domingo, 23 de junho de 2019

Assombramento

Por Oswaldo Antônio Begiato




Quando te vejo
Encho a boca de cadeados
E os olhos de chaves,
Aprisiono-me nos encantamentos
E morro encharcado
De horizontes.

sábado, 22 de junho de 2019

Poema ao vento

Por Meriam Lazaro




O mesmo vento da história,
que aragem, fúria ou moinho,
moveu na palha de agora,
viu carro de boi e pergaminho.
É hoje o vento que sopra,
as folhas em redemoinho,
negro, a evocar memórias.
Da vida, viu outros caminhos...

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Cardápio

Por Mayanna Velame




Selecionou,
como entrada,
uma porção
de beijos...
A felicidade lhe
parecia ser digesta.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Caminhada

Por Nana Yamada




Percebi que cada dia
Essa estrada vai se estreitando
Nela encontrei algumas pedras
Aonde criei uma muralha que hoje me guia
Construí barreiras através dos tombos
O tempo vai se encurtando
Conforme as passagens e as paragens
Nessa jornada o trem não para
Quem chegou, ficou
Quem partiu, perdeu
Minha caminhada até você
Custe o que custar
Já estou no caminho
E não há mais saída
Meu destino tem seu nome
Então é pra lá que vou…

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Latente

Por Fabio Ramos




o caçula


não
sabia


(e o do meio)


que é
um


servo


da
poesia


(inconsciente)


não
se
esquivou:


rodoviária é um aeroporto
de ônibus


e
a
careca


do
tio


FABIO é uma


pista
de
pouso


(e decolagem)

terça-feira, 18 de junho de 2019

Câncer

Por Denise Fernandes




A água que envolve o feto. A água das lágrimas. A placenta e o cordão umbilical. Nossa ligação com os ancestrais. A bagagem de cada família, essa que carregamos sempre em nossas vidas.

A memória e a nostalgia, que trazem o passado para o presente. Os sonhos que sonhamos acordados, mistura do real e da alma. A alma, com suas emoções. As nossas reações no cotidiano. O choro com motivo. A manha, com que buscamos atenção. A angústia que se transforma em queixa.

O sentimento de família. O apego ao passado. A história que é conhecida nossa, nosso repertório. A sensação de lar. Nossa casa com tudo que tem de abrigo, de aconchego. Os símbolos com que registramos o passado. Os museus, que guardam parte da História, escrevendo o que já se foi.

O ambiente e o clima, com toda a mistura de subjetivo e de objetivo que trazem. O feto e o bebê, os cuidados que dedicamos a eles. O leite. Os seios. O útero e os ovários. A capacidade de reprodução. O estômago e a digestão, onde processamos os alimentos, nossas dores e vontades.

A emoção que nos move, sem que sejamos totalmente conscientes dela.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

ciclos

Por Ana Paula Perissé




                                          a cada gole
                                          que sorvo
                                          desta vida
                                          é inicio
                                          ora é fim.
                                          toadas renovadas
                                          ao passarem
                                          em nervuras:
                                          som
                                          fúria em pessoas
                                          lascos pendentes
                                          no tempo de cada
                                          ente


                                          (só ou perdido de si
                                          há lacuna
                                          qualquer coisa de imenso
                                          plano, raso ou fundante
                                          a cada passagem plena
                                          de estrelas mundanas)

domingo, 16 de junho de 2019

sábado, 15 de junho de 2019

Ao pôr-do-sol

Por Meriam Lazaro




Nuvens porosas contra o céu azul
desenhadas com lápis grosso
de letra parada.
Outras nuvens ralas,
de escritura fina,
seguem com o minuano em disparada.
Camadas de céu,
frestas de sol,
coral do entardecer, que cedo vem.
Pinheiros despertam
após a chuva de pedras
que embranqueceu
o parapeito da janela e o jardim.
Asas renovadas fazem festa!
Seres tão vivos
nos galhos da paineira inda desnuda.
Em algum lugar ao longe,
nesta cinzenta primavera,
aviões imitam passarinhos.
Quisera, rosa meditativa, poder voar assim.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Páginas da mente

Por Nana Yamada




Como é fácil
E simples
Encantar-se por você
Nem sei do brilho em seus olhos
Mas sei que me fascina mesmo assim
Cada palavra,
Cada expressão,
Cada tema,
Cada rotina...
Tudo está sendo
Tão bom,
Tão novo,
E tão único...
Ainda não consegui achar
Palavras para descrever
Tudo que estou sentindo,
Tudo que estou vivendo,
Tudo que estou vendo...
Você é um pedaço do sonho
Que está se realizando
E às vezes tenho dúvidas
Se realmente está acontecendo...
Ou serão mais rabiscos
Nas páginas da mente?
Ou será outra história a contar? Ou a viver?

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Ponteiros

Por Fabio Ramos




toda vez
que


OLHA


as
horas


são
oito
e dezoito:


no
relógio


do pulso esquerdo


e
no
relógio


(do bolso direito)


(...)


Celso
ouviu:


não
me
ABISCOITO!


agora
continua


sendo oito e dezoito


(...)


mas
veja:


também


são
doze


(para oito e trinta)


ou
ainda


42 minutos


antes
das
9


(...)


ou
até


contando


nos
dedos


(2520 segundos)


para
dar


9 horas


nos
relógios


QUE ESTÃO SEM BATERIA

terça-feira, 11 de junho de 2019

Gêmeos

Por Denise Fernandes




O encanto do pensamento, trazendo várias possibilidades, abrindo horizontes. A palavra e seus vários significados. A comunicação, o diálogo interno e a conversa. A conversa com motivo. E a conversa pra passar o tempo, ocupar vazios.

