domingo, 31 de maio de 2015

Todos os dias

Por Oswaldo Antônio Begiato




Penso como homem;
Sinto como menino.


Faço como homem;
Sonho como menino.


Olho como homem;
Amo como menino.


Luto como homem;
Choro como menino.


Broto como menino;
Morro como homem.

sábado, 30 de maio de 2015

Mudança de planos

Por Meriam Lazaro




Condicionada diariamente a tomar duas conduções para o trabalho, hoje mudei a rotina. E me dei mal. Ao sair de casa, uma amiga ofereceu carona. Os coletivos que atravessam a cidade são chamados de "T". Logo após sairmos do automóvel, eu e a filha da minha amiga entramos no "T".


Manhãzinha com temperatura alta. Já estava passando do ponto onde normalmente "pego" o segundo coletivo. Dei o sinal, desci apressada e corri para a parada. Quando vi, entrei no mesmo "T" que eu havia descido. Não sei se o motorista percebeu a loucura. Encabulada, voltei ao banco de antes.


Pensei em quão distraídos seguimos a rotina. Em razão disso, fiquei a maquinar: como seria se acordássemos um dia e todas as ruas da cidade tivessem mudado de mão? E se as lombas íngremes – em que, hoje, os carros sobem – permitissem a descida? E se a pista da direita trocasse o sentido com a da esquerda (e vice-versa)? Que maravilha! Não satisfeito com esse caos, o anjo zombeteiro soprou mais uma ideia em meu ouvido.


Que tal se nós amanhecêssemos com a cabeça virada? Literalmente. Andaríamos de costas, pés virados para trás, como o curupira das lendas brasileiras. Poderíamos ver nossos traseiros no espelho. Sem falar que os homens não precisariam se virar para olhar as "popuzudas".


Enfim, desço do ônibus. Antes que mais diabruras surjam na mente, é melhor ir trabalhar.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Teimosia

Por Mayanna Velame





No silêncio
que impera,
palavras emudecem.


Serenas,
espalham-se
entre linhas retas.
Para se encontrarem
nos caminhos sinuosos
da poesia.


Poesia é teimosia
com as palavras.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

A vida de cada dia

Por Amilcar Neves*


O sábado amanheceu esplendoroso e ensolarado, indiferente a tudo que tivesse acontecido na véspera: mais um espasmo errático da Bolsa de Valores, a morte súbita de uma amiga próxima que mora distante, meia dúzia de jovens assassinados na Ilha por questões implacáveis relacionadas ao consumo, venda ou controle de drogas, um devedor confesso que persiste na negativa de pagar, uma obscura deputada ficha-suja de Goiás colocada ao abrigo dos rigores da Lei da Ficha Limpa pelo próprio Supremo Tribunal Federal, que a liberou para concorrer às próximas eleições mesmo tendo nas costas condenação de órgão judiciário colegiado, a derrota de um time de futebol, ainda que fosse uma seleção nacional, ainda que fosse a Seleção brasileira, ainda que fosse na Copa do Mundo, ainda que fosse em partida eliminatória.

Indiferente a tudo isso e a muito, muitíssimo mais, a vida explodia no sábado de clima ameno neste início de inverno. Tocado pela luminosidade do dia, Manoel Osório aproveitou o momento para caminhar pelo bairro e adjacências, sorvendo pelas narinas dilatadas o ar fresco da manhã e imaginando alamedas, praças, bulevares, parques, lagos, jardins, árvores antigas e frondosas, garças, jacarés e tartarugas que poderiam existir. Cruzava com gente sorridente, é verdade.

Das sacadas, dos prédios, das casas e dos carros começavam a rarear, aos poucos, as bandeiras e as cores do Brasil. Algumas dessas pessoas que se saturam de verde e amarelo, conjeturou Manoel Osório enquanto pensava na vida e, no entanto, pensava de tal forma alto que pôde ser ouvido distintamente por quem andava perto de si , alguns desses são os primeiros a se despir das cores ao menor e mais insignificante revés como se as demais equipes não pudessem jamais passar de meros coadjuvantes, de plateia convocada para aplaudir e admirar a nossa seleção. Esses, prosseguia Manoel Osório, menos do que lutar por um país cada vez melhor e país, aqui, é o Estado, a cidade, o bairro, a calçada que se pisa , não passam de torcedores de um time que, pelas leis do esporte, vai ganhar e também vai perder, sem que isso devesse afetar de qualquer modo a vida das pessoas em geral.

