terça-feira, 30 de abril de 2019

53

Por Denise Fernandes




cinquenta e três anos atrás

nasci com fome de viver

o bom, o diferente

o brilho das manhãs

o que está oculto em cada dia

a estranha felicidade

do que é mais simples

a magia da poesia

o poder da palavra

segunda-feira, 29 de abril de 2019

alhures

Por Ana Paula Perissé




                                  a voz amarga dos violinos
                                  embala o segredo
                                  que te inquieta a vigília
                                  e mesmo a paixão
                                  mais explícita
                                  não te alcançará
                                  em alma recolhida
                                  e nem mesmo os beijos
                                  em lábios fundidos
                                  anos de amor´ volúpias de alcova


                                  aos que desejam a chave do silêncio
                                  loucos se fazem
                                  pois coração que não vibra
                                  em compassos alhures
                                  morre sem alarde
                                  em sombra fronteiriça.

domingo, 28 de abril de 2019

Ateliê

Por Oswaldo Antônio Begiato




Toda poesia é igualmente
nua.


Os poetas é que a vestem
com trajes diferentes.


Às vezes com alta costura,
outras com vestido de chita.


Uns a cobrem com fantasia
outros com paramentos.


Já vi poesia desfilando pela passarela
com roupas transparentes.


Mas há poetas delicados
que as deixam nua;
esses são os que têm os olhos mais puros.

sábado, 27 de abril de 2019

Banalidade

Por Meriam Lazaro




Meu umbigo gira mundo,
Dá a volta e volta igual
Tão da física, profundo,
E eu em volta do tal.


Foi meu contato primeiro,
Primeiro corte abissal,
Tesoura nova, parteira,
Cravada no bananal.


Se me calo ou fico mudo,
Uso enfeite absurdo,
Palavra, pra ficar mal.


Seja de qualquer maneira,
Abandoná-lo é besteira.
Qualquer saída é banal.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Grãos de areia

Por Mayanna Velame




Abro a janela da sala. Há uma chuva fina e tímida lá fora, caindo sobre a cidade cinza. Muretas cercam o jardim de poucas flores. A terra é tentação para o meu tato. Queria poder tocá-la, senti-la, perceber o solo encharcado; entregue à força da água. Prevejo apenas seres microscópicos que ali devem habitar. São minúsculos, descurados por todos. No entanto, eles vivem  e, de alguma forma, contribuem com algo.


Quanto a mim, abstenho-me de saber. Sou meramente conduzida pelo absurdo da existência (nesse mundo que contrapõe obras ínfimas e colossais). Nas miudezas da vida, podemos encontrar a essência do ser.


Isso é determinado pela forma como abraçamos aquilo que nos convêm. Não sou macro nem micro, mas os entes menores também executam funções. E nós, com tantos erros e desatinos, aceleramos nossos passos. Admirada, eu me pergunto: para quê?


Lá fora, a chuva continua. O solo absorve gotículas d'água  bem como, outrora, já absorveu os raios de sol. Hoje, terra fresca. Ontem, terra bruta e seca. Da aridez, vejo brotar amores. Dizem que um dia voltaremos ao pó. De fato, os vermes ainda experimentarão o sabor da nossa carne.


Nos resta muito pouco. A dimensão terrena se entrelaça nisso: gigantes agora, pequenos amanhã. A matéria nos acolhe. O mesmo chão que tu pisas é onde repousarás na eternidade.


Sangramos diariamente e insistimos em permanecer vivos. Terra é vida, força e lugar. Enquanto o final não chega, buscamos a melhor colheita. A ilusão a tudo permeia. Adubo meu descontentamento, disseminando grãos de areia no universo.


Em cada fôlego, nós regeneramos (como partículas, átomos e células). Do menor, fazemos o maior. E nessa composição, com grandes aspirações, o nada amplia seu significado.


A janela da sala não está fechada. Pingos de chuva batizam essa crônica. De uma letra para uma sílaba, as palavras se formam. São mestras imponentes, que brotam em vidas aflitas. Afinal, como disse Cora Coralina, "coração é terra que ninguém vê".

quinta-feira, 25 de abril de 2019

A linha do pensar

Por Nana Yamada




Você traduz cada linha do meu pensar
Me decifra de olhos fechados
Mal posso dizer-te não
Quando realmente sabe o que é
Enquanto tento me descobrir
Você me acertou…

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Fabulando

Por Fabio Ramos




(quem desce)


a
ladeira


em câmera lenta?


(...)


o nome
do


moço é CAIO


de
cabeça


(no abismo sem fundo)


(...)


quem
pediu


uma ambulância?


(...)


e quem
não
apertou


o
PAUSE


do controle remoto?


(...)


rolou
até
aposta:


(em quantos pedaços)


ele vai
se


quebrar?


(...)


C
A
I
O
acorda
num leito de hospital


e pensa
na
vida:


(o que ele)


FAZ
ALI


e não no cemitério?


(...)


moral
da
história:


de
hoje


(em diante)


lhe
chamem


de AUGUSTO ou OLAVO

terça-feira, 23 de abril de 2019

Eterno

Por Denise Fernandes




procurar a fonte

mesmo sabendo

que não é eterno



procurar a semente

ainda que o fruto

não é eterno



procurar esquecer

mesmo sabendo

que é eterno



essa passagem,

um abismo,

essa vertigem.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

presença

Por Ana Paula Perissé




                                    há algo vago
                                    tão ausente,
                                    tão demasiado presente
                                    que preenche em nome
                                    de 1´ falta


                                    tormenta.


                                    inominável
                                    (alcunha bendita)


                                    sem pistas
                                    busco no mato, em terra
                                    ou no canteiro de figos verdes
                                    de qualquer infância.


