terça-feira, 31 de maio de 2016

Penso em todas as mulheres

Por Denise Fernandes




e agora percebo

que nunca falei da mulher

sem falar de deusas, amor, mães, máscaras

talvez fosse preciso

olhar para a mulher como me olho sempre

assustadoramente e surpreendentemente nua

raptar-me das cobranças

tenho mais condicionamentos de ser mulher

do que pensamentos sobre ser mulher

sentada com as pernas cruzadas

com os gestos delicados e elegantes da minha mãe

incapaz de descobrir a força do masculino em mim

quando estou só, sou livre, e ser mulher é uma possibilidade

que não tem nada de sórdida

a cozinha pode ser o meu lugar de excelência na casa

e ela não tem nada de prisão, ela é uma toca mágica

refúgio na selva de pedra

onde costuro meus sonhos

e os transformo em alimentos.




onde me colocaram, mulher sou, e onde não me colocaram

também sou o perplexo vazio, as sombras onde a alma se pergunta

como seria diferente se eu fosse uma mulher para descobrir

e não para cumprir

um homem para escutar, e não para me defender dele

ouvir as cores que nos divertem

as diferenças pequenas que encontramos entre uns e outros

o sexo dos anjos é igual ao meu

tanto mistério no que eu mesma vivencio




corpo, ser mulher, escrevendo e assim lendo o meu papel

nos seus mais amplos sentidos

onde sendo apenas uma única mulher, sou todas elas,

coletiva história que se escreve vivendo

e aqui penso em todas as mulheres como amigas e irmãs

o mundo por um segundo fica totalmente alegre.

 

segunda-feira, 30 de maio de 2016

louva-a-deus

Por Ana Paula Perissé




                                         louvo
                                         louva-a-deus
                                         de pouso incerto



                                         (a quem?)


                                         louvo
                                         à quietude nossa
                                         à brisa
                                         à uma chegada
                                         íntima



                                         (nada pop
                                         tampouco pública)



                                         louvo
                                         louvo-a-deus
                                         insectos
                                         que infectam
                                         minh´alma de símbolos
                                         ventos e achados
                                         também pagãos...



                                         louvo
                                         louvo-a-deus
                                         a quem mais há de chegar
                                         com ternura
                                         amor depois de sonhos
                                         com borboletas azuis
                                         vivazes e sãs
                                         de tanta natureza
                                         imensa
                                         sem nenhum louvor
                                         maior



                                         (no business...
                                         no noises...)

domingo, 29 de maio de 2016

sábado, 28 de maio de 2016

Vestido Azul

Por Meriam Lazaro




O vestido azul tubinho
de mangas fofas branquinhas,
uma rosa de voal
no corpete bem justinho.
Macia seda do céu,
o dançar agarradinho,
vestia o sonho da moça
um olhar azul marinho.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Os ventos

Por Mayanna Velame




Folheando um livro de Geografia do meu tempo de escola, deparei-me com um capítulo dedicado ao vento. Logo no primeiro parágrafo, surgiu a definição: “O vento é o ar em movimento”.


Se até a natureza se movimenta, imagine você, leitor! Melhor que entender o conceito de vento, é conhecer alguns dos tipos existentes. Comecemos, então, pelos ventos constantes. Estes partem dos trópicos para o Equador; ocasionando chuvas em virtude da umidade. Em nossa vida, eles são as contas que aparecem no fim do mês: o cartão de crédito, a cobrança da água, da luz, do telefone, a compra suada no supermercado (sem mencionar o salário e nossas economias, que somem rapidamente).


Outro vento presente é o periódico. Como exemplo, temos as brisas. Encontradas em regiões litorâneas, são frescas e amenas. Assemelho estes ventos aos momentos de paz, quando não há choro, angústias ou sofrer. Brisas são circunstâncias prazerosas. É quando tudo parece em ordem, afinal, “o vento está a nosso favor”.


Também há ventos locais, que se deslocam do Noroeste do Brasil rumo ao Sudeste – podendo soprar do Sul para o Centro-Oeste. Esses ventos são responsáveis pela dispersão das chuvas. Eles proporcionam, no deserto do Saara, as famosas tempestades de areia.


Sim, na vida que nos acolhe, tais ventos nos remetem aos estorvos rotineiros. Como uma crise conjugal, um desentendimento com o chefe, a perda de um emprego, a ausência de um grande amor. Momentos árduos (e necessários), que nos fazem erguer a cabeça e seguir em frente.


