sexta-feira, 25 de março de 2016

Correspondência

Por Mayanna Velame




Cidade dos Felizes, 24/08/199...


Escrevo esta carta com tinta morta. Na verdade, nem sei o verdadeiro motivo. Não há mais o que escrever ou pensar. Tudo já fora feito, consumado, como a tempestade que avassala aldeias longínquas. Tudo acabou. Somos como dois estranhos, seres desconhecidos em seu próprio território. Não temos mais palavras para serem proferidas. Não temos mais segredos. Não temos mais planos e muito menos sonhos.


Teríamos ainda amor? Afinal, será que nos amamos algum dia? O amor não foi o suficiente para nós? O que nos bastaria? A distância? Detenho minha fraqueza nesta folha de papel, que paulatinamente torna-se testemunha daquilo que não teremos de volta: o nosso próprio tempo.


Acreditávamos no presente. Esquecíamos o passado e não nos preocupávamos com o futuro. O hoje era a nossa eternidade, o nosso infinito perfeito.


Agora estamos sozinhos, solitários. Não temos mais sorrisos para distribuir, não temos a dor para ser compartilhada. Somos apenas retalhos de sentimentos desfigurados. Transformamo-nos em fantasmas. Assombramos o que ainda deixamos insculpidos um no outro: a nossa compaixão.


Em algum lugar do mundo, escrevo essas módicas palavras. Pode ser que jamais sejam lidas ou comentadas. Porém, de alguma forma, elas se materializam (não na superfície do teu coração), mas nas linhas que se projetam retas; com começo, meio e fim. Talvez fosse melhor omitir e calar o que reside em nós. O silêncio é gritante e incômodo. Senhor absoluto da nossa falta de assunto.


Por um momento, sei bem que o amor nos salvou. Foi nossa redenção, serenidade e benevolência.


Entretanto, nada mais nos resta. Só ficaram algumas lembranças teimosas, que insistem em permanecer no âmago. Para nós, as estações do ano sempre se desenharão da mesma maneira. E os verões, antes ensolarados e repletos de alegria, já não nos importam como antes. E o mar, em sua plenitude e extensão, hoje nos batiza cinza e ferino. Junto com a solidão que nos acolhe de braços abertos.


No mais, caminhamos juntos. Fomos cúmplices dos nossos erros e acertos. Bebemos, comemos, viajamos, cantamos. Brindamos vitórias, choramos com nossas derrotas. E no final de tudo, nós perdemos.


Sim, nós apenas perdemos. Não exatamente para o amor. Mas perdemos, sim, para nós mesmos...


A caneta descansa sobre o papel. Algumas palavras reluzem sobre ele. Parecem estar vivas, lúcidas. No compasso desenfreado das horas, o fulgor se extingue. Envolvidas num envelope pardo, as palavras viram correspondência. E a correspondencia ficará entre as páginas de um livro. Guardada.

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