domingo, 26 de maio de 2019

Santidade

Por Oswaldo Antônio Begiato




Quando as palavras
não me alcançam
o silêncio me asila
com sua profundidade inimaginável.


Dentro do silêncio
encontro caminhos
que não palmilho com pés calçados,
mas com desadornos;
eles me levam à sabedoria.


É um silêncio santo.
Santo silêncio que me faz ajoelhar!

sábado, 25 de maio de 2019

Trilhos

Por Meriam Lazaro




Sobre o trilho, que vai e vem,
caldeira, memória vencida...
Maquinista dá o solavanco
d’aurora da m’a vida.
Hu... hu... hu... apita o trem!
Desperta casas e beirais,
sobe fumaça em círculos,
choram Marias e sobrais.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Sem percebermos

Por Nana Yamada




Todas as noites
Me sinto mais próxima de você
A cada dia
Você faz parte do meu dia
Todas as manhãs penso na noite anterior
Das nossas conversas casuais
De algo que alimentamos
Sem saber exatamente o quê
Sinto-me tão livre
A teu lado
E, ao mesmo tempo, encontro-me
Tão presa nos seus braços
Que não consigo sentir
Tudo tão distante
Mesmo estando em mim
Você faz parte daquilo
Que estou a viver
Daquilo que brotou
Sem percebermos…

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Banho bom

Por Fabio Ramos




entrou
em


GREVE


de
banho


por
tempo
indeterminado


(...)


não
quis


ver sabonete


na
sua
frente


(e nem perfume)


um
anti
caspa


ou desodorante


(...)


entrou
na


guerra


se
coçando


e
aos
poucos


FOI PIORANDO


(...)


para
enfrentar


(a indústria da higiene)


que
deixa


todo mundo limpo


e
ainda
fatura zilhões


(...)


"QUE
ABSURDO!


VAMU
PESSOAL:


É A SUJEIRA CONTRA O CAPITAL!"


(...)


os
camaradas
na
plateia


entraram em votação


e
deram
cabo da resolução:


(segura)


o
tchan


(amarra o tchan)


no
paredão
do


LAVA RÁPIDO


e
aí é
tchan tchan tchan tchan tchan
no encardido

terça-feira, 21 de maio de 2019

Sonhos e pesadelos

Por Denise Fernandes




É incrível que uma parte da humanidade nunca lembre de seus sonhos dormindo. Eles não precisam lidar com essa outra realidade que os sonhos nos trazem.

Sempre sonhei muito, desde criança. Lembro-me de ter sonhos bons  e pesadelos também. Lembro de, na minha infância, ficar preocupada que meus pais soubessem o que eu sonhava dormindo.

A consciência de quem lembra de sonhos e pesadelos é atormentada com essa gama de sentimentos e pensamentos vividos enquanto dormem. Meus filhos também se lembram de sonhos e pesadelos. Entre nós, temos diálogos sobre sonhos e pesadelos vividos.

Lembro como achávamos divertido ver nossa cachorra "sonhando". Tentávamos adivinhar o que ela sonhava quando chorava dormindo.

Meus pesadelos e sonhos já me perturbaram muito. Quando entrei no curso de Psicologia, achei que encontraria respostas para o mundo dos sonhos. Foi desapontador perceber que tanto o curso de Psicologia, como o trabalho psicanalítico, não oferecem respostas suficientes para todas as perguntas que o mundo dos sonhos traz.

Embora Freud e Jung tenham visões diferentes sobre os sonhos, os dois parecem ter razão. Freud vê o sonho como realização do desejo. Jung o percebe como um mecanismo de equilíbrio psíquico para o sonhador.

Algumas metáforas que os sonhos produzem nos deixam perplexos. Há um tempo sonhei que o mar estava fervendo. Minha angústia, diante da força desse mar fervendo, recordo até hoje. Como interpretar? As interpretações psicológicas parecem reduzir o sonho, simplificando (ou traduzindo) aquilo que não tem tradução.

Li recentemente mais um livro a respeito. É uma obra que aborda a tentativa de induzir sonhos. Mesmo que isso seja possível, fica claro que não temos controle remoto para essa outra realidade.