Finalmente, temos os ventos perigosos, conhecidos pelos danos causados à sociedade. Posso citar os furacões, tufões, tornados, entre outros. Uma vez, numa crônica, Domingos Pellegrini disse que o vento é o suspiro do mundo. Em minha opinião, um vento desse tipo é o suspiro de Deus, diante da humanidade. Até que não seria ruim se um visitante estrangeiro varresse os ratos que roem a nação sem piedade.


Mas, na verdade, o tipo de vento não importa. Somos, nessa vida, como folhas: ora secas, ora verdes. Por um momento, estamos deslocados – como barquinhos de papel. Podemos desbravar as ondas e enfrentar ventanias. O fato é que os ventos sempre circularão entre nós; carregando sonhos, pesadelos, amores, desilusões. E levando, para algum lugar, nossas palavras.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Felicitações

Por Daniella Caruso Gandra




Temo que a felicidade seja como o vento, inatingível…
Desde a mais leve brisa, pois pouco dela sentimos,
a mais forte, quando muito, exígua,
eriçando pelos, dilatando as pupilas e o coração disparando,
mas absolutamente desafiadora.


O nosso exterior a experimentando…
Mas quando ares dela vão se dispersando, resta um vazio…
Fica-se frio, os olhos já não se inundam, e o coração apertando...


Há quem a espere extrema,
correndo o risco de nunca vivê-la.
Outros, nem sequer a imaginam,
num ato de desdém com a própria sina.


Mas também não há coragem que a surpreenda,
feliz pode ser o ato falho do herói fatigado pelas batalhas perdidas,
ou ainda, a recém descoberta de si numa encruzilhada sem escapada…


Momentos, na grande maioria, nascem de conveniências,
afastando o acaso ou o destino escrito pelas estrelas,
porque o ego toma à frente pra que a regra vença e a exceção seja piegas.


Natural, prum cidadão comum, indisposto a caminhar noutra direção, já que todos
estão cheios de hábitos, fazendo as mesmas coisas do mesmo jeito,
ou apenas numa simbiose insofismável.


Criam expectativas, contudo.
Mas, ao que tudo indica, nada que a atraia definitivamente.
Talvez, ela inexista neste mundo, ou, quem sabe, seja uma ideia fixa pra arrebatar
a morte física, o fim de tudo, o contrapé da esperança,
a substantivação da figura divina…


Eu não sei…
Só ouço falar, já me enganei também…
E você, tem outra história pra contar?

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Por Fazer

Por Fabio Ramos
 

 
 
é o
sonho
que ficou na
vontade


é o momento
que não
se
repete


é
o remorso
que
pesa
nos ombros


é
o medo de
estar

 

terça-feira, 24 de maio de 2016

Insônia

Por Fátima Mohamad El Kadri
 
 
Chegou de madrugada, louco por umas boas horas de sono. Como de costume, atravessa o extenso corredor que leva ao seu quarto, quando algo além dos próprios passos quebrou o silêncio. Apurou os ouvidos. Pareciam gemidos roucos, sussurrados, pérfidos.  Estancou durante segundos infinitos. Pensou na vida. Em tudo o que era e o que tinha: no conforto daquela cama, e nos braços daquela mulher que o esperava há anos. Visualizou seu sorriso de carinho. O cheiro, o olhar sereno, a pele macia e branca que ficava ao seu alcance, e que ele tocava de vez em quando, com certo tédio. Os lábios rosados e suculentos, aguardando o beijo que nem sempre vinha. De repente, parou de pensar e as pernas voltaram a andar bem devagar, esperando que os ruídos cessassem. E começou a sentir um torpor, como se o corpo se desmaterializasse e somente o espírito vagasse. Ou como se a alma estivesse evaporando, à medida que a porta do quarto se aproximava e os ruídos aumentavam de volume e intensidade.

Talvez fosse melhor bater, pensou, antes de perceber que a porta estava entreaberta. Apenas um leve empurrão e o tormento estaria acabado. Mas os gemidos, agora, ecoavam nas paredes. Um vento forte escancarou a porta, não revelando nada além da escuridão. Assim seguiu, com um passo ainda mais lento, aproximando-se daquele som aterrorizante. Como lhe faltou coragem para acender as luzes, imaginou a foice com o sangue, e a morte do traidor estampada nos lençóis brancos de linho, que ela adora. Seria incapaz de lhe fazer mal, pois reconhecia o quanto ela fora boa até então, porém, estava decidido a montar a cena do crime. Ela seria considerada culpada pela morte daquele desconhecido que tanto o humilhava.