O entendimento. A razão que nos faz transcender a realidade, criar pontes. A curiosidade, essa qualidade que nos move  transformando o desconhecido em desafio. O mistério da respiração em nosso corpo, possibilitando as trocas e a vida.

A ambiguidade. O duplo sentido. A capacidade de conciliar o que é diferente e desarmônico através da inteligência. A inteligência que nos permite o conhecimento. O vento que abre portas, que refresca, carrega o tédio e as nuvens.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

bailado de pupilas

Por Ana Paula Perissé




                                            e a cada vez que fecho
                                            meus olhos
                                            tua ausência
                                            de pupila baila
                                            e estremece
                                            aquilo que ainda
                                            resta-me
                                            de mim


                                            e a cada vez
                                            que cerras teus olhos
                                            não os vejo
                                            mas morro e renasço
                                            dentro de ti


                                            vida
                                            que segue
                                            existindo


                                            sem querências


                                            a-pulsional
                                            modeoff

domingo, 9 de junho de 2019

Finados

Por Oswaldo Antônio Begiato




Ninguém deveria ter seus parafusos
E porcas
E neurônios soltos
Por conta de estradas ruins
Que a vida constrói para nossa viagem.


Ninguém deveria perder nada;
Nem cabelos,
Nem olhos,
Nem a vista,
Nem o juízo.


Ninguém deveria adoecer.
Ninguém deveria sofrer a dor do envelhecimento.


E a morte deveria ser
Como se fosse a composição de nosso sonho final.
Serena como o amanhecer na primavera.

sábado, 8 de junho de 2019

Ainda é tempo

Por Meriam Lazaro




Ainda é tempo
de nos voltarmos para o outro,
sairmos do nosso umbigo
para semear do futuro o fruto.


Ainda é tempo
de vivermos à imagem e perfeição
pela qual fomos criados,
e ao amarmos a nós mesmos,
amarmos de igual modo o nosso irmão.


Ainda é tempo
de sermos guiados pela inteligência,
criativa semelhança com o Pai,
deixando de lado o medo, e com consciência
e cuidado frearmos os nossos ais.


Ainda é tempo
nesta Sodoma moderna, de não perecermos,
se aliados ao Pai, nos sentirmos seus Filhos Amados,
do universo saciados, não precisando dilapidar,
no celeiro da natureza, tudo tudo o que há.


E assim, ainda é tempo,
de o homem despertar,
sabendo a todo momento,
que ele passa, mas o Amor não passará.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Justamente hoje

Por Nana Yamada




Que eu não estava preparada
Que eu não estava à espera
Dei de frente com você
Fiquei tão surpresa
Que já não me lembro mais
Se foi real ou se sonhei
Por alguns segundos
Parecia ser uma eternidade
Enquanto não me lembro
De nenhuma palavra
Não sei dizer se
Meu coração bateu rápido
Ou se parou
Só me lembro que o inesperado
Me pegou e me anestesiou
Tão lentamente
Aconteceu rapidamente...

quarta-feira, 5 de junho de 2019

2 casos

Por Fabio Ramos




se você


não
tem


troco pra 100


quem
lhe


VENDERÁ


uma
caixa


de fósforos?


(...)


e se
não
tem


troco pra 50


quem
lhe


CONCEDE


um
pão


que seja?


(...)


e se
não
tem


troco pra 20


quem
lhe


PROVERÁ


um
gole


do cafezinho?


(...)


em
oposição


A QUALQUER LÓGICA


está
esse
gajo


que compra
fiado


e
ainda
pede troco

terça-feira, 4 de junho de 2019

Touro

Por Denise Fernandes




A beleza poética da Natureza. O tato. A suavidade do contato da pele, que nos diz tanto do indizível. O sensual que, além do sexual, nos une à pessoa desejada.

A delicadeza das sensações. O pescoço, que carrega o sensual, unindo corpo e mente. As glândulas trazendo nosso humor. O sorriso? Esse cumprimento que vem da alma, e diz tanto do invisível.

O touro pastando calmo, tranquilo, mas também com sua força capaz de fúria. A teimosia? Essa insistência que brota da mente-coração e nos faz persistir. A garganta, com sua voz, permite alcançar o outro; ponte para a solidão.

O canto e sua alegria ardente, colorida. Sua força. A terra fértil, úmida, seiva de tudo que é verde, prosperidade. Tudo aquilo que posso chamar de "meu", mesmo que não seja realmente meu. O reflexo do gostar, além de mim, nas minhas posses, onde o ego se expande em gostos e apreços.

O sentimento que nos emociona, que conhecemos. Os valores que agregam à matéria uma condição de troca. O apego, com o que ele traz de carinho, e dedicação.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

corrimão em suspenso

Por Ana Paula Perissé




                            sinto que já sonhei esta escada
                            e com seus passantes a debruçaram-se
                            suas almas
                            em desvalia
                            pelo corrimão crepuscular
                            desta descida
                            subida
                            intumescência de perspectivas não alinhadas


                            ( há muita inutilidade escrita por aí
                            inscrevo-me, portanto, neste quinhão)


                            e ainda se vão percursos
                            adivinhos
                            a encontrar-se com vidas
                            e sonhos escuros
                            à margem
                            da beira


                            um buraco
                            com teu nome
                            inscrito no meu.

domingo, 2 de junho de 2019

sábado, 1 de junho de 2019

Flagrante delito

Por Meriam Lazaro




Minha sombra se amolda
à tua sombra na parede.
Na voragem desta lua,
braços e dedos amantes,
são translúcidos os passos
numa dança eletrizante.
Línguas que de amor têm sede,
peito e alma palpitantes.
Salto da cama para o dia
no silêncio que me assombra,
minha mão sem tua mão
acorda tão vacilante...
Na claridade indecente,
o delito de um instante,
que em flagrante revela:
foi um sonho inconsequente!