domingo, 31 de julho de 2016

sábado, 30 de julho de 2016

Disfarce

Por Meriam Lazaro




Só pra ela (sua musa) se cumpria a serenata!
Sob o pórtico, na rua, o trovador disfarçava
Ser o canto pra donzela que o malmequer desfolhava.


Desde outrora, a moça feia ouve o cravo à janela.
Mariposa que se queima na chama fria d’uma vela,
Como se fosse alheia à virtude da espera.


Noite alta, ele cantava, só pra ela, sempre alva...
Indiferente e etérea – sua musa – a Lua bela!

sexta-feira, 29 de julho de 2016

O desejo de cada um

Por Mayanna Velame




Em certo domingo de maio, acompanhei mamãe num café realizado no estacionamento de uma igreja. Havia doces, bolos, pães, salgados, ovos mexidos. Tudo do bom e do melhor. Qualquer comilança é sempre bem-vinda. Atiçar o paladar – e provar os mais variados quitutes – gera muita satisfação.


Aquelas tentações chamaram atenção da minha gula matutina, mas nada se comparou ao episódio que testemunhei com esses olhos. Diante de mim, sentado à mesa, estava um homem calvo, de pele clara e feição sisuda. Pela postura, parecia esperar alguém.


Tamborilava, impaciente, seus dedos curtos e grossos sobre a mesa (coberta por uma toalha vermelha). Devia estar com muita fome. E faminto. Como todo mundo ali.


Não demorou para que mãe e filho se aproximassem dele. A esposa ofereceu ao amado um sanduíche e um copo de suco. Disse-lhe algumas palavras e, depois, levantou-se para apanhar guardanapos no balcão.


Da delicadeza daquela mulher, segui meu olhar para o filho do casal. Agora pai e filho eram os protagonistas de uma cena dominical. O garotinho aparentava ter oito ou nove anos. Tinha, em suas mãos, um prato de plástico com uma fatia de bolo.


Rechonchudo, sorria feliz. Com uma garfada, iniciava seu ritual. E, paulatinamente, partia seu pedaço de bolo como se fosse um desejo se realizando. No entanto, toda a magia do momento foi para os ares. O pai, amuado, proferiu algumas palavras para o pequeno filho. “É assim que você quer emagrecer? Comendo esse bolo de chocolate?”.


O molequinho crispou sua fronte e, desconcertado, abocanhou timidamente um pedacinho daquele doce. Confesso que senti pena da criatura. Infelizmente, há momentos que tudo parece estar bem. Até que palavras desmotivadoras nocauteiam os mais preciosos anseios.


Não sei se o garotinho terminou de comer o bolo... Espero que sim! Nossos sonhos são adocicados. Devemos degustá-los e apreciá-los. Afinal, a dor de barriga será nossa. E, no mais, ou engordamos a vida com sonhos, ou terminaremos franzinos; reféns da magra perspectiva de acreditar em algo que nutra, sem dietas rigorosas, a alma e a vida.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

É urgente!

Por Fabio Ramos
 

 
 
de onde
viera
esse aperto?


não
sabia


mas o preocupou
(com razão)


ainda
que
não soubesse
explicar


(...)


telefone do irmão
só chama


no
domicílio
ninguém atende


insiste
por
alguns minutos
até
conseguir


(...)


que foi?
sem choro, por favor


(...)


TÔ INDO AGORA!
me espere



*


(moral da vida)


se
a intuição
grita


largue tudo
e vá

segunda-feira, 25 de julho de 2016

entropia

Por Ana Paula Perissé




                                                         têm coisas que não hei de saber
                                                         escrever
                                                         há muito vontade
                                                         em mim
                                                         [todavia]
                                                         que dói e lateja
                                                         implosão



                                                         tem quietude de nada saber
                                                         (resquícios de sentidos
                                                         fadind away)
                                                         que o oceano
                                                         não tem mais vagas
                                                         para nós.



                                                         faltam ondas
                                                         quiçá espumas.
                                                         falésias secas,
                                                         graníticas róseas
                                                         à solitude de ciclo.



                                                         têm coisas sobre as quais
                                                         não sei escrever.



                                                         ( factualidade entre mundos
                                                         em débil caos )

domingo, 24 de julho de 2016

Pote de vidro

Por Oswaldo Antônio Begiato




Tudo o que eu queria,
nas minhas infindáveis horas de desamparo,
era a companhia de um pote de vidro gordo e redondo
cheio de gomas coloridas e açucaradas,
e outro de bolinhas de gude,
coloridas e de todos os tamanhos.


Quando moleque, eu tinha só esses dois sonhos;
eles faziam meu abandono parecer dádiva.