O sábado, porém, concluiu Manoel Osório, é tão agradável como esta quarta-feira e como cada dia que temos ainda pela frente, com coisas interessantes a fazer e encontros agradáveis a celebrar.

*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 07.07.10

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Similares

Por Fabio Ramos




esbarra e
não
se
desculpa



grita
e
não
se importa



mente
e
não se
envergonha



agride
e
não
sossega



tem
orgulho
de
não se
arrepender



IGUAL
VOCÊ

terça-feira, 26 de maio de 2015

segunda-feira, 25 de maio de 2015

gira

Por Ana Paula Perissé




                           eu te chego
                           todos os dias
                           e vejo de lá
                           um ipê amarelo
                           de uma linda mulher
                           ainda em flor


                           e eu te parto
                           todos os dias
                           sinto um tremor
                           de serra
                           a cada vez que as folhas
                            caem
                           porque ainda nem ventou
                           em mim


                           eu não te sei
                           são muitas as voltas
                           tantos os voos
                           insones
                           tantas terras
                           porque o paraíso está
                           defronte
                           d´1olhar
                           que tive só por 1dia
                           de relâmpago


                                                                     gira entre-mundos
                           e eu te fico
                           sob o parapeito da janela
                           em frangalhos
                           quando chegam os fantasmas
                           de vidro


                           (eles não deixam marcas
                           apenas dores sem pistas
                           numa moldura estelar)

domingo, 24 de maio de 2015

Dezembro

Por Oswaldo Antônio Begiato




No centro da folha
a linha,
no centro da linha
o ponto,
no ponto final
o certo,
no trono certo
o cedro,
atrás do cedro
o rei menino.


José,
o catador de papelão,
mal sabe que faz parte
do presépio.

sábado, 23 de maio de 2015

Comer, beber e rir de doer

Por Meriam Lazaro


Imagem: Jasper Johns


Há prazeres da vida que chegam a doer. Para o primo Ri, consiste naquele riso desavergonhado e, não raro, sem motivo lógico para os demais. Começa com primo Ri rindo sozinho, e os outros com riso de gomodelaranja. Sabem aquele riso sem vontade de rir? Pois bem, este é o riso gomodelaranja, conhecido ainda por riso amarelo; do tipo que não entendemos porque o sujeito quase morre de rir.


O primo Ri, que ri porque o tomate foi atravessar a rua e veio caminhão e fez “ploft!”, agora, já dobrado ao meio, agachado ou encostado a uma parede, ri das caras de desentendimento. Como esse riso de doer é contagiante, os desentendidos também passam a rir (embora não saibam o motivo). Pensam que riem do primo Ri – o bobo da vez.


Nem sempre primo Ri é o que ri primeiro. Não porque ri melhor quem ri por último, mas porque, algumas vezes, o riso precisa ser evocado lá da alma. Como aquele riso das ilustrações do livro de inglês, que contagiou a todos. A professora pediu ao primo Ri que saísse da sala. Ele saiu, mas levando o livro. Lá fora, os balões de diálogo não eram mais tão engraçados.


Para alguns, um fato provoca esse estribilho gaiato. Para outros, tal reação parece um acesso de loucura. Por que isso acontece? Não importa. Para rir de doer, não é preciso razão. Basta muita alegria.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Quando

Por Mayanna Velame





Quando estamos,
não somos um par.
Somos ÍMPAR.

 
Quando estamos,
não somos estrelas.
Somos constelação.

 
Quando estamos,
não somos palavras.
Somos texto.

 
Quando estamos,
não somos o tudo,
nem o infinito.

 
Somos...
O amor.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Um modelo de brasileiro

Por Amilcar Neves*


Tio Nico chegou outro dia, na semana passada. Tio Nico na verdade foi batizado Nicósio Osório, mas ele só atende se chamado de Nico. Porque não gosta do seu nome, preferia que fosse Nicózio Ozório, com "z" no nome e no sobrenome. Idiossincrasias. Muito comuns em se tratando de Osórios, essa gente que se espalha por todas as cidades do Sul catarinense (e só por lá) à exceção de Imaruí. Em Imaruí não se criam Osórios. A vida é assim (especialmente para eles).

