segunda-feira, 15 de julho de 2019

trova em contralto

Por Ana Paula Perissé




                                          de minha trova surda
                                          resta-me o silêncio
                                          eloquente


                                          resta-me um pouco
                                          de minha vida
                                          em murmúrios


                                          se te falar
                                          em solidão
                                          apenas
                                          e um girassol a me sentir
                                          sou plena


                                          sou-me quieta
                                          mas intensa
                                          de rasgar-me em vozes
                                          surdas


                                          contraltos em almas
                                          vagantes

domingo, 14 de julho de 2019

sábado, 13 de julho de 2019

Estamparia

Por Meriam Lazaro




É ainda flor botão
a primavera nascida,
na palma da cada mão,
feito criança querida.


Logo mais será verão.
Fertilidade sentida.
Amor novo ou temporão,
na estampa colorida.


Da outonal estação,
maduros frutos da vida.
Por seiva, sempre emoção,
seja alegria ou partida.


No inverno da paixão,
uma saudade doída.
Folhas secas, solidão,
na memória reflorida.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Português amoroso XC

Por Mayanna Velame




"Amor é fogo que arde sem se ver".
É sim, Camões!
Amor é fogo que arde...
É fogo que queima...
E nos subtrai em cinzas.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Fecho os meus olhos

Por Nana Yamada




Fecho os meus olhos
E posso te ver
Nitidamente
Tão apaixonante
Seu sorriso me ilumina
Me encanta
Me enche de amor
De vida
De paz


Fecho os meus olhos
E posso te sentir
Perfeitamente
Tão puro
Seu olhar me fascina
Me conquista
Me enche de alegria
De emoções
De sentimentos


Fecho os meus olhos
E é pra lá que vou
No meu sonho
Aonde te encontro
Todas as vezes
Sendo meu príncipe encantado
E eu sendo aquela garota
Apaixonada por você
Somente por você

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Sinais visíveis do corpo

Por Fabio Ramos




quando franze
a testa


e
range
(os dentes)


ele
fala


ATRAVÉS DOS GESTOS


(...)


ao
dizer


NÃO querendo


dizer
SIM


ela carimba


um
recibo


(...)


e quando correm


na hora
de
parar


eles reafirmam


quem
dita


AS REGRAS


(...)


e
pelas


(unhas que roem)


elas
se
entregam

terça-feira, 9 de julho de 2019

Memórias de um cão

Por Maurício Perez



Um belo dia, quando ainda era um recém-nascido, fui afastado da minha mãe e dos meus quatro irmãos. Essa marca nunca saiu de mim. Levaram-me para uma loja, onde fui vendido. Sim, vendido a uma família de humanos.


Não tive chance de escolher os meus novos 'donos'. Tive que aguentar tudo o que um cão deve sofrer nesses lares; onde se 'ama' um cachorro.


Sou um cachorro de raça e virei um objeto de fascinação naquela casa. Todos me faziam festa, me enchiam de biscoitos e cuidados. Mas isso tinha um preço a pagar.


Primeiro, foi a insistência de ter que fazer tudo o que me pediam. Tinha que ir de um lado para o outro, rolar, deitar, lamber, correr atrás de um pedaço de madeira e fingir que estava contente. Sim, eu temia que, se não respondesse bem, os meus donos se desanimariam e me jogariam na rua. Pelo menos foi o que aconteceu com a tartaruga que eles tinham... Mas desconfio que talvez não valha a pena ser tão puxa-saco dos meus donos, afinal, o gato consegue ser muito mais independente, come do bom e do melhor e anda por onde quer. Outro dia, um deles me disse que não entendia o comportamento dos cães: "Como vocês ficam obedecendo assim? Você não tem um mínimo de orgulho? De personalidade?".


Por falar em andar solto, um dos maiores tormentos eram os passeios e a coleira. Não me deixavam nem cheirar uma árvore. Era só puxa para cá, puxa para lá... Tenho o pescoço cheio de hematomas (que os meus pelos cobrem com dignidade). Quase sufoquei uma vez. E tinha que sair quando eles queriam, pelo tempo que queriam, aonde queriam. Como eu ficava calado e não podia reclamar, eles me achavam o máximo. Algumas vezes, tinha vontade de dar um passeio, mas eles não queriam. Isso acontecia, especialmente, em dia de jogo de futebol.


Pior é quando Antonio, o filho do meu dono, me pegava para andar de skate com ele. Cara, não aguentava aquela correria! O moleque não parava e ainda achava que eu estava adorando; porque estava com a língua para fora. Já a filha do dono, a Ana, tinha as suas manias de me vestir. Você tem ideia do que é para um cão ter que usar uma camisa, um boné e um óculos? Tem uma vizinha minha, uma poodle, que, coitada, tinha que aguentar poda e unha pintada. Há um pitbull na nossa rua que não para de zoar com a gente.


Por falar em cadelas, certa vez eu encontrei uma cadela linda, que estava no cio. Avancei com tudo, mas o diabo da coleira me deixou afônico por cinco dias! Mais tarde, naquele dia, fiquei desesperado: ouvi meu dono falar em me castrar. O que é isso? Fiquei aflito pensando em um plano que me salvasse: podia aproveitar o passeio da manhã, morder as bolas dele e sair correndo; podia me jogar debaixo de um carro... Foi uma semana muito difícil e só fiquei mais tranquilo quando eles descobriram o preço que o veterinário queria cobrar para fazer a castração. Acharam melhor me dar mais uma chance.


Quando viajavam de férias, eles me deixavam num hotel de cães, com lágrimas nos olhos, dizendo que me amavam muito. Na verdade, era eu que tirava férias e conseguia estar em paz com outros cães.


O tempo foi passando e fui ficando velho. Primeiro, perdi uma visão e, depois, comecei a ter um problema no fígado. Eu já não conseguia correr muito e os filhos do dono me deixaram mais à vontade. Até que um dia, ouvi o famoso papo: "Ele é tão bonzinho e sofre tanto. Não seria melhor sacrificá-lo, para o bem dele mesmo?".


Ah, negão! Nesse dia, eu tomei a melhor decisão da minha vida. Nessa altura, confiavam em mim e me permitiam andar com eles na rua, sem coleira. Aproveitei a deixa e dei a maior corrida da minha vida. Corri muito e só parei quando entrei numa favela. Cansado, velho, mas vivo.


Hoje sou feliz, apesar de ser um cachorro abandonado, sujo e com sarna. Moro na rua com meus colegas. Tem um catador de papel que me arranja comida e me deixa em paz. Ando por onde eu quero e sou plenamente cachorro. Meus donos diziam que era preciso defender o direito dos animais. Direito de quem, cara pálida?

É autor do blog Correio Chegou.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

escapadas

Por Ana Paula Perissé




                                    procuro por mim
                                    em tentativas de fugas
                                    rubras.


                                    escapo da minha pele
                                    em fantasias incontidas
                                    e brinco de amarelinha
                                    sob um lago com
                                    flores caídas


                                    são vermelhas
                                    intensas
                                    germinantes, tantas


                                    esvaio-me
                                    sumo
                                    perco-me


                                    ah! estou-me em tantas


                                    ( fantasias de menina em códice
                                    de metáforas esvoaçantes)