Tateou no escuro, sentindo os lençóis e, sobre eles, o corpo quente que se contorcia. Agora só se ouviam as respirações – exaustas dela, e tensas dele. Reconheceu a pele macia e branca que tocava, às vezes, ao se deitar. Mas, antes que pudesse fazer qualquer movimento brusco, pôde ouvi-la sorrindo e lhe estendendo os braços que continuavam a esperá-lo. Repousou a cabeça sobre seus seios redondos e o peito arfante. Ele não pôde conter as lágrimas. Tinha acabado de adquirir a certeza que todos os maridos gostariam de ter: sua mulher não era adúltera. Era, sim, livre! A boca permaneceu calada, mas não o corpo. Mandou o sono bater em outra porta, e cobriu-a com a manta do seu desejo guardado.
 

Nascida em 1984 em São José dos Campos, hoje vive em Santo André. Já publicou textos e poemas em diversas coletâneas e sites, como o do Projeto Releituras. Em 2011, publicou a crônica “Recomendações de uma amiga” na coletânea Crônico! Crônicas Brasileiras Ilustradas, pela editora Multifoco. É uma apaixonada pelas palavras e pelas possibilidades que elas lhe dão.
 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

aisthésis

Por Ana Paula Perissé




                                     I- estética do encontro
                                     ver como tocar-te
                                     mesmo a distância fortuita
                                     algo que imposto ao olhar:
                                     a paixão de tua imagem
                                     impregnada do sensível
                                     tal como abandono de mundo
                                     ou 1´toque virtual em tua
                                     pupila
                                     em seio de tua lágrima perdida
                                     (extraviada)
                                     para o sempre
                                     essencial
                                     de nossa fascinação.



                                     II - estética fusional
                                     cindida à busca
                                     do extraviado incessante
                                     de se ter
                                     sem olhar-nos
                                     no fantasma único
                                     de nossa visão eterna.
                                     (pretensão atemporal
                                     de colagem orgânica
                                     magmática.)



                                     III- estética exorbitante
                                     orbitando sentidos
                                     desintegrados em
                                     imagens
                                     percebidas no momento
                                     de teu puro
                                     reflexo
                                     (no abismo
                                     de nós.)
                                     não! não cessa
                                     essa fascinação
                                     do inflar pulmão
                                     vistas aéreas
                                     espelhadas de vísceras
                                     nossas
                                     irreveladas até então.



                                     IV- estética do encantamento
                                     de cada poro
                                     que me empolga-
                                     sangra
                                     posto luz que também
                                     é abismo
                                     (assustador- mui- atraente)
                                     onde se banha
                                     e flui
                                     para a imensidão
                                     de 1´olhar.
                                     Teu contorno
                                     de alguém meu
                                     que, se nos olha,
                                     me vê - tua
                                     ofuscante
                                     ode à perdição
                                     a perder-se sem
                                     poder
                                     render-se
                                     (vã).



                                     (é possível enxergar
                                     por contraste
                                     o inverso
                                     de uma vez datado -
                                      devaneio escarlate
                                     circular)



                                     Abyssus abyssum invocat

domingo, 22 de maio de 2016

sábado, 21 de maio de 2016

Rosas numerosas

Por Meriam Lazaro




Pra embelezar seu dia
trouxe rosas numerosas
de pétalas luzidias,
macias e perfumosas.


Púrpuras, cor da paixão,
enfeitam o colo e o cabelo,
da menina, flor botão,
da mulher, em seu apelo.


No entanto, têm espinhos,
garantia de coragem!
São as perdas do caminho
pra leveza da viagem.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Andanças

Por Daniella Caruso Gandra




Muito laquê pra pouca peruca
Promovem mitos insustentáveis na cuca
E o sentimento inunda o coletivo e se mistura
aos contrapontos da dita razão absoluta.


Indivíduos necessitam ser reconhecidos,
mas muitos são ignorados pelos cofrinhos...


De mentalidade curta, o sujeito, cheio de verdades, se derrama:
"Temos que mostrar o lado bom da nossa comunidade."


Enquanto maquiam o nosso juízo,
a cidade pesa na combustão que trafega.


Falta o essencial pra quem tem sede, fome,
pro doente e pro aprendiz,
e a segurança na contramão...


E você, aí na sua, o que anda fazendo, meu irmão?

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Repasto

Por Fabio Ramos
 

 
 
para tomar
o suco
de
café


(três dinheiros)


e
para
expelir fumaça


com
a
focinheira
não dá


mas é
preciso indicar
ao
garçom


(rapidamente)


o
prato
escolhido


*


como desatar
esse nó
?


um X na
melhor alternativa:


(   )
Churrasco grego.
(   )
Torresmo.
(   )
Nenhuma
das anteriores.
 

segunda-feira, 16 de maio de 2016

o espanto como irmão.

