terça-feira, 28 de abril de 2015

Velhinha

Por Denise Fernandes


Imagem: Ramen Ramen


Por enquanto, estou velha. Tentando ficar velhinha.

Um dia, quando meu filho mais novo tinha uns onze anos, e começara a andar pela rua, sozinho, ele voltou para casa muito agitado.

– Mãe, você me diz que é para respeitar gente mais velha, e sempre tratar bem. Mas, e se a pessoa mais velha te trata mal, e não tem educação nenhuma com você? Se ela te xinga de filho da puta sem você ter feito nada?

Sem ter feito nada não tá certo, meu filho, mesmo a pessoa sendo de idade. Ai, quando eu ficar velhinha, se conseguir chegar lá, espero não ficar xingando os outros na rua. Espero ter mais respeito pelo ser humano. Embora não tenha muito dinheiro, espero ter amor dentro de mim.

Recentemente, esse meu filho – agora com vinte e um anos – viu o filme "Ensina-me a viver", adorou, ficou apaixonado pela apaixonante velhinha da história. Vontade de ser parcialmente como ela. Vontade de não cometer suicídio no final. Vontade de ser velhinha para morrer com sabedoria. Receber a morte quando ela realmente não quiser mais ceder um cadinho, um cadinho só dentro do mistério do meu corpo, onde gosto de ficar.

Vontade de ser bem velhinha, com minha pele, e mais mil peles nascidas nas noites mais frias. Vontade de ser o depois de mim.

Rir do sexo, rir da sorte. Quando ficar velhinha, quero continuar rindo bastante.

Pretendo começar a jogar na loteria quando ficar velhinha. E quando ficar bem velhinha mesmo, vou transar sem camisinha, sem me importar com doença sexualmente transmissível, de origem misteriosa, ou criada pelo tempo. Vou arriscar sem culpa só quando ficar bem velhinha, sei disso.

Se eu tiver a chance de ficar velhinha, vou procurar me aproximar mais, e avaliar menos. Sei bem o quanto as rugas, aquele monte de ruguinhas que só as bem velhinhas têm, vão me proteger.

Quando chegar a hora, vou ser daquelas velhinhas cheirosas, arrumadinhas, nada de velhinha jogada, cheirando mal, e com vestido sujo. Velhinha mimosa.

Quando eu ficar velhinha, não vou ter pressa. E não vou mais ter paciência com quem não tem paciência comigo. Vou ser uma revolucionária velhinha, mais perigosa do que sou.

Vou tomar banho de mar pelada. Claro que tendo cuidado para não ser presa por atentado ao pudor (por causa da nudez), se, quando eu ficar velhinha, as leis forem tão bobas quanto são hoje. Processo e prisão, nem velhinha...

Preciso ficar bem velhinha porque quero ter a chance de ver tudo melhorando. E se não tiver melhorado até lá, quero morrer chorando bem velhinha, buscando a piedade divina. Não quero desistir.

Tem gente que diz que não quer ficar velhinha porque não quer dar trabalho aos outros. Mas eu já estou acostumada a dar trabalho aos outros. Parece que sempre dei. E parar de dar trabalho aos outros, justo quando fico velhinha, pode ser um desastre. Quando eu era pequena, lembro da minha mãe dizendo que eu dava trabalho, que eu inventava moda. Nunca estava satisfeita com as coisas como estavam.

Depois, na fase dos namoros, meus namorados sempre disseram que eu dava muito trabalho, o que tem vários sentidos. Acho que gosto de dar trabalho, de chamar a atenção. É tão ruim passar desapercebida. Por isso, gosto de dar atenção aos outros. Talvez eu não esteja tão só. Porque, nesse mundo confuso, quem sabe haja muito de mim em quase todos. Enquanto respiro solidão, respiro todo mundo. Talvez os momentos em que eu mais esteja próxima das pessoas seja nos momentos de solidão. E velhinha, minha solidão não vai mais me incomodar – do mesmo jeito que agora. Talvez seja até pior. Mas de tanto convivermos, haverá intimidade entre nós. E não essa solidão que me surpreende velha; solidão de dúvida, onde eu esperava ter certezas.

Quando eu for velhinha, vou ser mais esperta. Como um gato caçando. Velhinha, não vou ter medo, enfim, vou ser a mulher coragem que esperei a vida inteira ser, e não fui. Não que eu não tenha sido corajosa. Mas agora sei que não fui o suficiente para tudo aquilo que eu queria ter sido. Acho que me preocupei demais em cumprir minhas responsabilidades, e esqueci de ouvir a voz de trovão que ecoava diante de mim. Essa angústia que carrego, tão pesada, não vai estar em mim quando estiver velhinha, pois não vou ter mais tempo, nem forças para carregá-la.

Com meu corpo leve e gasto, inútil para o mundo que pressiona, vou poder, enfim, ligar para mim, para meus minúsculos segredos e alegrias, para meus ossinhos doendo, para o meu passado. É o meu passado que me agita. Quando somos velhos, sabemos que o passado talvez seja mais importante que o futuro. Mas, velhinha, poderei realmente esquecer as tolices do futuro, e curtir a enorme vastidão do meu passado, as noites inesquecíveis que esqueci, os momentos indizíveis em que fui tão feliz (que todos diriam que era impossível ser assim). Velhinha, poderei viver o absurdo de uma vida feliz e não comportada, uma vida viva de bobagens que fazem rir, sem falsas expectativas. Com meus cabelos ainda mais branquinhos que agora, vou poder escancarar a verdade, e olhar o espelho de frente, vendo o que ele nunca desvelou: meu sorriso.

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