                                    o que me falta
                                    darias pra mim?


                                    o que não te assombras
                                    darias pra mim?


                                    ( apenas um rastro azul de veias
                                    em derme branca.)
                                    .
                                    .
                                    .
                                    presença

domingo, 21 de abril de 2019

sábado, 20 de abril de 2019

Sem saída

Por Meriam Lazaro




Gira o mundo
Roda viva
Giro eterno
Sem medida
Sopra o vento
No moinho
Pensamento
Nó de espinho
Fere a rosa
Procissão
Enganosa
Vinho e pão
Gira o tempo
Despedida
Sentimento
Sem saída

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Feriado

Por Mayanna Velame




Traje de banho
sobre a cama.
O Sol malcriado
decide não despertar.
O feriado assim se prolonga...
Com chuva à vista
e decepção a longo prazo.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Palavras perdidas

Por Nana Yamada




São tantas poesias perdidas
No meio de tantas outras que ficaram
Algumas sem serem concluídas
Outras por falta de inspiração,
Muitas escritas espalhadas
Ficaram em lugares
Sem serem lembradas
Teve as que foram parar
Nas mãos de outras pessoas
Sem saber qual o destino
Foram palavras perdidas
Nas folhas carregadas
De sentimentos mais puros
Que eu poderia, então,
Ter sentido…

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Dobrar a esquina

Por Fabio Ramos




talvez


se
queira


(calçar o pé)


de
feijão


(...)


somar
os
cálculos renais


(...)


PEDIR


a
mão


dessa donzela


aos
pais
dela


(DE-CE-PA-DA)


(...)


e
então


(beber a água-viva)


antes
da


morte morrida


ou
da


ÁGUA-FURTADA

terça-feira, 16 de abril de 2019

Café

Por Denise Fernandes




lavar as roupas

coar o café

em tudo um pouco de fé



enquanto,

como disse a velha senhora,

"Cada um no seu canto,

chora seu pranto".



vai o dia

vem a noite

como um peixe

que me escapa das mãos



só coar o café

me refaz

no vinho do Islã,

a fé.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

lacrima

Por Ana Paula Perissé


Imagem: Salvador Dalí


                                        Lacrima
                                        Suspiro
                                        Olhar no oceano.


                                        Brisa
                                        Venta
                                        Vastidão nossa.


                                        Ilhas
                                        Gérmen
                                        Imensidão a dois


                                        (ao mundo)


                                        Sonhos
                                        Cerrados
                                        Álea para passagem


                                        (nossa, nocturnal us)


                                        Pele intocada na minha
                                        Alma entranhada em duo.


                                        (falésia interrompida)

domingo, 14 de abril de 2019

Eu

Por Oswaldo Antônio Begiato




Tenho vícios redibitórios.
Nem tente me comprar,
Vai precisar devolver.


Meu coração é muito medroso.
O que minha alma tem de coragem
Meu coração tem de covardia.


Ah, se eu pudesse dividir os vícios que tenho!
Mas estou velho demais para divisões.


Melhor procurar outra mercadoria.

sábado, 13 de abril de 2019

Contradição

Por Meriam Lazaro




Que sentimento é este
que do futuro roubado
atropela o presente
com mágoa pra todo lado?
Faz sofrer réu e inocente,
contravenção e brocardo,
dor que é infinitamente
nostalgia sem passado.
Num dia está dormente,
no outro estimulado,
ouve a voz que impunemente
faz viajar ao passado.
Contradição desta gente
de sonho desajustado...
Querer a paz e de repente
ter o sangue derramado.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

A bailarina

Por Mayanna Velame




(Para Mayara)


Dos passos
de uma bailarina,
ela aprendeu
que a delicadeza
é um princípio de força.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

E assim

Por Nana Yamada




Mal sei de onde vem
Mas não me importo com isso
Muitos não entenderão
O quanto me fez perceber
Que as coisas podem ser
Realmente mais simples
Tudo que vem me dizendo
Só está me ensinando
Tudo aquilo que eu
Já tinha desacreditado
Você apareceu mais rápido
Que meus pensamentos
Já era tão tarde quando
Parei para analisar
Tudo aquilo
Que já tinha acontecido
Você passou por mim
E assim ficou…

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Falsa demente

Por Fabio Ramos




na dúvida
entre


soltar os bichos


por
soltar


(ou esquecer de vez)


a escolha
Selma
fez


(...)


da
razão


EXTRAPOLA


se
não
recebe


(compreensão)


(...)


é
sua
vontade


nenhum sentido fazer


dar
um
RUGIDO


(quando vieres reclamar)


(...)


sim
HAVERÁ


os
que
DIRÃO:


(LÁ VAI A LOUCA)


(...)


e
ela
NEM AÍ


para
quem


(LHE APONTAR)

terça-feira, 9 de abril de 2019

Chuva

Por Denise Fernandes




lágrima de chuva

sobre o medo da cidade

saudade

a lareira acesa

a mesa posta

canjica pé-de-moleque

tempo em que nossa mãe

era simples



a política destruiu a todos

sem nome

velamos a nós mesmos

de outros tempos.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Michelle e Manoel

Por Ana Paula Perissé




                                    Michelle e Manoel
                                    sussurram juntos
                                    um segredo
                                    de ser
                                    já quase inaudível
                                    em tempos de flores de aço
                                    amanhecer sem chave


                                    Michelle e Manoel
                                    falam de Bernardo
                                    com a simplicidade
                                    de serem livres


                                    como que ao lançar um estilingue
                                    uma pedra de sonho
                                    se revela
                                    pequeninho
                                    mas ali...
                                    no chão árido
                                    incompleto
                                    de sermos nós.


                                    Manoel, Michelle e Bernardo...