quinta-feira, 19 de julho de 2018

Não

Por Nana Yamada




Não olhe pra trás
Não é lá que estamos
Não foi lá que paramos
Não é lá que vamos
Não desacredite de nós
Não desista dos nossos sonhos
Não seja aquilo que não é
Não deixe que nada disso acabe
Não permita que eu te esqueça
Não deixe que o tempo nos apague
Não há mais tempo
Não há outra vez
Não mais sem você...

terça-feira, 17 de julho de 2018

Crônica da cidade

Por Denise Fernandes




Na cidade poluída, respiro as pessoas. Finalmente, o tempo que eu pensava possuir se rebelou em cavalgada. O que tenho são objetos com histórias, memórias com sentimentos, sonhos feitos de aço.

Só agora que envelheci, o sexo é harmonia, lua nova no céu. Antes foi desejo, tensão, procura, encontro.

A metamorfose que me fascinava na infância agora me faz casulo, sorriso e abraço. Sem pressa. O destino é como essa mesa de madeira bem sólida, e as sombras que o sol desenha na parede.

Queria ser forte, mas sou intenção e vertigem, alucinação e corpo pulsante. Sou espera. Navego num mar de dúvidas, onde não há tubarões, só uma baleia com sua família.

No teu pensamento, travo uma batalha infinita onde, me lendo, você me tece. Tem um anjo novo morando ao meu lado, e um pernilongo antigo que gosta do meu quarto. A cidade cresce como pensamento, seus rios contidos choram enquanto a noite cai.

Os técnicos em saúde me dizem que uma mulher morreu de raiva aqui perto. Não foi de ódio. Foi a doença raiva, que invadiu seu ser. O ódio, que não mata, envenena a cidade de saudades.

Tenho vontade de fazer uma fogueira. Dizem que é proibido, mas o que se pode fazer com as vontades, essas bactérias inocentes do poder?

A cidade só tem beleza nos detalhes. No seu todo, é inerte, fim de toda procura, espaço mudo. Você procura um espelho? Fuja da cidade.

A cidade quer abraçar o mundo. Mas o mundo é muito longe. A alvenaria da cidade só invade a terra, essa mãe seca e generosa. E a terra abraça a cidade, humilde projeto na manhã fria.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

comércio

Por Ana Paula Perissé




                                            estou a vender
                                            enigmas
                                            (arde um fósforo)
                                            sussurrados de vento
                                            para apagar
                                            o pôr-do-sol
                                            de perdas
                                            incontáveis.


                                            vendo mistérios
                                            rubros arcanos
                                            ou mesmo
                                            peças avulsas
                                            de encantamentos
                                            recheios de fios
                                            solitários
                                            que nos une
                                            ao tempo
                                            da vida bacante.

domingo, 15 de julho de 2018

Maria Rita

Por Oswaldo Antônio Begiato




E lá no começo da alegria,
Dengosa, aparecia Maria:
 A Rita que se ria toda e se ia
Do começo da poesia
Até o fim da ousadia
Quando amanhecia,
Quando era meio dia,
Quando entardecia.


Só não se ria toda Maria,
 A Rita de todas as horas do dia 
Quando anoitecia.


Quando inesperada, anoitecia,
De mãos níveas e dadas
Com a solidão que queria
Maria se transformava
Em borboleta frágil e vivia,
O voo cego da rebeldia,
No colo quente onde ardia
A solidão que lhe queria.


Era feita de casas, de asas
De brasas, de lágrimas rasas.


A solidão a embalava com destinos:
 Parecia Maria, a outra, sem desatinos,
Embalando, com maternidade, o Menino
Na manjedoura dos desencontros.


Era tudo o que de bom se via.
Era o sabor agridoce da vida.
Era Maria, a Rita da poesia.
Era a poesia, de Maria Rita.

sábado, 14 de julho de 2018

Palavra de honra

Por Meriam Lazaro




Eu como palavras
Na sopa, na escola,
Jogo os nove fora,
Não quero contar.
Mas se a professora
Do mundo doutora,
Quiser me ensinar
Eu fico na fila
De manhã à tarde
Pelo bê-á-bá.
Na minha escola
Quem aprende ensina,
Faz verso, faz rima,
Logo vai embora...
Pra não reprovar
Eu como até mosca,
Quando aberta a boca,
Só pra merendar.
Peço coca-cola,
Q-suco já era,
Mesmo o guaraná...
Só não colo em prova,
Que o colo que eu quero,
Eu vou ser sincero,
É pra aconchegar.
Você amiguinho,
Tão triste e franzino,
Não quer começar?
Quem aprende as letras
Até ao capeta
Pode dominar!
Não importa a idade,
A escolaridade,
O estado civil...
Palavra de honra:
Saber jamais cansa!
Cansa a ignorância
Que cega e domina
Faz povo servil.
Eu digo a você
Que ler e escrever
Traz dignidade,
Novo mundo abre,
Nova chama arde,
Qual farol gentil...

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Visita

Por Mayanna Velame




É anúncio
de visita quando
encontro
teus sapatos recolhidos,
sob o batente da
varanda.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Do meu mundo

Por Nana Yamada




Sempre me lembro
Da maneira que
Me apaixonei por você
Da maneira que
Eu perdi
Total controle
De mim mesma
Foi a coisa mais bela
História mais vivida
Sentimento mais tenso
Olhar mais sincero
Toque mais suave
Voz mais mansa
A maior loucura
Da minha vida
Do meu amor
Do meu ser
Do meu mundo...

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Invalidez

Por Fabio Ramos




uma
rachadura


no copo


se
bater
outra vez


(goodbye café)


adeus
vidro


(...)


ao dividir


em
cacos


juntá-los


é
um
desafio


E QUANDO


cola
vira


Frankenstein


(...)


tempo
de
serviço


garante


(aposentaria)


caso
a viúva


endosse o benefício