segunda-feira, 31 de outubro de 2016

inexistência

Por Ana Paula Perissé




                                  desassossego
                                 
traz a inquietude

                                 
de um desejo

                                 
grito!



                                  (a falta de apreço pelo outro
                                 
é dor de um não sentir amargo,

                                 
ter-se por indigno de si...)



                                  quero, agora, somente o brilho
                                 
dos olhos

                                 
de quem cria SONHOS



                                  compartilha lágrimas
                                 
e existe em parelha.



                                  ( a inexistência é a presença patética

                                 
de deixar-se no lugar do nada)



                                  sou-me outra
                                 
porque tensiono

                                 
intensa

                                 
minha vida

                                 
agora distante

                                 
de teu não-ser

domingo, 30 de outubro de 2016

sábado, 29 de outubro de 2016

A contadora de filmes

Por Meriam Lazaro




Livro fininho, daqueles que uma hora é suficiente para devorar, mas a história nos envolve e exige pausas. Depois da última página, o enredo continua passando no projetor da memória. Há um fim depois do "Fim".


Maria Margarida vive num povoado onde a diversão é o cinema. Não há dinheiro para pagar entrada para todos da família. Ela ganha um concurso interno – sob o júri do pai e dos irmãos – para ir ao cinema e ser a contadora de filmes. Sua casa fica cheia de amigos e vizinhos; até que a fama se espalha e a menina começa a relatar as produções cinematográficas a idosas em seus domicílios.


Mas nem tudo é diversão. Há dramas familiares e experiências dolorosas para a personagem. A descrição das questões femininas é tão peculiar que eu só notei se tratar de um autor (e não de uma autora) após ler os créditos finais da obra.


Livro: A contadora de filmes
Autor: Hernán Letelier
Editora: Cosac Naify

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Rodopio

Por Mayanna Velame




Ei, moço!
O mundo está lá fora,
com seus amores
e todas suas
dores.


Ei, menina!
O mundo está dentro
da tua casa,
na curva de uma esquina,
na tua saia rodada.


Ei, menino!
O mundo está aqui.
Enfeitado de pipas
e aviões feitos de papel.


Meninos e meninas!
O mundo é nossa ciranda...
Rodopiamos,
Giramos,
Circulamos...
Entre sonhos, devaneios e lembranças.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Comunhão

Por Daniella Caruso Gandra




A sensação inóspita que o visitante em mim reconhece,
ao perguntar-me "por que?"
Reclusa, respondo já não saber...


Mas peço que fique mais um pouco,
enquanto compilo fragmentos.


As mãos quentes e firmes
repousam em minha singeleza.


O hóspede, em mim, quer acampar
dividir regalos.


Com as pupilas pretas, escancarar,
me deflagrar, e como vadios,
sacramentamos o sublime ato de se doar.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Tutano

Por Fabio Ramos
 
 
 
 
aquele olhar
infantil


em
que tudo ao
redor
é
novidade


aquela escrita
simples


que
radiografa
almas
e situações


eis
a pérola
dentro da concha


eis
o miolo
do
poema
 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Cabelos

Por Denise Fernandes




cabelos dizendo o que eu não poderia

o quanto sou alvoroço

luz preto e branco

o quanto sonhei

enquanto eles se agitavam



tive que calar

guardar no ar

tudo que senti

constante solidão

se repetindo nos textos poemas

a vida aberta

esperando

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

cotidiano

Por Ana Paula Perissé


Imagem: Paul Cézanne


                                eles estão jogando cartas
                                alheios ao mundo
                                escutando um prelúdio de Wagner
                                e a tempestade assola as almas
                                aos que somente estão de fora



                                a calçada, a rua
                                a aridez de um asfasto quente
                                faz-se conforto
                                e o destilado acalma
                                a tristeza de um amor
                                arrancado de si
                                jogado em veias mortas



                                quer coisa mais bonita
                                do que um bando de viventes sujos
                                e desbocados
                                jogando a sorte fora
                                de costas para o mundo?