O fato de morar na Capital faz de Manoel Osório (único dentre eles a recusar-se sistematicamente a voltar para o Sul) um valiosíssimo procurador plenipotenciário da família no centro do poder estadual, a despeito do visível desconforto de muitos com a teimosia do parente extraviado; de todo modo, sua casa é uma verdadeira embaixada osória, dando direito a acomodações e estrutura completa de escritório para todos que a procuram. Assim é que tio Nico foi dar com os costados por lá.

Agente federal secreto dos serviços de inteligência lotado em Criciúma, na terça-feira Nicósio Osório estava na Capital para tratar de assuntos particulares, que incluíam a compra de uma bicicleta nova para a mulher, Mariquinha Osorinha, na loja e oficina do Valdir, no Córrego Grande. Naturalmente, estacionou sua Grand Cherokee preta de vidros escuros e placas com duplo par de algarismos 5 de Balneário Camboriú (um disfarce) sobre a calçada, toda atravessada, bloqueando completamente a passagem de transeuntes.

Um pedestre reclamou da atitude dele, Nico mandou-o procurar serviço, fazer algo de útil ao invés de incomodar os outros, o pedestre insistiu na ilegalidade e no desrespeito de estacionar na calçada, Nico, rindo, debochado, falou-lhe para chamar então a polícia certo de que ela não viria, Mariquinha começou a fazer gestos obscenos repetidos gritando que faltava ao pedestre uma boa dose de intercurso carnal e, enquanto o casal se dirigia à bicicletaria, Nico puxou uma carteira, mostrou-a ao pedestre tão de longe que ele não pudesse distinguir nada e advertiu-o que tomasse muito cuidado com as coisas que faz na rua.

Mais tarde, em conversa descontraída na casa do sobrinho Manoel Osório, tio Nico mostrava-se indignado com os políticos prepotentes e corruptos que se valem da certeza da impunidade para tirarem vantagens pessoais. E arrematava:

– É por isso que este é um país de m*!

*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 16.06.10

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Em turnê

Por Fabio Ramos
 
 



TORRES
o baixista
 

tem
presença
de
palco
 

mas
não sabe
tocar
 

(...)
 

LOPES
o baterista
 

é
motivo
de
confusão
 

quando
resolve beber
antes
do
show
 

(...)
 

MAGALDI
o guitarrista
 

traçou a
linha
do
tempo
 

em
cada uma
de
suas
tatuagens
 

(...)
 

GOMES
o vocalista
 

quer
um
espelho
de corpo inteiro
no camarim
 

só pra ele
 

terça-feira, 19 de maio de 2015

Dias difíceis

Por Denise Fernandes




R. estava passando por dias difíceis, extremamente difíceis. Alguém havia lhe dito: quando algo está difícil, mas difícil mesmo, faça três coisas úteis no dia, que você redescobre o caminho da facilidade. Não sei o porquê de algumas frases, e momentos da vida, ficarem na memória; marcados na mente e na alma. Acho que R. não sabe – e talvez descubra lendo essa crônica – que sempre lembro dela. Da beleza (e da espiritualidade) dela me dizendo isso. Nos meus dias difíceis, tento fazer três coisas úteis.

Tem dias que são simples, em outros, as tarefas úteis parecem um emaranhado. Lembro então quando mamãe fazia tricô na sua máquina, e vendia. Sobrava, muitas vezes, um emaranho de lãs, e ela me dava para enrolar num novelo de novo. Era difícil. Ela dizia: não adianta forçar, precisa ter paciência.

Quando minha filha nasceu, e me vi sem dinheiro para o mínimo necessário, o útil foi fazer meias e polainas para vender. Jamais imaginei que seria capaz de costurar meias com delicadeza. Medo de desagradar os clientes... Mamãe avisava: não aperta o ponto. Ela me emprestou uma de suas máquinas de tricô, e me vi com o enorme desafio de ser humilde e útil.

Quando era criança, eu achava que seria uma mulher de sucesso, uma executiva poderosa, porque ia super bem na escola, principalmente em matemática. Achava que ia comprar muitos presentes para a minha mãe, torrar dinheiro. Pelo que os adultos diziam ao meu redor, achava que isso era o the best da vida.

