posto, razão social, endereço, o escambau, e disse que ia processar o dono do posto e a distribuidora de combustíveis que nos fornece o produto. A gente então fica nessa sinuca, o que podemos fazer a não ser deixar ir tudo pelos ares?
 
 
Respira, aliviado: Essa, ao menos, teve tempo de pedir desculpas - antes que tudo explodisse.
 
 
Mário Antônio!
 
 
Certa vez, brincando, chamei-o assim:
 
 
- Mário Antônio!
 
 
Ele se virou e disse:
 
- Puxa, deste-me agora um susto e me remeteste à infância no interior gaúcho! Em casa, eu sempre fui o Mário, o Marinho. Quando minha mãe ou alguma das minhas irmãs me chamava de Mário Antônio! é porque eu tinha feito algo condenável e vinha reprimenda braba na certa.
 
 
Pois o Mário Antônio da Silva Pereira acaba de fazer algo muito feio na manhã desta segunda-feira, antes ainda de realizar um dos seus sonhos, que era a Presidência da Academia Catarinense de Letras.
 
 
Nos últimos dez dias foram-se o Adolfo Boos Júnior (que saiu de mansinho, quando se soube estava sepultado), a Nadine Gordimer, o João Ubaldo Ribeiro e, agora, o Mário Pereira, todos excelentes escritores.
 
 
Está se tornando muito perigoso ser escritor por estes dias.

*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 22.07.14

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Cabelo Branco

Por Fabio Ramos 
 

 
 
juntos
por cinco
décadas
 
 
mas
vivendo
o
presente
 
 
(...)
 
 
quem
é
recebido
no lar
e
ouve
 
 
jardim
conservado
atrai
este
beija-flor
 
 
(sim)
(certamente)
 
 
por que
seria
diferente
?
 
 
de mãos
dadas
na
caminhada
seguem
os
dois
que são
um
 

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Água

Por Denise Fernandes
 
 


Nos teus pés refletindo sente
ficou tudo mais doce e leve
o rio misterioso tomando a gente
como uma música sua dança
eu lavaria tudo se fosse possível
na água mutante da corrente
me lavaria inteira
bicho d'água que sou
 

E no silêncio aquático nadam
filhotes, serpentes, uma vitória-régia
uma mulher que se parece muito comigo
os discos e livros que você esqueceu
 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

brutaexpectaria

Por Ana Paula Perissé
 
 


                                           causa 1`dano
                                           orgástico
                                           o acaso
                                           que se aconchega
                                           sob herança
                                           errática
                                           ulterior.

                                           (pista
                                           ou rastro raso
                                           de outroraderme)

                                           pois verte
                                           rumor invertido
                                           que improvisa no silêncio
                                           aquele porvir
                                           quase turvo¨

                                            ¨só pra deixar 1´sorriso
                                           grávido
                                           de maré&sopro
                                           em

                                           >>>  brutaexpectaria.

 

domingo, 21 de setembro de 2014

sábado, 20 de setembro de 2014

O filme, a canção, o túnel e Vincent

Por Meriam Lazaro
 
 

 
A ficção pode trazer conforto antes que em nós se hospede o tédio. Descreve-se o tédio como o sentimento caracterizado por falta de estímulo. Talvez o tédio possa surgir também pelo excesso de estímulo a que somos incitados, especialmente pela internet no caso dos frequentadores das redes sociais. Isto requer medidas para desacelerar. Que tal um filme de arte?


No sábado, escolho um clássico. O conto “Corvos”, no filme “Sonhos”, de Akira Kurosawa, mostra um rapaz observando telas no museu. As telas ganham movimento até que o rapaz se vê frente a frente com o pintor no campo de trigo. Pude entender porque aprecio tanto a aparente simplicidade da arte de Van Gogh. Percebo algo como: quando uma cena parece pintura, não necessita ser pintada. A beleza para o pintor está no cotidiano. Daí, aos olhos atentos, adquirirem vida uma cadeira com cachimbo, um quartinho com objetos modestos, sob a ponte as lavadeiras no rio, no campo os humildes colhedores de batata... Repito o conto e vejo que não subtrai dali a minha percepção.


No domingo, convite aceito para ir ao cinema, no trajeto comentei com uma amiga o que havia percebido sobre a arte de Van Gogh e do filme “Sonhos”. O som do carro mudou de Djavan para tocar uma belíssima canção estrangeira. Com inglês sofrível percebi que falava de estrelas, estrelas na noite, pintura em cores azul e cinza, árvores, flores flamejantes, sanidade e de novo estrelas, estrelas na noite. No trajeto, deveríamos passar pelo túnel que dá acesso à rodoviária, mas pouco saíamos do lugar por causa do engarrafamento atípico para uma tarde de domingo. Enquanto observava a floração das paineiras, pedi para repetir a canção, cujo título apareceu no mostrador: “Vincent”. Uma homenagem ao pintor! Restava descobrir o nome do cantor, o que fiz mais tarde pela internet.


