quinta-feira, 25 de junho de 2015

Surpresa e suspense

Por Amilcar Neves*


Saiu no jornal, com certeza muita gente também leu a notícia, não apenas ele, que a flagrou por artes do mais puro acaso (como sempre acontece, aliás, com as grandes revelações, boas ou más, que a vida nos costuma oferecer: por acaso). Não se tratava de enorme manchete de capa, evidente, nem de miúdo título para singela nota em canto de página, perdida no meio do periódico, recortada entre a publicidade legal e os comunicados de falecimento e convites para missa de sétimo dia.

Foi, sim, por entre as cartas dos leitores, a seção do jornal febrilmente lida pelos leitores que escrevem cartas para o jornal (não era o caso dele), que seus olhos chocaram-se com a informação, deixando-o, de início, atônito e estupefato, posto que nada sabia do assunto até aquele momento. A carta em questão, por sinal que bastante longa para os padrões do espaço, levava o insuspeito título de "Família" e vinha da cidade de Cocal do Sul, assinada pelo notório Delírio Osório, conhecido em toda a região pelo apelido de Italiano e, em família, como Tio Lírio.

Tio Lírio, na verdade, em seu caso, seu tio-avô, opera como um dos patriarcas osórios, os quais constituem informalmente uma espécie de conselho consultivo com poderes deliberativos em instância final no tocante a assuntos de família (e de política regional também, sem dúvida, bem como em matérias religiosas e da administração pública). Na carta, Italiano Osório anuncia a realização, para breve, de mais uma Confraternização Osória, quando se conta congregar centenas de Osórios de todo o Sul do Estado e atualizar as estatísticas e registros históricos familiares, mas nada disso é novidade para ele nem para ninguém.

O que deveras o surpreendeu, de início, foi a informação segundo a qual, pela primeira vez, serão homenageados os Osórios que mais se tenham destacado no ano, e, depois, a revelação espantosa de que ele próprio – seu nome ali por extenso, inequívoco –, será um desses primos agraciados com as honras osórias.

Constrangido para sair por aí a fazer perguntas, Manoel Osório, único Osório que não retornou ao Sul, fica se perguntando qual mérito os patriarcas descobriram em sua pessoa – e, angustiado, mortifica-se porque ninguém lhe diz nada, todos agindo e comportando-se como se não tivessem lido o jornal, ao qual ele retorna cinco vezes ao dia para assegurar-se de não estar delirando.

*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 08.07.2009

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