– Por serem doces e coloridos, acho.


Por que será que nunca sonhei com mãos meigas,
com colo me aquecendo
e com histórias me fazendo adormecer?


Por que erá que nunca sonhei com lápis apontado,
com uma borracha indestrutível
e com palavras me fazendo a dor me ser?


Por que será que até hoje
tenho só esses dois sonhos
– gomas e bolinhas de gude coloridas –
adormecidos nas prateleiras empoeiradas da paciência
em potes de dores que nunca consigo abrir?


– Por serem gordos e redondos, acho.

sábado, 23 de julho de 2016

Da janela

Por Meriam Lazaro




Da janela, o colibri
bica o doce dos hibiscos.
O gato, placidamente,
acompanha o pássaro-passeio...
Do avião, nuvem ausente,
o traço de fumaça desafia o ponto!
O pianista que assista ao espetáculo do céu em blues.
Para ler-me a palma, entre raios invertidos, 
o astro Sol embaralha as luzes da ilha corrente.
A sibipiruna, enciumada, salta amarelinha num só pé.
Contra o muro, apressada, sombra sem dono dá nó no asfalto.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Português amoroso XXXV

Por Mayanna Velame




Você e eu,
eu e você.
Você, no entanto,
coordena sentimentos
adversativos.
Somos redigidos em orações assindéticas:
Amamos, choramos, partimos...

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Alteritas

Por Daniella Caruso Gandra




Tu não podes ser meu constituinte,
mas ainda há teima em buscar identidade.
Como nas palavras de Descartes.
prefiro cogitar-te para dominar-me.


Acontece assim quando nos apaixonamos,
só vemos o que de nós no outro pomos.
E no momento em que a razão se desarticula,
desvalorizamos num gesto egocêntrico,
nos autopreservando.


Esta é somente uma parte,
mas não a única verdade.
Existe outra sem a exacerbada individualidade,
ou o aspecto sombrio da doce possessividade.


Sou aquela além de ti, uma estranha,
a que te atrai, perturba e te convoca a acolher...


Sou a que te responde, te surpreende,
te habita, contudo, tu não me reconheces,
ou faz de conta que assim procede,
pois me distancio de teus esquemas assimiladores.


Tu me percebes na desordem,
porque tua teimosia decide que tudo tem de ter seu lugar.
E na ambiguidade que tu me defines,
sou tentadora quando para ti abrem-se novas possibilidades,
excluídas na ordem que rege teus dias,
ao mesmo tempo,
sou ameaçadora,
desestabilizo tuas vontades soberanas.


Se realmente quiseres me compreender,
conduzas-me à conversação,
põe-te em meu lugar,
e notes outras expectativas que não só as tuas.


Somente assim, provocar-te-ias uma revolução
exporia-te às dúvidas que contrapõem teu coração,
descobrindo teus próprios preconceitos,
rompendo com teus enclausuramentos.


No entanto, é sempre possível que algo te escape,
porque na generosidade, longe do ego exagerado,
somos todos finitude, o não dito.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Prioridades

Por Fabio Ramos







(em sua lista)


uma
garrafa
de sutileza?


2
quilos e
meio
de
esperança?


3
latas de
bom humor?


ou gratidão em pó?


(...)


se não há
REESCREVA TUDO

segunda-feira, 18 de julho de 2016

o menino e o vento

Por Ana Paula Perissé




                                     e eu fico a ventar
                                     dunas
                                     e por-de-nós
                                     enquanto a restinga nos passa
                                     e o mangue separa-nos
                                     de nosso povo
                                     quase Norte.



                                     quando tudo é movimento
                                     (pairagens longínquas
                                     em terras de lua e marés
                                     a marcar-nos alma)



                                     nado sou
                                     mesmo a ventar



                                     e me vem
                                     Valnir
                                     menino pés descalços
                                     com seu sorriso de vila
                                     paupérrima
                                     a desvelar quem sou
                                     ou quem estará por vir.



                                     (areias brincantes
                                     tudo é movimento
                                     pó)

domingo, 17 de julho de 2016

sábado, 16 de julho de 2016

Viagem

Por Meriam Lazaro




Enquanto os olhos navegam horizontes.
Já os ouvidos, cansados, procuram ser escutados.
Na trilha, os pés calçam botas silenciosas,
Na luta vã contra a pressa do mundo.
As mãos fazem da leveza, carinho,
Da força, o pão.
Os braços dão conforto a quem precisa.
A boca, mestra do egoísmo,
Aprende o caminho da amabilidade,
Unindo-se ao bom senso do olfato.
Todos os sentidos, sentinelas são da alma,
Que rendida, vagueia plena de Graça!