                                não, não adianta ficar cá dentro
                                fazendo planos
                                e inalando o perfume
                                dos que já se foram,
                                entregues ao nada



                                gira gira e transforma
                                eu prefiro os loucos
                                no alto de sua sabedoria
                                largados e cônscios
                                do acaso da vida
                                a desfilar despenhadeiros de poesias
                                mortas ou sem dono



                                calidez de uma queda
                                cotidiana.

domingo, 23 de outubro de 2016

sábado, 22 de outubro de 2016

A mão e a luva

Por Meriam Lazaro




Terceiro livro de Machado que releio, com toda admiração e encanto por esse grandioso autor. Espero não levar mais trinta anos para reler sua obra. O início da narrativa fez-me rir da paixão exagerada de Estevão, que promete morrer de amores por Guiomar, mas é impedido pelo amigo Luis Alves. A bela moça faz Estevão e outros rapazes, cativos de seus encantos, lhe proporem casamento. Naturalmente, Machado não se restringe a narrar uma singela história de amor – sem revelar, aos leitores, determinadas nuances da alma humana, que se acham camufladas. Bem buriladas, as coisas "feias" alcançam nossa aceitação; trazidas à luz pelo toque do mestre. Desta feita, o sentimento chave é a ambição. Como em outros romances que eu li (desse mesmo período da literatura mundial), o escritor transforma Guiomar em uma personagem forte, propensa à racionalidade; em detrimento dos personagens masculinos, mais românticos. O título do livro explica melhor a história do que "Ressurreição".


Livro: A Mão e a Luva
Autor: Machado de Assis
Editora: Nova Fronteira

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Morada no universo

Por Mayanna Velame




Às vezes, nos entraves da vida, temos vontade de nos evadirmos desse planeta (nem que seja por alguns minutos). Não é novidade assistirmos e/ou ouvirmos notícias ruins: a crise política e moral que assola o país; a violência insistente; o crescimento do desemprego e o descontentamento significativo do povo, entre outras coisas, deixa-nos atordoados. Enquanto isso, nos Estados Unidos, Donald Trump deleita-se em discursar contra os imigrantes. E na Coreia do Norte, os testes com armas nucleares voltam a assombrar nações.


Na insatisfação que nos abraça, de vez em quando, surge uma inveja “branca” das estrelas. Por um momento, gostaríamos de ser como elas: cintilantes, imponentes e únicas no céu. Versejando na calmaria do universo, testemunhando a bravura dos astronautas e, de longe, observando, sem se corromper, a ambição maligna dos homens terrestres.


Com as desigualdades sociais – cada vez mais presentes – e a desunião humana, viajar para o universo não seria má ideia. Armar uma barraca na lua, construir uma casa com rochas lunares ou passear na cauda de um cometa qualquer, aliviaria as dores que sentimos.


Na inocência que ainda carregamos, perguntamos se os alienígenas não se assustariam em visitar um lugar como o nosso: repleto de egoísmo e de indiferença. Estarmos fora de órbita num planeta tão inerente às mazelas. Poderia nos dar um refrigério; mesmo que instantâneo. No entanto, não há consolos, até porque viagens espaciais custam cifras astronômicas. E elas estão fora do padrão de nossos orçamentos.


Lá fora, o mundo gira. Seguimos na rotação da Terra, cruzamos seus meridianos e trópicos, atravessamos linhas. Avistamos o Sol e socorremos as noites. Se viver no universo é quase uma utopia, só nos resta contemplar o céu e seus acessórios. E, por um expressivo instante, criamos nosso próprio espaço, tempo e mundo.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Volta e meia, a meia volta

Por Fabio Ramos
 
 
 
 
para
onde foram
os
engraxates?
 
 
os
alfaiates
com suas roupas
sob
medida?
 
 
para onde
foram as telefonistas?
 
 
os
vendedores
de
enciclopédia
?
 
 
e os privilegiados
que fizeram
curso
de
datilografia?
 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

ocaso

Por Ana Paula Perissé




                                    encerra em lápide
                                    o ocaso de vez
                                    ao descender do horizonte
                                    funesto
                                    as sobras que resvalaram
                                    somente a mim



                                    chancela
                                    The End
                                    em mármore pictórico
                                    ao celebrar fragmentos de memória
                                    vã
                                    restos de vento
                                    sopros inacabados



                                    decaden-cia
                                    (de-canta)
                                    sobejos inúteis
                                    ao caminhar sozinha
                                    às ruínas salinas
                                    do suor desperdiçado



                                    caminha
                                    à sós
                                    à toa



                                    (brisa garoa
                                    menina ainda viva.)



