sexta-feira, 3 de julho de 2020

quinta-feira, 2 de julho de 2020

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Desvio de rota

Por Fabio Ramos




de
quem


no campo


de
visão


se detém


na
borda


o nevoeiro tratora


e não
sobra


um pedaço


pra
contar


(aquela história)


(...)


do
ângulo


QUE DETIDAMENTE


parou
pra


notar


os
danos


cansou a vista


(...)


e
fica em
paz


ao
ver


(os olhos)


da
bela


CHEIOS DE VIDA

terça-feira, 30 de junho de 2020

Amore

Por Denise Fernandes




Estou tentando me perdoar. É difícil. Perdoar aos outros também exige muito, mas perdoar a si mesmo é mais complicado. Entre os sonhos e as expectativas, a realidade pode ser o espinho da rosa da existência.

Sem amor, não existe aprendizado, vida, nem significado. A própria energia é amor. Em tempos de marketing, de ódio político, e igrejas que ainda temem o diabo, só o feirante Ricardo me salva. Ele me manda mensagem de áudio: "Oi, amore, tudo bem? O que você vai querer essa semana? A mamãe vai bem? Sua filha vai bem?".

Passo minha lista para ele, e toda semana vem aquela alegria de frutas coloridas. E o mais importante: a alegria de ouvir "Oi, amore!". Porque parece que o amor está mais raro, ou mais caro. No luto coletivo que vivemos, com cada vez mais miséria, doença e saudades, o amor que o Ricardo me dedica, com seu nobre trabalho, é um sol quentinho no inverno da cidade.

Outro dia, disse a ele que estava sem dinheiro para pagá-lo, e perguntei se podia fazer um depósito em conta. Ele se preocupou com a situação, e até me ofereceu dinheiro. Quase não acreditei na generosidade e confiança dele. Perplexa, agradeci. E depois comemorei com meu filho a sorte de convivermos com o Ricardo. Sem as feiras, as cidades são frias e sem graça. Sem amore, é quase impossível ter esperança.

Desejo toda a sorte do mundo para o Ricardo, e para todas as pessoas que ele ama. Muito amore, sempre amore, e frutas também. Quando as estrelas brilham no céu, elas emanam amore. No carinho das crianças, também amore. E quando, na madrugada fria, os feirantes vão chegando com seus produtos cheirosos, e transpiram, montando suas barracas, reviro no meu quarto as angústias que não posso esquecer.

Mesmo que eu nunca consiga me perdoar, sempre serei agradecida por ser amore, e pela feira, onde a alegria e o alimento se misturam; sedimentando o espírito urbano como troca.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

balada do fim do mundo

Por Ana Paula Perissé




acreditaria
que morremos flor
mesmo em solo
fértil?
há desmesura de nada conter
o imenso do que se finda.


morremos mata
morremos lua
mas separados


teu corpo de argila
e tua inexistência
pousam em meu corpo nu
e pesa;
brando, o tempo ainda
escorre nas paredes.


ser terra e dizer novamente
leva o tempo
do acaso
.
(éramos muitos
agora, ninguém)

domingo, 28 de junho de 2020

Amanhecimento

Por Oswaldo Antônio Begiato




Tem dias
em que descubro
a poesia
logo pela manhã,
e minha boca fica com gosto
de flor e orvalho.


Tem dias
em que ela
é que me descobre
logo pela manhã
e me põe totalmente nu
diante de um sol novo.


Nesses dias
sinto orgulho
de minha
insignificância.

sábado, 27 de junho de 2020

Olhai os lírios do campo

Por Meriam Lazaro




O agora é o sem tempo,
Aqui é a eternidade,
Fazer do amor um instrumento
De feliz boa vontade.
Vigiar o pensamento
Pra não cair na maldade,
Cumprir fiel juramento
Dia-a-dia com bondade.
De Jesus o ensinamento,
Sua tão grande verdade:
Este é o melhor momento
Pra viver felicidade.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Amores

Por Mayanna Velame




Já tive algumas paixões: umas avassaladoras, outras mais contidas. Contudo, todas foram vividas no seu modo e tempo. Falar de amor nos instiga. Afinal, como pode alguém, de repente, remexer nosso senso e juízo? A resposta talvez seja, justamente, não termos nada que defina o que sentimos um pelo outro, quando de fato nos apaixonamos. Amar é um rebuliço no estômago. É sentir o suor nas mãos, é gaguejar enquanto se declara, é escolher o presente com minúcia.


Dos meus tropeços amorosos, sempre dancei com esse sentimento tão nobre. Aprendemos algo em cada relacionamento, e deixamos algum tipo de legado. Creio que isso seja, então, o lado mais humanizador daquilo que chamamos de amor. O "A", por exemplo, ensinou-me a gostar de cervejas, vinho, vodca, loucuras, noites levianas regadas a porres. Foi um amor extremamente etílico. Durou pouco, mas o suficiente para, até hoje, eu apreciar uma boa bebida.


Entre idas e vindas, também amei o "B". Aprendi com ele que o amor pode se fazer presente a distância - e que, embora machuque, a saudade é capaz de condimentar uma relação. "B" me ensinou a gostar de forró, a comer rubacão. Fez-me desbravar o sertão e mostrou-me a simplicidade das coisas belas da vida: andar na garupa da moto e sentar à beira de um açude paraibano (enquanto o arrebol diluía-se entre as serras). "B" ofereceu-me uma música chamada Retrovisor e me disse adeus quando saí de Recife. Lembro-me que chegamos a passear pelas margens do Capibaribe, mas a magia daquelas águas não foi suficiente para regar o nosso amor.


Alguns meses atrás, me apaixonei por "C". Através desse amor, conheci o céu e o inferno. "C" não é oito; é oitenta. É um tipo de amor imprevisível e frenético. Hoje comigo, amanhã não se sabe. Uma hora acredito em suas palavras, em outra, penso ser apenas uma fantasia, um delírio sentimental. "C" se entregou pela metade e isso me frustra, pois o amor, em sua essência, precisa ser inteiro para, realmente, ser amor. Mas admito que "C" tem um lado bom: ele cozinha muito bem, apresentou-me o requinte e a sofisticação gastronômica. Aprendi a tomar amarula com café, e a amar sem medo ou convenções sociais. O mais interessante é que "C" ri do meu sotaque chiado, e, na mesma proporção, eu me desdobro com o excesso de seus erres. "C" é minha tempestade e bonança, solidão e coletividade. "C" é minha história de amor inacabada.


O amor é assim. Por isso, eu me jogo, rasgo-me, sofro, esperneio. Alimento a insônia, caio, levanto. Sonho e escrevo poesia nos muros da rua, para alegrar teus dias cinzentos. Posso me apaixonar por "Y", "X" e "W", abraçar o "H" e ser feliz com o "J". Mas creio que o amor sempre causará um engasgo na garganta. É inevitável. Amor é foguete, movimento, dinâmica. Ele requer doses diárias de coragem e protagonismo. Educado como é, o amor sabe se comportar. Entende sobre ser e estar, percebendo o momento certo de partir - mesmo que, para isso, seja necessário sangrar (em nome da liberdade de quem se ama).