sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Cutículas

Por Mayanna Velame




Mordiscava as cutículas dos dedos da mão.
O gosto de sangue lhe agradava.
Seus últimos discursos amorosos seriam escritos
em tons ruborizados.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Mundo desconhecido

Por Nana Yamada




Cada dia vejo menos as pessoas falarem sobre o amor.
Menos respeito, menos educação, menos companherismo.
Ainda cobram algo que não possuem em seu interior.
Esse perfume amargo se espalhou,
Todos estão cegos de tanto orgulho.
Cada dia que passa, sinto mais necessidade
De estar perto da luz e da natureza.
Algo que é eternamente eterno, a pura verdade
Das mínimas coisas que necessitamos.
Vejo o ódio e a mágoa dominar o coração dos fracos.
Assim, continuo vivendo em um mundo desconhecido...
Todos nós somos passageiros nessa terra e, enquanto estiver por aqui,
Continuarei nessa luta da aprendizagem.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Problema na raiz

Por Fabio Ramos




teu nome


ela
deu


para um


cão
de


estimação


(...)


ao
ser


canino


um
filé


(restando)


os
ossos


naquela vasilha


se
tu
quiser


(...)


a
ele


o amor


que
não


recebeu


de
mulher


ALGUMA ATÉ HOJE


(...)


com tanta
inveja
do


animal


na
praça


(trazido de volta)


ao
lar


nos braços


da
irmã


MAIS BONITA

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Pandemia da primavera

Por Denise Fernandes




A morte de todas as expectativas; construindo um muro onde havia o que eu chamava de solidão. Um bálsamo novo surge, espaço de voo. O sabiá vem tomar banho na água da cachorra. A cachorra velha, cheia de catarata, olha tudo com os ouvidos. De repente, me lembro: um dia de cada vez. Estou tentando ficar bem, equilibrada. O sol que havia ainda há.

Um fantasma invade a tarde e me diz: "Só há paz depois da morte". Penso que o fantasma deve ter razão. Fico atônita. O que buscar, então?

Sim, buscar a primavera. Sêneca recém-lido. O tempo é a matéria mais preciosa da vida. Outro dia, surgiu um sagui aqui em casa. Mutilado, heróico. Com três patas apenas, ele vive loucamente na cidade. Sinto uma admiração profunda pelo animal.

A primavera também é essa luta que explode em pequenas flores, formando cachos. E o vento frio, da noite em São Paulo, me dá um prazer enorme de estar em casa; me protegendo de vírus, perdas, tentativas. Até o pôr-do-sol, me entenderei mais. E mesmo que seja pouco o amor dividido, elaborado, tecido com a seiva de tantas lágrimas, ainda será importante. O tempo que passei esperando ônibus me ajudou a entender que, inclusive, eu nunca chegaria a lugar nenhum.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

há fogo.

Por Ana Paula Perissé




há intensidade
em víscera
mas tanta
que se me calo
sinto-me
em honraria
esparsa


(sussurro
            verborrágico
                      corpo )


e nas imensidões
de se querer pigmento' palavra
fica um espaço
prenhe de branco
de esboço
por hora.


tal como 1´vertigem
crua
de se fazer
aguadas
          incendiárias
                          em telas
incandescentes chassis
do agora;


anatomias em 2.
esfumaçadas num
atelier em mancha.

domingo, 18 de outubro de 2020

Pensamento

Por Oswaldo Antônio Begiato




olhando teu corpo nu
fiquei pensando com meus botões:


quantas entranhas,
quantas entradas,
quantas entrelinhas,
quantos entraves,
quantas gavetas,
quantas vidraças,
quantos cômodos,
quantas chaves,
quantas curvas,
quantas medidas,
quantos desejos,
quantas senhas,
quantos mistérios...


meu Deus! quantos perigos, meu Deus!

sábado, 17 de outubro de 2020

Sonho menor

Por Meriam Lazaro




Como é bom sonhar,
traduzir a lua.
Doce versejar
dessa vida boa.


Como é bom sonhar
nesta rima crua.
Cedo acordar
e sair à rua.


Como é bom sonhar,
ter a alma nua
para rebrilhar,
reflorir à toa.


Como é bom sonhar
ser a rosa tua,
gêmea a bailar
canção de ternura.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Professores do Brasil

Por Mayanna Velame




Costumo dizer que os professores pincelam nossas vidas com tinta de esperança, apagam as rasuras da desigualdade e escrevem o futuro em parágrafos de amor e dedicação. É por isso que esse texto é escrito com letras alegres e saltitantes... Vamos lá!


Os professores de Língua Portuguesa são clássicos, eloquentes e poéticos. Rodeados de interrogações, vírgulas, acentos. Vivem em concordância com a norma padrão da língua - e em consonância com a Linguística. Eles amam um rapaz chamado dicionário. Já os professores de Matemática são calculistas! Eles veneram uma donzela chamada Hipotenusa.


Stop, please! Também não podemos esquecer dos professores de Língua Inglesa. Durante as aulas, eles adoram colocar a língua entre os dentes; só para mostrar que sabem pronunciar o "TH". Repeat again, everybody...


Mas há também os professores de Geografia. Eles são bem espaçosos e apaixonados pela Terra. Quer agradar seu mestre? Presentei-o com um globo terrestre e sua nota dez estará garantida. E o que dizer dos professores de História? Esses são politizados e prezam um bom debate. Viva a revolução!


Quanto aos professores de Química... Ah, esses sempre se apaixonam por um rapaz chamado átomo. Faça o quadro da Tabela Periódica. Ela é a queridinha dos docentes de Química. Ei, ainda faltam os professores de Ciências! Estes são centrados e loucos. E até levam para a sala de aula seu "brinquedinho" preferido: o microscópio.


Enquanto isso, os mestres de Física fazem o tempo e o espaço voarem com a velocidade. Deus no céu, Einsten na terra. Tudo é relativo, né? Não podemos ficar sem ir à quadra de esportes. Os professores de Educação Física estão lá, esbeltos e delgados, com um apito dependurado no pescoço: 1, 2, 3, 4...


E para finalizar, temos o professor de Artes (que aparece munido de ideias malucas e coloridas). Ele vai fazer com que você nunca se esqueça de um quadro intitulado "Abaporu".


Se esse texto não citou todas as disciplinas é por que, no final, elas têm o mesmo intuito: mostrar que o ensino vai muito além das quatro paredes da escola. Só compartilha o conhecimento quem o ama verdadeiramente - e enxerga nele uma possibilidade de transformar nossas vidas.