domingo, 16 de dezembro de 2018

Peso

Por Oswaldo Antônio Begiato




A respeito de minhas
perdas e minhas pedras
só eu sei.


Não leve muito a sério
as coisas que eu falo.


Tenho lampejos de loucura
e às vezes faço amarga a vida
mais do que ela é.


Eu não tenho jeito mesmo,
sou incorrigível,
viciado em lamúrias
e dependente de palavras.


Por isso a poesia me encarcera. Eu acho.

sábado, 15 de dezembro de 2018

Amores rotos

Por Meriam Lazaro




Quanta poesia evoca
o velho cais desse teu porto!
Viagens que nunca fiz,
ar da noite,
cabelos soltos.
Navios que ali aportam
vindos do mar revolto,
repletos de mercenários
lenços brancos...
Amores rotos.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Itinerante

Por Mayanna Velame




As roupas já estão sobre a cama, ao lado da mala. Inicio o ritual: logo irei prepará-las para mais uma viagem. O voo se aproxima, na cadência do tempo que devora nossos instantes. Dividimos a vida entre o antes e o depois. E o agora é uma suposição que não deveríamos subestimar.


Da iminência de partir, ainda vejo-me rodeada pelas paredes do quarto. Viajo em meus devaneios e receios. No entanto, a mala está aqui, aberta, para receber meus sapatos batidos. Dependendo para onde vou, deixarei alguns rastros no caminho, enquanto colho lembranças (boas ou não) na bagagem da memória.


Algumas vezes, o coração da gente precisa ser itinerante. Dormir em outras camas nos torna mais vivos  e também mais altruístas. Ao pisar em terras desconhecidas e remotas, viramos um gigante na nossa própria aldeia. E isso nos faz supremos.


Blusas, calças e certas esperanças. Socorremos as angústias para darmos continuidade à existência. Perseguimos o tempo, contudo, ele escorre (na medida do nosso desprezo).


Abro uma gaveta e encontro alguns postais. Em cada letra exposta, uma revelação de espírito. Em cada destino escolhido, um abrigo. Abraço os cartões para eternizá-los em mim. Podemos resumir o para sempre como o fim de tudo.


Lutamos contra quem? Contra os sonhos que idealizamos ou contra a debilidade que contemplamos? Estamos apenas perdidos, entre tudo e todos. Inteligência só é válida se for artificial. Humanismo é para a insensatez. Exaltamos os punhos cerrados e não o coração desarmado. Proferimos pensamentos soltos, que vivem perdidos na imensidão do nosso eu.


O telefone toca, o táxi me espera junto ao canteiro. De malas prontas, sigo. No carro, o motorista me cumprimenta com um boa tarde. Sorrio e tento ser agradável. Desço o vidro da janela. Nuvens carregadas anunciam a tempestade. Respiro fundo e, antes do automóvel dobrar a esquina, vejo uma pombinha se refugiar sob as telhas da casa onde moras.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Cheguei!

Por Nana Yamada




Eu sei
que quando
seu olhar cruzar
com o meu,
saberá que sou eu.


Eu cheguei, meu amor!
Estou aqui
para te amar
Estou aqui porque você pediu.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

É Deus no comando

Por Fabio Ramos




sendo o Criador


um
poeta


as criaturas são


folhas
em
branco


onde Ele escreve


o que
bem
entender


(...)


e sendo o Pastor


um
pintor


as ovelhas são


telas
em
branco


onde Ele retrata


o que
lhe
aprouver


(...)


lápis e pincéis


folhas e
telas


são trevas


nas
mãos
do vosso NADA

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Ano novo

Por Denise Fernandes




meios de dezembro, perto do ano novo

sem saber desabrochar

nem poder recomeçar

bem que gostaria de ser ovo

mas sou história no Tempo



não estou pronta pro ano novo

perplexa e sem atitude

mesmo que eu mude

é bem pouco o que renovo

no mar de meu Tempo



sonhar com um ano novo

com menos medo

e que não seja cedo

para viver o novo

em 2019, outro tempo.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

vin ordinaire

Por Ana Paula Perissé




                                          todo
                                          mundo
                                          "fala de vinhos"


                                          e a poesia
                                          também
                                          pode ser enochata
                                          como qualquer referência
                                          à vida


                                          ***


                                          uma poça de
                                          vinho
                                          rosé


                                          numa
                                          taça vulgar


                                          é a descoberta de
                                          1´metaverso
                                          da vida


                                          que ainda
                                          assim
                                          recusamos
                                          viver.


                                          (medos)

domingo, 9 de dezembro de 2018