O livro comenta que os sonhos dormindo são um local onde podemos encontrar pessoas que já morreram, sem sentir medo. Sinto-me consolada tendo sonhos com meu pai que faleceu há pouco tempo, e também com meu irmão. É uma sensação de encontro mesmo, de matar a saudade.

Deve ser difícil para quem não lembra de seus sonhos dormindo entender o que se passa com quem tem essa experiência. Por mais que se explique um sonho, fica faltando sua essência, sua magia, sua espiritualidade.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

poça

Por Ana Paula Perissé




                                                    1´poça
                                                    rubra


                                                    (imensa)


                                                    jorra.


                                                    fosforeça-me,
                                                    sempre
                                                    te peço.


                                                    apenas
                                                    dolce-me.

domingo, 19 de maio de 2019

sábado, 18 de maio de 2019

Devassa

Por Meriam Lazaro




Naquela tarde na cidade veio a devassa.
Naquele porto em alvoroço
Trilhos, passos, trens, navios...
Era tanto passa passa.


Daquela menina, cheia de graça,
O rosto formoso sem nenhum esforço,
Vento cego jogou no rio.
Era hora do peixe, almoço da garça.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Dessa janela

Por Nana Yamada




Dessa janela
Eu vi
Dia e noite
Todas as estações
As mesmas rotinas
Os mesmos passos
A lua que estava sempre lá
Me dando inspiração
Para te transformar em poesia
Esperando por sua volta
Contando os segundos para chegar
Dessa janela dupla
Que nunca se fechou
Me trazendo sentimentos
Tão certos e tão incertos
Tão você o tempo todo
Dessa janela
A única graça
Era você
Somente você
Que iluminava ao passar
Por alguns segundos
Tantos minutos
A espera
Bastava olhar
Que tudo já estava…

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Sol entre nuvens

Por Fabio Ramos




o
sol


não deu


as
caras


por enquanto


(...)


o
que
vemos


de
luz


são feixes:


no
AR


no mar


e
na
tua janela


(...)


as
estações


M
U
D
A
M


(...)


de roupa


e
de
bairro


(mudam os mudos)


que
não
vão


congelar tão
cedo


(...)


debaixo


do
teu


(lençol)


e
acima


DESSE COLCHÃO


nada
muda
mesmo

terça-feira, 14 de maio de 2019

Ao escolher emprego, não siga sua paixão

Por Maurício Perez



Há um livro que ainda não chegou no Brasil intitulado "So good they can’t ignore you", de Cal Newport.  Os livros de auto-ajuda padecem de três defeitos graves: reescrevem o passado para bater com sua teoria, vendem soluções fáceis, vendem uma técnica que irá resolver tudo. Não é o caso deste livro e por isso vale a pena falar um pouco dele.


Por que algumas pessoas amam o que fazem e outras não? Uma razão possível é que as últimas caíram na armadilha da paixão. Querem fazer algo que gostam e como o gosto é volúvel e tendemos a nos enjoar do que provamos em excesso, rapidamente caem na frustração. Mudam várias vezes de faculdade, de emprego, de ocupação a procura de algo que as encante.


É preciso primeiro ser bom naquilo que se faz antes de tirar algum gosto do trabalho. Adquirir expertise exige esforço, constância, estudo, relevar estados de ânimo, enfrentar dificuldades, restrições. Pouco a pouco, chega-se a dominar o assunto. Percebe-se a eficácia e os frutos do que fazemos, do serviço que prestamos aos demais e a sociedade. A cozinheira precisa praticar muito para saborear o triunfo da arte culinária. O piloto de excel também.


Claro que se tornar um expert não traz em si a felicidade. Basta pensar nos workaholics. Mas, certamente que um trabalho feliz não reside na paixão. O problema é que nos convenceram desde a mais tenra idade que sentir é tudo. Além disso, as últimas gerações foram criadas com mimos, muitas opções de estudo e carreira e uma expectativa muito alta do mundo do trabalho. Foram inculcadas a pensar que são indivíduos com talentos especiais e que encontrarão um trabalho desafiador e excitante. Foram doutrinadas a pensar que o trabalho  a própria vida  deve ser uma aventura, um espaço para a expressar a identidade e ser reconhecido.  Não é bem assim.


