domingo, 15 de julho de 2018

Maria Rita

Por Oswaldo Antônio Begiato




E lá no começo da alegria,
Dengosa, aparecia Maria:
 A Rita que se ria toda e se ia
Do começo da poesia
Até o fim da ousadia
Quando amanhecia,
Quando era meio dia,
Quando entardecia.


Só não se ria toda Maria,
 A Rita de todas as horas do dia 
Quando anoitecia.


Quando inesperada, anoitecia,
De mãos níveas e dadas
Com a solidão que queria
Maria se transformava
Em borboleta frágil e vivia,
O voo cego da rebeldia,
No colo quente onde ardia
A solidão que lhe queria.


Era feita de casas, de asas
De brasas, de lágrimas rasas.


A solidão a embalava com destinos:
 Parecia Maria, a outra, sem desatinos,
Embalando, com maternidade, o Menino
Na manjedoura dos desencontros.


Era tudo o que de bom se via.
Era o sabor agridoce da vida.
Era Maria, a Rita da poesia.
Era a poesia, de Maria Rita.

sábado, 14 de julho de 2018

Palavra de honra

Por Meriam Lazaro




Eu como palavras
Na sopa, na escola,
Jogo os nove fora,
Não quero contar.
Mas se a professora
Do mundo doutora,
Quiser me ensinar
Eu fico na fila
De manhã à tarde
Pelo bê-á-bá.
Na minha escola
Quem aprende ensina,
Faz verso, faz rima,
Logo vai embora...
Pra não reprovar
Eu como até mosca,
Quando aberta a boca,
Só pra merendar.
Peço coca-cola,
Q-suco já era,
Mesmo o guaraná...
Só não colo em prova,
Que o colo que eu quero,
Eu vou ser sincero,
É pra aconchegar.
Você amiguinho,
Tão triste e franzino,
Não quer começar?
Quem aprende as letras
Até ao capeta
Pode dominar!
Não importa a idade,
A escolaridade,
O estado civil...
Palavra de honra:
Saber jamais cansa!
Cansa a ignorância
Que cega e domina
Faz povo servil.
Eu digo a você
Que ler e escrever
Traz dignidade,
Novo mundo abre,
Nova chama arde,
Qual farol gentil...

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Visita

Por Mayanna Velame




É anúncio
de visita quando
encontro
teus sapatos recolhidos,
sob o batente da
varanda.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Do meu mundo

Por Nana Yamada




Sempre me lembro
Da maneira que
Me apaixonei por você
Da maneira que
Eu perdi
Total controle
De mim mesma
Foi a coisa mais bela
História mais vivida
Sentimento mais tenso
Olhar mais sincero
Toque mais suave
Voz mais mansa
A maior loucura
Da minha vida
Do meu amor
Do meu ser
Do meu mundo...

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Invalidez

Por Fabio Ramos




uma
rachadura


no copo


se
bater
outra vez


(goodbye café)


adeus
vidro


(...)


ao dividir


em
cacos


juntá-los


é
um
desafio


E QUANDO


cola
vira


Frankenstein


(...)


tempo
de
serviço


garante


(aposentaria)


caso
a viúva


endosse o benefício

terça-feira, 10 de julho de 2018

Não é chique falar de Jesus Cristo

Por Maurício Perez*




No jantar, percebi que todos tinham nível superior completo. Não demorou até alguém comentar que estava fazendo uma pós graduação sobre Deleuze. Um pouco depois a conversa enveredou para Heidegger e terminou com a trilogia de Nova Iorque de Paul Auster.


Fiquei pensando o que aconteceria se alguém falasse de Jesus Cristo... Claro, poderia abordar em uma perspectiva da sociologia das religiões. Algo como "O mito histórico de Jesus Cristo na perspectiva bultmaniana". Nesse caso não teria problema e ficaria até elegante. Também poderia ser citado a partir de alguma adaptação moderna e transgressora do evangelho, na linha do evangelho segundo Gore Vidal.


Mas falar do Jesus de Nazaré, em uma leitura simples do evangelho segundo São Mateus seria uma cafonice sem tamanho. Imperdoável. Não fica bem entre pessoas instruídas. Constrangedor.


E fiquei um bom tempo pensando nisso. Por que não é chique falar de Jesus Cristo?


Primeiramente, porque há muita frivolidade intelectual por aí. Especialmente em jantares e vernissages. Dizer nomes de pensadores em alemão é chique. Schopenhauer soa melhor que Barnabé, por exemplo. Falar complicado parece sinal de inteligência, saber e conhecimento, porém não passa de cortina de fumaça ou incapacidade de escrever em bom português. Outro exemplo dessa frivolidade é citar frases de pensadores sem nunca ter lido um livro completo deles e sem possuir um saber estruturado. Mas o melhor  ou o pior  da frivolidade é criar modas intelectuais. Nos anos 40 Sartre era vanguarda; nos anos 60 Marcuse era um must; já Heidegger e Nietzsche são como um vestido preto, um clássico para quem não quer errar. Moda para buscar a verdade? Aonde chegamos.