Meia hora de engarrafamento depois, cruzamos a entrada do túnel. As pistas laterais estavam interditadas para um dos mais deslumbrantes acontecimentos de rua já presenciado por nós. Sob fortes holofotes, dezenas de grafiteiros de vários países estavam colorindo as paredes do túnel de uma ponta a outra. Fotógrafos com máquinas e celulares estavam a postos para captar a beleza do momento. "Vincent" continuava a tocar.


Um pouco atrasadas, conseguimos os últimos lugares para a sessão das cinco. Depois de passar por tanta beleza no caminho, me peguei de olhos fechados em vários momentos do documentário sobre a medicina indiana. Este sim, maçante! Novamente me veio à mente a ideia de desacelerar. Pensei em voltar ao antigo hábito de trocar correspondência com pessoas de longe. Não conhece o encantamento, quem não viveu a expectativa de receber uma carta, contendo figura ou desenho num canto do papel, no envelope o selo bonito para se colecionar e as notícias dos parentes lidas com toda pompa para deleite da família. Assim, não se espante se nos próximos dias o Carteiro chamar seu nome com uma carta na mão!
 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Celebrações sabáticas

Por Amilcar Neves*

 

Jovens, ambos. Ele branco, ela negra. O filhinho, de cinco anos, mulato de cabelos lisos, brinca com o carrinho do supermercado, empurrando-o para a frente, até atingir de leve a mãe, e para trás, até bater na perna do cliente na fila. O pai pega o menino, coloca-o no carrinho vazio - as compras na esteira do caixa - e faz uma brincadeira com ele, sorrindo; não vê, na atitude do filho, agressões à mãe ou ao desconhecido. O garoto se estica para pegar algo, a mãe procura o cartão de crédito para pagar as compras, o pai agarra o filho e o abraça. Em seguida, coloca-o de pé no chão, para lá dos limites do caixa.
 
 
- Olhem, eles já devem estar em Santo Amaro! - um outro casal, sem filhos, passa com as compras ensacadas num carrinho e fala para os dois.
 
 
É sábado, é início de tarde e ali da imensa vitrina do supermercado na Costeira do Pirajubaé divisa-se um cenário deslumbrante e ensolarado, de topo para o mar da Baía Sul, para as montanhas no Continente, para o céu distante e tão próximo. Em torno, os morros revestem-se de verde, no meio do qual destacam-se pelas copas fechadas e compridas, dispostas na vertical, alguns eucaliptos; pelos caules pálidos e retos, inflexíveis, distinguem-se muitos garapuvus que no topo se abrem para os lados, loucos para que chegue a primavera a fim de se cobrirem de flores amarelas, amarelando toda a Ilha.
 
 
Cores. Um sábado pintado em technicolor com tecnologia natural. Sem pagamento de royalties.
 
 
Então é que se revela, quando a muito custo trazemos de volta nosso olhar para o interior da loja, que pai e filho vestem camisetas idênticas, com um grafismo circundado pela frase que me deixa horrorizado: "Desenvolvendo o caráter de Cristo".
 
 
- Meu Deus! Dois mil anos já e esse senhor ainda não tem o caráter formado? - pensei quase em voz alta, e rezo aos céus para que efetivamente ninguém me tenha ouvido.
 
 
Escuto que os quatro adultos são da Assembleia de Deus, que se dirigem para um evento piedoso em Santo Amaro da Imperatriz e que seu objetivo é desenvolver o caráter de Cristo nas crianças e nos jovens da sua fé.
 
 
Um dia único
 
 
Todos os dias são únicos, é verdade. Não se registrou na História, até hoje, nenhum caso em que uma determinada data haja se repetido em momentos distintos. Isto é ficção científica, não a realidade rasteira do nosso cotidiano.
 
 
No entanto, o sábado passado revestiu-se daquelas características que fazem valer a pena vivê-lo cada minuto: o frio finalmente se apresentou, o céu andou claro, o ar mostrou-se fino e transparente, o azul impecável cobriu nossos ócios, uma lancha singra a Baía Sul em direção à Ponte Hercílio Luz (ao que resta da ponte), o mar espreguiçava-se espelhado e convidativo. Desenhando o horizonte além da Baía, o perfil senoidal do Cambirela e o serrilhado da Serra Geral vestiam-se de tons azulados, em contraste com o verde exuberante dos morros na cidade.
 
 
Um dia também de 50 anos.
 