Perguntaram a milhares de universitários canadenses quais eram suas paixões. O resultado da pesquisa apontou as cinco maiores paixões: dançar, hockey no gelo, esquiar, ler e nadar. De fato, essas paixões não tem muito a ver com o mundo do trabalho (com exceção da leitura). E eles pensam que lá fora há um certo emprego para o qual foram feitos, um emprego que encaixa perfeito com seu jeito de ser.  Resultado: há trinta anos o índice de satisfação com o emprego nos EUA vem decaindo. Apenas 45% dos americanos estão satisfeitos com seu emprego atual.


Quando você fica pensando no que o emprego oferece, maior a chance de reparar nos aspectos que não agradam, o que leva a um estado de insatisfação crônica. Isso é especialmente verdadeiro no início da vida profissional, onde as tarefas diárias tendem a ser monótonas e não há bons hábitos consolidados.


Seria melhor inculcar nas pessoas a mentalidade do artesão. Faz seu trabalho um dia e outro; aos poucos aprende e adquire maestria. A paixão se desprende então como fruto maduro. Não comece pela paixão. Termine por ela.

É autor do blog Correio Chegou.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

juventude

Por Ana Paula Perissé




                                        queria imprecisar
                                        teu sorriso
                                        e deslizar-me.
                                        nas bordas de tua


                                        sombra
                                        tempo.


                                        são vagas
                                        tão distantes.
                                        espero-te


                                        só.


                                        sem mais chances
                                        de erro
                                        obliquidades
                                        abruptas,


                                        há pouco e
                                        falta-me
                                        demasiado
                                        nada.


                                        (urgência de brotos
                                        1´semente a perder-se
                                        quase)

domingo, 12 de maio de 2019

Saudades

Por Oswaldo Antônio Begiato




você vinha caminhando tão meiga
tão cheia de veludos
parecendo uma flor
brotando entre pétalas
na aridez das descobertas


tão cheia de cristais
parecendo um arco íris
fazendo curvas
no voo reto do horizonte


eu tinha só cinco anos
e logo aprendi a dizer
 amo você minha pequena namorada


e nunca mais esqueci a leveza de seus passos
temo, porém, que meu coração esqueceu

sábado, 11 de maio de 2019

Escrito a carvão

Por Meriam Lazaro




Quem será essa mulher,
a carvão em meu espelho?
Já não tem os vinte anos
de amor leve e passageiro,
sua face mais elástica
tem a idade do gelo.
Sem papel para a poesia,
divide a moeda ao meio.
Numa face é só Maria,
na outra é mundo inteiro
soluçando na paisagem
hoje em total desmazelo.
Mostra apenas o rascunho
do retrato na gaveta,
quer passar o sonho a limpo,
em nuvem de rósea ninfeta,
para alcançar o céu da boca
antes que a vida anoiteça.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Primogênito

Por Mayanna Velame




A sua
felicidade
de mãe
estava em ver
as janelinhas abertas
no sorriso
de seu primogênito.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Se quiseres

Por Nana Yamada




Se tu realmente quiseres
Que eu desista de ti
Se torne aquilo
Que eu detesto
Assim não terias
Motivos para continuar
A sentir nada disso...

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Atemporal

Por Fabio Ramos




regressou


no
tempo


ao observar


essa
casa


(...)


quando era jovem


sua
família


o enviou para outra


cidade por
causa


de
sua
NAMORADA


que
vivia


justamente
nesse
local


(seus pais desaprovavam
o relacionamento)


(...)


e
pelo
ocorrido


ele
achou


que ela morreria


(...)


do
incidente


ao momento presente


um hiato
de
40 anos


(...)


e aqui está esse senhor


retornando
às ruas
onde


nunca mais passou


(...)


viu
que


a residência dela


virou
um


CORTIÇO


e
ali
ninguém


soube informar o paradeiro
de Angélica


(...)


voltou


ao
hotel


(e registrou)


por
escrito


o que teria dito


àquela
mulher
se a encontrasse novamente


(...)


colocou o papel


dentro
de
um


ENVELOPE


e
marcou
o endereço que acabara
de visitar


(...)


quem
lesse


(toda a carta)


diria
que


este receio


seria
desfeito


com meras palavras?


(...)


na
manhã
do


dia
seguinte


postou sua confidência


numa
agência
dos correios


abaixou a cabeça e suspirou