terça-feira, 19 de abril de 2016

Campeonato de chulé

Por Denise Fernandes




Ontem eu chorei com saudades da infância. Saudades do campeonato de chulé, do campeonato de peido. Saudades de rir muito. Na tarde quente, saudades de escorregar no quintal (que tinha um declive), depois de minha mãe lavar. Aquele cheirinho de sabão em pó, e a barriga ardendo das batidas no chão. A gente vinha correndo e se jogava. Escorregar na água era tão bom.

Naquele tempo, não havia crise hídrica. Havia crise do petróleo. Sempre penso no inferno como um lugar transbordando óleo negro – embora Dante nada mencione a respeito, nem tampouco os espíritos que de lá provêm. Mas imagino assim: petróleo, muitas baratas e ratos nas trevas.

O Facebook diz que não estou atualizando a rede. Mas que fazer se, para mim, o tempo passa diferente? Talvez por eu me preocupar mais com os trânsitos de Plutão que com os preços da feira. Sinto preguiça de clicar.

O país vai mal? Como? Algum dia ele foi bem? E será que isso importa? Com toda a distância humana, a alma é sempre estrangeira (até mesmo em seu próprio território).

Saudades das temperaturas da infância, dos cheiros da comida de mamãe, das risadas dos meus irmãos. Saudades deles caçoando de mim. Como é que a gente pode gostar de ser caçoado? A gente é estranho. Pensar só no país é pouco. Porque até as nuvens importam mais que o país. As nuvens selvagens me dizem oi.

Acho que, hoje, eu ganharia o campeonato de chulé. Deve ser o calor. Ou o tipo do sapato. Acredito que certos indivíduos não têm chulé, mas não sou desse tipo. Nunca fui um tipo de pessoa muito fácil.

Às vésperas dos meus cinquenta anos, parei de pintar os cabelos. Melhor encarar de frente o que é assustador. Sonhava eu ser Perseu, enfrentando a Medusa. Preferia ser herói a princesa; mas isso não é inveja do pênis, simplesmente. É uma expressão de coragem.

Tem gente triste em qualquer lugar do mundo, a todo momento. Penso bastante nisso. Quem sabe encontrei o melhor jeito de orar.

Avisaram-me: quando a gente fica velho, tem saudades da infância. Sempre soube disso, mas agora – que realmente está acontecendo – me dá vontade de chorar. Percebo que não tenho com quem brincar e que possuo mil anos; embora os documentos digam que é quase cinquenta.

Com sorte, ficarei emocionada só de olhar os bebês na rua. O amor que sinto por eles vai me incendiar (quando ficar ainda mais velha).

Talvez olhando para meus cabelos brancos, eu aceite o que o Tempo está me dando.

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