 
50 anos de um dia
 
 
Manoel Osório tem muitos amigos (o que não o impede de cultivar inúmeros desafetos também). Amigos de todas as idades. Um destes o convidou para uma celebração na adega subterrânea de sofisticada loja de vinhos da Ilha. Foi no mesmo sábado de tantas cores. Um sábado coroado por ótima comida, maravilhoso espumante, excelente vinho e gente que só encontra em festas de família.
 
 
Tratava-se da comemoração das bodas de ouro dos amigos Ana e João Camargo. De presente da Ana, o João ganhou a autorização para fazer uma viagem com um filho e dois netos cumprindo um roteiro inusitado pela fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Partem nesta segunda-feira. Voraz colecionador de histórias, Manoel Osório já reservou cadeira para ouvir os relatos do périplo.
 
 
De presente, a Ana quis duas semanas de descanso.
 
 
*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 21.07.14

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

VE-RI-FI-CA-ÇÃO

Por Fabio Ramos
 
 


chaves
?
OK
 

água
mineral
?
positivo
 

carteira no
bolso
?
com
certeza
 

o guarda
chuva
?
não pode
faltar
 

moletom
?
ah sim
pode esfriar
 

sinal
da cruz
(antes de sair)
?
mas
é lógico
 

FUN-DA-MEN-TAL
 

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Ar

Por Denise Fernandes




Estávamos perto do ninho
e o grande abutre abriu suas asas
bem perto de nós
não parecia ter medo ou ódio
tinha o ar da plenitude,
como se tivéssemos tocado a campainha de sua casa.


Ainda lembrava que nós preferimos sempre
o vento das montanhas
Aquela quantidade demasiada de ar
nos atravessando
Tão diferente da Cidade aberta repleta densamente
rodeando nossos projetos


Você ainda não sabe onde pôr o carro e
falta pouco
para que abandonemos o veículo
em qualquer congestionamento.
Você me diz que falta Ar na Cidade.
Te digo que também falta Água.
E não sabemos mais o que fazer por aqui.


Quando você me abraça, me respira
para não sufocar.
Quando te beijo, te respiro.
Somos Ar.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

episódio 2

Por Ana Paula Perissé
 
 


                                        em tempos de marés
                                        sem dono
                                        surdia
                                        errante
                                        apenas 1´desejo
                                        de se consumir finitude
                                        plena

                                        e ao que passa
                                        a insânia do que virá
                                        certeira,

                                        (abeira-te com cautela
                                        em posição de alerta)

                                        os resquícios de lembranças
                                        doídas
                                        somam-se ao porvir
                                        urdido em tramas
                                        dourado-sãs.

                                        (sou tecelã
                                        desmedida
                                        em desvario em tecer pedras
                                        escandalosas)

                                        passa, então,
                                        à sombra
                                        da curva,
                                        a árvore da vida
                                        em essência que nos faz
                                        crepúsculo.


                                        Alea jacta est.

 

domingo, 14 de setembro de 2014

sábado, 13 de setembro de 2014

Minha doce flauta doce

Por Meriam Lazaro




Na praia, as ondas rebentavam cobrindo as rochas de fantasmas em gotas. A maré vazante mostrou ao longe o farol. Como oferenda, o mar deixou na areia uma flauta vermelha e branca. Cores do farol. Era daqueles sonhos de pura sensação. Não havia enredo ou sentimento de solidão na praia deserta, apenas os sentidos visual e tátil. Se ela conseguiu apanhar a flauta não há anotação. A narrativa para quando a menina despertou com a sensação dos pés afundando sob repuxo das ondas.


Tempos depois, acordou com saudade de tocar flauta. Infelizmente, como só restaram silêncios, anos atrás havia doado as três flautas doces, companheiras da época do caderno de sonhos. O dia passou tranquilamente. À tardinha selecionou para rever o filme: “Um Lugar Chamado Notting Hill”, que começa com a bela canção de Charles Aznavour: “She”. O bairro londrino, Notting Hill, que serviu de locação para filmagem do romance é seu personagem mais querido. A feira, a livraria, as ruas, os ônibus de dois andares, as casas geminadas, os gramados, árvores e bancos de jardim.


A noite veio e a encontrou sonhando acordada com os versos da canção “Por Brilho”, de Oswaldo Montenegro: “onde vá... toca a flauta da alegria como doce menestrel”. Tecnologia a serviço da nostalgia, buscou na internet a canção pelo verso, pois ainda não sabia o nome. E não é que, além da belíssima interpretação do músico-poeta, havia... flauta!! E também havia o som flutuante de flautas em “Estrela”, “Leo e Bia” e a extraordinária canção instrumental “Loucura Amarela”. Descobriu que a artista da flauta transversa é Madalena Salles, um sopro de anjo. Seria esse o significado celeste de soprano?


O farol sinalizava mar calmo. A Lua vermelha parecia sangrar de Paixão. Baixou a persiana, apagando as luzes em colar lá na ilha. A madrugada passou flauteada.