quarta-feira, 25 de abril de 2018

X, Y e U

Por Fabio Ramos




o indicador
de
Arnesto


no cimento fresco


produziu
um
X


na calçada de
Iracema


(...)


as
patas
do pombo


no pavimento fresco


criaram
uma
espécie de
Y


com um risco
no meio


(...)


a
ferradura
do
quadrúpede


galopando na via recapeada


gravou a
letra
U


(rente)


ao
ponto final

terça-feira, 24 de abril de 2018

Berço de ferro

Por Denise Fernandes




Na baixada do Glicério, na cidade de São Paulo, inúmeros moradores de rua ocupam as áreas públicas e a região debaixo dos viadutos. Muitas pessoas evitam passar ali, mesmo de carro. Porque sentem medo, porque não querem ver. "Medo do quê?", perguntei para uma medrosa. "Tenho medo do que eles possam fazer".

As pessoas na rua estão geralmente ocupadas. Tendas formadas com roupas, cobertores, madeiras e pedaços de móveis requerem manutenção constante. Fecha daqui, estica dali. O chão duro, coberto de papelão, serve de colchão.

Converso com um desabrigado. Ele me diz que Jesus está com os pobres. Claro que sim, concordo. Jesus sempre fica muito ocupado com tantos pobres. Mas é estranho. Uma imensa igreja evangélica bem ao lado, com um teto mais quentinho, fechada, que só abre para os cultos. Fosse eu a revolucionária que sonhei ser, abriria essa igreja para os desalojados.

Me preocupo com eles quando chove. As tendas molhadas, os papelões encharcados. Depois da chuva, dá muito trabalho secar tudo e ajeitar. Flagro um almoço coletivo de frango, feito num fogareiro. Um varal repleto de roupas estendido na calçada. Mais adiante, uma imagem surreal: um homem dorme num carrinho de supermercado. Ele dorme de tênis. E dorme gostoso, o sono dos justos, no seu berço de ferro.

Volto para o meu refúgio de tijolos, protegida da chuva, do medo e do frio. Penso na mulher que está grávida, morando na rua. Como ela dará banho e cuidará do pequeno bebê que já vem? Trafegam carros de muitos mil reais em nossas vias, de muitas preocupações sem sentido.

Cada dia que passo na baixada do Glicério, tem uma tenda nova. Outra fenda na rua que também é terra-mãe. Sinto aumentar a minha admiração por essas pessoas que fazem ninho na calçada.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

de sonhar quases

Por Ana Paula Perissé




                      singeleza afásica_____
                      não importa estar só
                      ou morrer de sonhar quases´


                      da inapropriável dor
                      de sentir-se nômade
                      do incômodo de dobrar-se até o exílio:
                      sobras, ainda restam frestas de céu quase macio
                      d´algum olhar que distende travessia que é só flor.


                      irradia ou descerra veredas áridas
                      em taças cálidas, aquele útero desfolhante de fluidos
                      quase férteis.


                      queda que te acolhe, ninho. Sim, faltam colos,
                      carne quentinha para dores caladas
                      falta o quase que visita a noite
                      de cada um
                      .
                      .
                      partido de casa
                      parido sem pouso
                      vivo.

domingo, 22 de abril de 2018

Lendas perdidas

Por Oswaldo Antônio Begiato




É a saudade áspera de mim mesmo
O buraco negro por onde me entranho
Nas profundezas de meu espírito revel
E reviro, aflito, minhas gavetas internas
À busca das lendas que faziam, do mundo,
Meu mundo azul e coberto de quimeras.


Não me lembro mais onde elas estão;
Eu, temeroso, as guardei bem guardadas
Quando era ingênuo escutador de estórias.

sábado, 21 de abril de 2018

Tigresa

Por Meriam Lazaro




A teus pés eu sou ternura,
tenho a maciez da lã,
com a sensual textura
e a delícia da romã!
Outras vezes sou loucura,
passo em falso, amanhã...
Na mistura de incertezas
sou teu tapete e tigresa.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Estrela cadente

Por Mayanna Velame




Não é um míssil
Que traceja o céu assombrado...
É uma estrela cadente!
Pronta para atender
Ao pedido de alguém.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Minhas noites sem você

Por Nana Yamada




Vejo a lua brilhar
Pergunto-me se a vês
Estará a iluminar seus olhos?
Os mesmos que me fazem sorrir?


Vejo as horas passarem
Pergunto-me se está na nossa hora
Dos encontros casuais
E das noites que passamos juntos sem perceber


Vejo-te em meus pensamentos
Pergunto-me se estou nos seus
Será, então, que era para ser assim?
Será, então, que é para ser assim?


Minhas noites sem você
Como aproveitar o resto do tempo?
Como sonhar sem o seu "boa noite"?
Daquela noite que não acaba…

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Antigamente

Por Fabio Ramos




o mundo era


preto
e branco


na
fotografia


e
no


cinema


(...)


pois
ele não


titubeia ao recordar:


os olhos
de
Bianca


já eram verdes


(...)


sua pele
era


ALVA


e sua boca
era
vermelha


(...)


esse leso


(ruborizava) quando
ganhava


um
beijo
NA NUCA


(...)


ela
ria


disso


no
passado


(e continua rindo)


hoje
50 anos depois