Só na adolescência descobri que não era. Não só pensando, mas conhecendo pessoas realmente ricas e podres e vazias. Não tenho a menor saudade dessa gente. Nem consideração. De que adianta ter dinheiro, se o interior está vazio?

Lembro-me de um dos muitos babacas que conheci na minha vida. Ele dizia: dinheiro não traz felicidade, manda buscar. Isso eu pago pra ver. Manda buscar? Espera sentado, idiota. E tem tanto idiota. Minha sorte é que não estou à venda, nunca estive. Não é questão de preço, o grande lance aí é a verdade. E a verdade não está à venda.

Uma outra imbecil me disse que eu era inteligente, e que eu ia “emburrecer” lavando louça, cuidando da casa e de crianças. Acabo de ariar uma panela de pressão, onde o feijão grudou. Poxa, imbecil, não parece que estou mais burra. Burra é você que ignora a vida. Nunca disse isso a ela, para quê perder tempo, se tempo é tudo o que temos? Tempo comprido, tempo curto, tempo de chorar, de varrer a casa, de tomar a chuva, e perder de novo o guarda-chuva. Tempo de dívidas, de incertezas. Um pouquinho de tempo. Temos bem pouquinho. Minha mãe me disse: fique atenta, Denise, que a vida passa em dois segundos. Parecem apenas dois segundos. Tento ficar atenta.

Outra coisa que estou tentando entender. Uma outra frase de mamãe: vergonha é roubar, e não poder carregar. Parece uma frase simples, mas não é. Acho, às vezes, que isso se refere aos limites. E à humildade, uma qualidade que saiu de moda.

Se dinheiro não traz felicidade, porque a preocupação com ele nos rouba a felicidade? O que estamos fazendo aqui? Estamos de passagem. Mas fincados na Terra como árvores. Estamos cheios de amor, mas percebemos mais o ódio. Somos noite e dia. E fogo. Estamos na cratera do vulcão, somos como um cocôzinho de galinha no universo. Mas é nos dias difíceis que percebemos o melhor: se perdermos a luz, nunca mais a encontraremos. E é por causa da Luz que estamos aqui.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

observação de aviões

Por Ana Paula Perissé




                                   observo a trajetória de aviões
                                   durante a ave-maria
                                   e tal como seis naves
                                   ou aves
                                   despontam em curiosa aventura
                                   do cume estranho
                                   de uma árvore frondosa
                                   ou de própria colina



                                   (a única de que posso avistar
                                   do quadrangular de minha varanda
                                   urbana demais)



                                   dói o 1sozinho
                                   quando de tantas outras
                                   solidões
                                   mais eloquentes
                                   meu balcão fica a me dever
                                   como promessa de 1´crédito
                                   vão e colossal



                                   ( o devir a alçar voos
                                   longe de mim)



                                   não
                                   não me façam viver
                                   sem esta linhazinha de céu
                                   uma vez que o ipê
                                   amarelo
                                   já frondoso
                                   não sente mais a minha falta.



                                   ( são de inutilidades
                                   contemplativas
                                   ou do mais puro desperdício
                                   que preencho as horas das seis
                                   e tantas outras)

domingo, 17 de maio de 2015

sábado, 16 de maio de 2015

E foi assim que a briga começou

Por Meriam Lazaro




Há algum tempo, noto que as pessoas me convidam para uma boquinha e depois me deixam na mão. Uma amiga libriana, por exemplo, exigiu a minha presença em seu aniversário. Tudo se daria numa churrascaria. Três horas antes do combinado, o telefone toca. E era ela, pedindo desculpas... Graças ao temporal na fronteira com o Uruguai, 500 quilômetros distante daqui, não teria mais churrascada.


Da penúltima vez, a comemoração era o aniversário de sua mãe (que amarelou com o frio daquela noite). A confraternização seria numa pizzaria. Encontros em cafeterias, meus preferidos, são marcados e desmarcados com surpreendente ligeireza.


No último domingo, outra amiga ligou em casa, me convidando para almoçar no shopping. Com o nome do restaurante em mãos, lá fui eu, certa que me daria bem com as iguarias finas. Cheguei primeiro e fiquei dando voltinhas pela praça de alimentação. Logo em seguida, ela aparece, também libriana, toda sorridente e saltitante, dizendo que tinha pensado em outra coisa. Que tal se nós fôssemos a uma churrascaria próxima dali?