                                    e a cada vaga que me traz
                                    o som e a pele molhada
                                    cansada
                                    um oceano rochoso

domingo, 16 de outubro de 2016

Aninhamento

Por Oswaldo Antônio Begiato


"Pietà", de Michelangelo


Aninha em teu colo
meus caminhos e meus cansaços,
meu caráter e minhas impotências,
minhas obrigações e meus fracassos,
minhas descobertas e minhas incoerências,
minhas fugas e minha presença.
minha cabeça e minha sentença,
minhas franquezas e minhas fraquezas,
meus enganos e meus desenganos.


Aninha em teu colo
essa terrível sensação
de eu não poder nada,
de eu não sentir nada,
de eu não ser nada.


Aninha-me em teu colo
e eu poderei assim
adormecer sem pesadelos.

sábado, 15 de outubro de 2016

O livro do cemitério

Por Meriam Lazaro




Agora, sim, pude entender a paixão dos fãs pela escrita de Neil Gaiman. Ele disse que sua inspiração vem do "Livro da Selva" (Rudyard Kipling), que leu repetidas vezes quando criança e adolescente. Isso justificou, em parte, o título da obra, já que eu pensei que encontraria algo sobre um livro especial no local onde se passa a maior parte da história. Encantei-me com a criatividade do escritor, a escrita límpida, bonita, enredo ao mesmo tempo melancólico e humorado. Quem espera passar por grandes sustos talvez se decepcione, mas há suspense suficiente para prender a respiração em cada capítulo. Por falar nisso, cada capítulo é muito bem conduzido. Não há pontas soltas; sendo “Dança Macabra" o meu preferido – que me fez lembrar outro mestre do horror e do suspense: Stephen King. "O Livro do Cemitério" pode servir como uma boa introdução ao gênero. Não vou contar mais para não estragar a surpresa da história.


Livro: O Livro do Cemitério
Autor: Neil Gaiman
Ilustrador: Dave McKean
Editora: Rocco

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Português amoroso XLII

Por Mayanna Velame




Não sabia
como escrever
alguns versos inspirados
na 2ª geração romântica.
Pediu alento às onomatopeias...
Tum Tum
Tum Tum
Tum Tum

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Sagrada

Por Daniella Caruso Gandra




Ela abraça todas as cores
Subtrai as dores
e recebe flores.


Admite-se como peregrina
É ponte, luz e chuva
resplandece vidas.


Chamada de muitos nomes
mas duas palavras a definem:
mãe nossa.


É senhora do Céu, da Terra
De natureza serena, semeia
e tudo que pede, Deus aceita.


Sagrada presença, nunca alheia
Afirmativa pela crença, missionária
Fazendo do amor sua obra doutrinária.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Os convivas

Por Fabio Ramos




quem
muito pondera


(silencia)


não
se
agita
com alardes


pois quem
esquiva


GRITA


(...)


as
pupilas


(com tanta fadiga)


uma
hora
fecham


e haverá muita
DOR


(...)


a
palavra
no momento
de
cólera


que é cuspida


que
da mente
(do ser vivente)
não apaga


e
ainda
contamina


 (...)


mas
é como fala
dona
M


se
não disse
adeus
é
porque
não era despedida

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

imagética

Por Ana Paula Perissé




                                     deita em terra
                                     à sombra abrasiva
                                     daquilo que te pesa
                                     os sonhos mais esquecidos



                                     floradas na pele
                                     dermatites na alma
                                     como carvalhos sem raízes
                                     ou palavras despencadas



                                     autômato descendente
                                     sem verdade
                                     o mistério há de te conceber
                                     novamente
                                     insano



                                     pois
                                     acorda de teu frêmito desmaio



                                     pois
                                     tuas sombras não são ficção
                                     tampouco abraçam o real
                                     desprotegido
                                     de tua intensa força nula.



                                     Para que te servem
                                     os sentidos?



                                     Deita
                                     mas não morra
                                     (SONHE)
                                     para alívio e gozo
                                     humanos