Jesus Cristo está ligado à religião. Ora, enquanto tendemos a pensar que tudo que alguém diz em nome da ciência é verdade comprovada, tendemos a pensar que quase tudo que se diz em nome da religião é falso, duvidoso ou subjetivo. Acolher a ciência faz parte da construção da imagem de uma pessoa adulta, independente e esclarecida. Em contrapartida, a religião está ligada à imagem de uma pessoa que não se libertou de uma infância crédula, de alguém que ainda está no passado das superstições.


Esse estereótipo continua forte em colégios e universidades onde habitam professores que parecem ter por missão pessoal criticar as religiões. Isso para não falar das revistas. Uma rápida pesquisa na cultuada e querida revista Superinteressante e constato que o cristianismo (desse tal Jesus Cristo) sempre sai muito mal nas reportagens. Os pobres estudantes ficam como bebês indefesos. Sem conhecimento sério sobre as religiões pensam que as epístolas são as irmãs dos apóstolos  não são páreos para uma crítica tão feroz vindo de quem tem autoridade. São presas fáceis. Por isso é notícia, isto é, causa espanto, que alguém como Francis Collins, diretor do Projeto Genoma Humano, acredite que Jesus Cristo ressuscitou ao terceiro dia.


É engraçado constatar como mesmo na física há tanta charlatanice e teorias tratadas como certezas. Afinal, por trás da física, há físicos, ou seja, seres humanos e suas vaidades. O que não falar das ciências sociais que publicam artigos vagabundos com ideologias mais falsas que uma nota de três dólares acolhidas pela imprensa e pelo grande público como conquistas da humanidade. Pior: são transformadas em políticas públicas.


Como a religião não tem boa reputação entre intelectuais, sobra separar Jesus Cristo da religião. A história que se conta é que as religiões adulteraram e mudaram o Jesus histórico. Apesar de ser uma tese que não se sustenta historicamente, ela é bem elegante e continua colando bem por aí.


Aparece então o líder revolucionário (esse é para os marxistas, mas está meio démodé); o homem especial, bom "pra caramba", muito "irado" (para os rapazes e meninas "do bem"); o sujeito do "amai-vos uns aos outros" (qualquer sentimental adora isso); o mestre da humanidade (para o pessoal das ongs). Claro que nenhum deles leu a sério os evangelhos, nem os estudou. Já ouvi um sujeito dizer: "Como disse Jesus: Fazei, mas arcai com as consequências" (deve ser uma passagem do evangelho segundo Tim Maia de Porre). Desculpe o sarcasmo, mas não é possível desenvolver nada sem um estudo sério. Estamos cheios de opiniões baseadas em duas ou três ideias que repetem por aí.


Finalmente, como diz o ditado, a grama do vizinho é mais verde. Pensando que conhece o cristianismo e que este não tem nada a dizer ao homem moderno, o ocidental foi buscar no oriente inspiração para viver. Pega bem falar de Buda ou Confúcio, fazer meditação transcendental, passar uma temporada com monges budistas ou acender um incenso. Mas seria imperdoável e cafona, rezar, ir a um culto cristão ou acender uma vela.


A minha tese é que Jesus Cristo pode ser citado em um jantar com pessoas instruídas porque tem mais conteúdo do que Deleuze, Saramago ou Hegel. Precisamos tirar a casquinha da grife de intelectual e assumir uma conversa em bases sólidas sobre temas que dizem respeito a nossa vida, a nossa morte e a nossa sede de plenitude.

*É autor do blog Correio Chegou.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

inatual

Por Ana Paula Perissé




                                    diante daquele tapete de sisal
                                    pálido
                                    as notas aparecem
                                    como naus
                                    apartadas,
                                    todas
                                    e são quase dois
                                    quando o por do sol
                                    se expõe em nuances
                                    róseas
                                    fulguroso
                                    alcançando pupilas que acreditam
                                    em deuses


                                    sim, talvez eles saibam
                                    não há muitas
                                    estrelas
                                    no céu desta noite
                                    uma lua aluarada
                                    por nuvens
                                    de poeira bastarda
                                    sim, eles também sabem
                                    que a passagem das estações
                                    clamam por silêncios
                                    daqueles que
                                    ignoram
                                    sua solidão particular
                                    tão ausente de
                                    brilho
                                    ou de fulgores
                                    existências tão comuns.


                                    pois eu brinco com árvores
                                    e me falta 1` ipê
                                    de floração esmaecida¨


                                    ¨minha visão já não enxerga
                                    a história anterior
                                    do quase dois,
                                    do menos um
                                    numa álgebra inexistencial
                                    de pequenos sinais
                                    ininterruptos
                                    inatual.


                                    (sempre)

domingo, 8 de julho de 2018

Estiagem

Por Oswaldo Antônio Begiato


Imagem: Adriano Santori


Dói no velho olhar
Uma frágua  a falta d'água.
Sertão vira mar.