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Recíproca

Por Mayanna Velame




Livre-se
Solte-se
Liberte-se
Desamarre os laços
Rasgue os versos
Voe, cante, salte...


Desligue a tevê,
Pule muros
Cavalgue
Coma
Beba
Deguste...


Das quatro paredes,
tornei o horizonte
tua casa.
E a solidão,
nossa amiga recíproca.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Sensibilidade

Por Daniella Caruso Gandra




É gradual saber viver de certezas,
anseio inevitável, mas rara é a acolhida,
pois afeta olhar por lentes alheias, circundar-se de mais universos,
quando o de si é incógnita ou desalinho.


Encolhe-se para encaixar peças que carecem no jogo do outro,
faz-se ponte a dar acesso para mais possibilidades, a desentraves,
enquanto se mede o desnível dessa polaridade.


Uma vez castelo, cheio de sonhos tardios,
maior é a dúvida perante o desconhecido.
Um desencanto se anuncia...


Tão estimável é a tentativa de se pertencer,
em estado permanente de alerta,
diferenciando o que é real do capricho e, então, avivar.


A cada ser comum, cabe o dízimo a pagar...
Ao sensível, o próprio interior apaziguar.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Deslumbre Pueril

Por Fabio Ramos
 
 
 
 
um desfile
de
nuvens


em marcha
no céu


(...)


com
esse porte?


é
um
cachorro


(...)


desliza com
graça
e
leveza?


é
uma
bailarina


(...)


com esse formato?


só pode ser
um
homem


(...)


e
pelo que
dizem os garotos


no
banco
da
praça


quem conduz
a tropa


é
feito
de algodão
 

terça-feira, 12 de julho de 2016

Óculos

Por Denise Fernandes




deu tudo errado, deu

nascemos de óculos, quase às cegas,

tateando um mundo desconhecido

e nos disseram que precisávamos de olhos

muitos olhos para ver o mundo

então, na névoa de mim

percebi o desvio lógico de nossa natureza

imperfeita

carente de drogas e de espaços para naufragar

somos nós outros

dando gracias a la vida

mas sem enxergar aquilo que querem que enxergamos

com medo do futuro

negro incerto imperfeito

com a morte prisioneira de nós esperando

sua vez

o que vejo é suficiente

e os óculos são também para que eu seja vista

com esses olhos dos outros,

que eu preferia esquecer.

no silêncio do escuro,

lembro que não vejo e isso é feliz

sangue quente nas veias

me sinto um tigre que acordou na Cidade

de óculos.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Demi-brut

Por Ana Paula Perissé




                                    sempre à beira do
                                    inacabado
                                    a suspensão à espreita
                                    dói-me,
                                    crueza inapta
                                    de uma cripta escura.



                                    ondas não navegadas
                                    semi-cerradas que me são
                                    com um gosto de que já se vão
                                    sem retorno de maré



                                    não, talvez, não me volte
                                    um oceano que agora
                                    jaz
                                    absorto
                                    entrópico
                                    mudo



                                    vozes à meia-luz
                                    apagam-me



                                    ( meio-ser
                                    meia-vida
                                    meio-coisa)

domingo, 10 de julho de 2016

sábado, 9 de julho de 2016

Para onde vou?

Por Meriam Lazaro




Perdi o trem para Pasárgada.
Nem meio agosto passou,
Chove chafariz!
Paris não me quis.
Canoas, também.
Ah, acordei...
Vou morar no violão.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Acolá

Por Fabio Ramos
 
 
 
 
temos
aqui e agora


mãos
na
cabeça


nos pedais


(cheiro de fumaça)


olhos
que fiscalizam
o relógio


(...)


seria um
sonho

 
TER


mãos
na correia



nos
estribos


(cheiro de mato)


olhos
na
linha
do horizonte
 

segunda-feira, 4 de julho de 2016

diferença e repetição

Por Ana Paula Perissé




                             até quando repetição
                             pode ser diferença?



                             por ritmos, cadências,
                             percursos ou lembranças
                             de rastros de ti.



                             um lamento de papel
                             como se fosse diferença
                             repetição de te querer
                             que me abriga.



                             até quando o mesmo sonhado
                             há pouco ou alhures
                             subsiste em nuances salinas
                             de marés cheias
                             plenas de ti?



                             (saudades em pranto calado
                             a temperar-me vida)



                             pois resvala em mim
                             a ilusão de cada único momento
                             ou gorjeiam marés de pássaros prateados
                             tudo de nós
                             enterrado
                             aos ares.



                             uma plena ausência de mim
                             sem rastros.