Considerando que eu recém saíra de uma crise na vesícula, não estava muito a fim de churrasco. Pesei os prós e os contras, e lá fomos nós. Ainda poderia optar pelo buffet livre, sem precisar me empanturrar de carne. Como sou de fácil contentamento, me servi de arroz, feijão, tomate e um pedaço de carne magra. Faltou o ovo frito
coisa que já não me pertence mais , bem como a Coca-Cola. Acontece que o feijão estava puro sal. Valeu pela apresentação de dança da terrinha, o que é sempre um bom espetáculo.


Ao sairmos do local, uma surpresa. Sabe o que a perversa fez? Convidou-me para vermos, na vitrine do restaurante, quais eram os pratos do dia. Só para saber as delícias que eu tinha perdido. Puro sadismo.


Com todos esses indicativos famélicos, saquei que o universo dava o pontapé inicial em meu regime. Decidida a algumas concessões (e a viver de luz o máximo possível), fui à procura da boa forma. Estava escrito em um dos programas alimentares: “Nunca deixe de comer a sua sobremesa”.


Juro pelo sagrado chocolate – a sobremesa indicada – que essa era a sugestão. Logo, se estava escrito, era lei. Uma lei deve ser cumprida fielmente. Havia outras recomendações, é claro, mas quem se importa com detalhes?!


Escolhido o programa alimentar, repleto de boas intenções (especialmente pela manhã, ao acordar), bastava segui-lo. Para fazer efeito mais rápido, optei por não jantar. Comer uma miserável barrinha de cereais às 17 horas e, depois, somente água ou chá sem açúcar. Olhar na televisão aquelas propagandas de pizza calabresa, sorvetes com calda escorrendo, famílias felizes no supermercado... Nem pensar! Fui cedo para a cama por duas noites seguidas.


E foi assim que a briga começou. Na terceira noite, 200 gramas a menos, dor de cabeça a mais, autopiedade a milhão, me vi num pesadelo sem precedentes na história das dietas. Eis que um peito de frango gigantesco invadiu a Terra; causando maremoto e derrubando edifícios. Parecendo ter tomado todas, ele me perguntou:


Sabe por que o frango atravessou a estrada?

sexta-feira, 15 de maio de 2015

É noite

Por Mayanna Velame




Nasce mais uma noite na cidade solitária. Digo isso porque, apesar dela nunca dormir, todo cidadão que aqui sobrevive é como eu: sozinho. Os carros percorrem as ruas, dilacerando o asfalto que recebe a chuva noturna. Aviões perfuram nuvens arroxeadas, suspensas no ar. Esta cena tão singela – mas tão especial – é magica para qualquer lunático feito eu. A chuva aumenta seu furor. As luzes da cidade, mesmo ofuscadas, iluminam o coração das pessoas, que tentam esconder o rosto do aguaceiro.


Estou encolhido no canto de um bar. Minha garganta, de hora em hora, é banhada por uma bebida autenticamente maléfica. Não posso fazer nada. A chuva não para e, por alguns momentos, isso me faz sentir vivo e livre. Permaneço infeliz, todavia, a felicidade é obtusa.


O tempo deixa pegadas. A chuva traz lembranças de um instante único, preso em meu passado. É noite em minha vida também. Lembro-me do último beijo. Foi presente de despedida numa noite chuvosa e hostil. Quem eu amava partiu, rompendo, de alguma forma, os fios da paixão alojados em mim. Poderia escrever canções de amor. Tenho vontade de fazer isso agora. Peço um lenço de papel ao garçom (e uma caneta). Contudo, as palavras continuam aqui, aprisionadas, como as gotas d’água que caem e não retornam mais ao céu – chorando sobre a cidade.


A noite traz um sentimento de perda, que insufla minhas atitudes pueris. Estou cansado, mas não desanimado. Pago o que devo. Começo uma longa caminhada a lugar nenhum. Chuva que molha os cabelos. Meu espírito se engrandece. É noite e Deus olha para mim. Ele também sente solidão. Ele vive com o destino das pessoas em suas mãos. Sim, qualquer tragédia e a culpa é Dele. Ingratos!