Por Ana Paula Perissé




                                   arder em morada
                                   dionisíaca
                                   ou beber com o coração
                                   pagãosanto já de eras
                                   visceradas ?



                                   despenco mas destilo
                                   non-sense pela ausência
                                   que se crê na vida
                                   de quase´1



                                   e consagro o espanto
                                   como irmão.



                                   quero só é ganhar estrada
                                   em cada gole
                                   infante
                                   com carga despencada em infinito
                                   sem bordejar o infame
                                   depois de tantas curvas
                                   ciliadas
                                   insones.

domingo, 15 de maio de 2016

sábado, 14 de maio de 2016

Comunhão

Por Meriam Lazaro




No retrato colorido
Pendurado na parede,
A família, em graça e riso.
Uns, na mesa, estão comigo
A dividir o pão, o vinho, a prece.
Outros, longe vão... Acendem estrelas!
Invisíveis iluminam o caminho que eu sigo.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Imponente

Por Mayanna Velame




Pontes podem cair.
Muros podem desmoronar.
Paredes podem desabar.
Impérios podem ruir...
Mas somente a concretude do amor
Deve permanecer imponente.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Tirinhas

Por Daniella Caruso Gandra




Eu não gosto de você.
Porém, me tocas...


Não sei dizer porque deixo,
Mas me satisfaz de alguma forma.


É pouca coisa, mas não importa.
Não é certo, apenas uma teima.


Uma noite, a gente se estranhou...
E percebi prepotência em você.


Ontem, éramos ainda superficialidade.
Hoje, só formalidade.


Ambos companhia procuramos.
E, quando longe, saudades declaramos.


É estranho o disponível permanecer
Se eu não gosto de você.


Não há o que, de mim, eu possa reconhecer.
Talvez, distraídos cismemos ser.


Não tenho vontade de investir em você,
Nada sinto senão um tédio que, por ora, você me permite esquecer.


Pode ir embora que não vou sentir falta.
Afinal, eu não penso em lhe querer.


Parecemos é tentativa e erro.
Não existe o que possa, de novo, acontecer.


Incapazes de um ao outro pertencer...
É nítida a diferença entre mim e você.


Do teu sentimento, não quero saber.
É a certeza de não gostar de você.


Próximos e nem tão óbvios,
Muito menos amigos intrínsecos.


Raras as vezes em que, nos olhos, demoramos.
E a pele quase não arrepia nas carícias que trocamos.


Nem pra purgatório emocional servimos.
É insuficiente a química entre a gente. Até as palavras que emitimos...


Acho que vou desistir de dizer sim pra você.
E nada de arrependimento, pois não vai doer.


A solidão me ampara agora.
Aconselha que o melhor é não insistir em você.


Não vou procurar motivos quando você perguntar.
Só vou conseguir falar que já não dá.


Mal nenhum desejo a você.
Só não quero ser seu bem querer.


É inútil inverter enganos, quando nem sentido enxergamos.
Fomos ocupação sem coração, uma indignação.


Carência ao repúdio, ilusão esperada, criada.
Um cálculo improvável, não sei...


Mas não há dúvidas:
Não vivi arroubos com você.


E adeus é forte demais pro vácuo entre nós.
Somente até breve pra harmonizar a despedida.


E um alívio imediato de não precisar me julgar.
Retomo ao centro de mim mesma sem, por dentro, negar...

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Paradeiro Incerto

Por Fabio Ramos
 

 
 
da
cama
em direção
à rua


(foi)


não
houve
um bilhete


(zanga)


nem sequer
um beijo
de
adeus


*


(agora)


ponha
no liquidificador
tuas
emoções:


o
aperto
que dilacera


o
coração
que esfarela


e
a pergunta
final


(por quê?)

segunda-feira, 9 de maio de 2016

vazios em plenitude.

Por Ana Paula Perissé




                                         nada do que escrevo
                                         faz sentido
                                         apenas ausência
                                         plena
                                         e
                                         bailante de signos:
                                         (quase fálicos)
                                         reminiscências
                                         do retorno
                                         do Outro.



                                         o tempo é esquálido -
                                         está em dieta de Chronos
                                         1' banquete
                                         sem oferenda.



                                         (escrevo no vazio
                                         que corteja
                                         o perfume do fim.)



                                         delícia esmaecida
                                         de vidas póstumas
                                         ainda
                                         .
                                         .
                                         .



                                         erógenas.