Eu continuo a caminhada. Mergulho o pé nas poças d’água. Estou agindo feito criança. Brinco com os cachorros abandonados, e eles retribuem o carinho balançando seus rabinhos. Na praça, ando entre bancos enferrujados. No canteiro, o jardim florido e úmido abriga um pouco da alegria que me falta diariamente.


Ninguém entende o motivo da minha ação, porém, já não posso aceitar o lado atroz da vida. Chuto latas de lixo, chuto placas informativas, distribuo beijos para as mulheres que circulam acompanhadas. Um pouco de canção ainda me anima.


É noite, meu amor, e o vento sacoleja (sem piedade) os galhos das árvores. É noite, meu amor, e estou triste... Pois não vejo em mim quem realmente sou.


Um desejo me acende. Entro no carro. Onde estão as chaves? Na verdade, sinto-me perdido. Não quero me achar. O perdido é mais cobiçado que o achado.


Ando pela cidade resfriada. Bares, sonhos, amores. O mundo é meu, sem tocá-lo. Levanto a cabeça. Deixo o vento atingir a face. Sinuoso, cruzo as ruas. Sinuoso é meu coração, que não chega a destino algum.


Vejo-me triste. Minha vista turva só me enxerga assim. Terminarei os dias a contemplar a noite lúgubre. Amanhã é sábado, e talvez eu não volte a viver. Meus dias são noites, somente noites.


É hora de entender o obscuro. Vou seguindo. Aonde chegarei? Isso não me cabe responder. Desistir do fim é nunca tentar. Começar a viver o que nunca foi sonhado. Perdido, estou. Desejo abandonar esse corpo. Penso em tudo, mas sempre me esqueço de mim.


Continuarei a caminhar. O Sol vai surgir, como em todas as manhãs. Pessoas acordarão, carros correrão, só que meu coração preso e descontente ainda viverá sem fulgor, pois, para ele, será sempre noite.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Lugares para se viver

Por Amilcar Neves*


Não é, este, o caso de Nova York. A começar porque se trata de uma ilha, com as limitações geográficas que se aprende já nos primeiros anos de escola: um pedaço de terra cercado de água por todos os lados. Depois, para complicar ainda mais as coisas para a grande metrópole, para a capital do mundo: uma ilha fluvial, cercada de água doce por todos os lados. Nada mais lamentável para contaminar o lugar ideal de se viver. As praias de verdade, de mar esverdeado e ondas fortes, ficam distantes; não há, logo ali, uma Avenida Atlântica lambuzada de maresia. Isto é fatal para as pretensões de uma cidade que se candidate a lugar ideal para se viver.

Morar, mora-se onde está o dinheiro, a família ou o trabalho. Mas, para viver, as exigências são de uma precisão que beira o perfeccionismo. Claro, senão jamais será o lugar ideal para se viver.

Nova York ostenta outro grave pecado: a falta de morros, de cima dos quais o tráfico e seus clientes da classe média podem ter uma visão do paraíso, podem desfrutar de uma amplidão de horizontes que só quem conhece os picos de pó e erva consegue avaliar. Quem lá nunca esteve, nesses morros, não faz ideia sequer aproximada do que seja essa vastidão que abarca a cidade lá embaixo, o mar lá adiante.

A melhor coisa que Nova York tinha veio dos anos 80 do século passado, aquela década de maldição da pólis: era a emoção de caminhar por suas ruas assustadoras e suas praças sombrias sob a constante ameaça de um assalto com arma branca; com sorte, sob o risco iminente de um estupro. Tinha, porque chegou depois um sujeito com a história da tolerância zero e acabou com isso tudo.

Poderia pensar-se em Florianópolis como um local aprazível para viver. Mas não. Começa que é uma ilha, embora oceânica. Dispõe de morros na sua área central, dispõe de periferias cada vez mais violentas, gradua-se nos assaltos e homicídios como cidade grande, habitua-se ao festival de balas perdidas e fogos amigos. No entanto, de que servem 42 praias em torno da Ilha de Santa Catarina (quando será que as pessoas vão decorar este como sendo o nome correto da ilha?) se não faz calor o ano todo, como no Rio de Janeiro? Uma cidade em que se morre de tanto frio no inverno que nem dá para sair do carro, para sair de casa.

De que serve para viver uma cidade, qualquer cidade, que não tem Vasco, Flamengo, Fluminense e Botafogo?

*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 11.08.10