segunda-feira, 25 de maio de 2020

clausura 2

Por Ana Paula Perissé




a palavra desenraizada de chão
cresce ao labor de dobraduras.


cobre o mundo
vira gozo
e se lambuza de gesto,
quando as paredes te ameaçam.


alicerçada na clausura imposta,
o vírus corrói
mas sobra oração.
.
invisível a inumanias.


( confinar o poema auto
imune
e proteger o grito.)

domingo, 24 de maio de 2020

A um poeta

Por Oswaldo Antônio Begiato




Olhe dentro desta cesta de vime
o tanto de palavras
que eu encontrei brotando por aí.


Prove-as.


Os poetas têm o direito
de experimentar
todas as palavras,
até mesmo as mais venenosas.

sábado, 23 de maio de 2020

Doce melodia

Por Meriam Lazaro




Chora o violão
doce melodia,
vibra a canção
nessa poesia.


Mil, teu coração
a nota do dia,
sem contradição
não vive a magia.


Dança no salão
coreografia,
sonha perfeição
amor e alegria.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Desce do pedestal

Por Fabio Ramos




não
basta


seu nome


em
couché:


é preciso emoldurar


e dispor
as


letras


em
dourado


só para enaltecer


(...)


aqui
se
gaba


o senhor fulano


de
tal:


mestre em soberba


pós-
doutor


em pedantismo


e
tão
mortal


como qualquer


um de
vós

terça-feira, 19 de maio de 2020

Verão

Por Denise Fernandes





também a morte passará

com seus anéis de fumaça

e sua banda desafinada



de tudo a essência ficará

com seu amor cheio de graça

seu mistério e sua dor alada



não há solidão

apenas ilusão

e o verão

que nos aguarda

segunda-feira, 18 de maio de 2020

ao poeta ido

Por Ana Paula Perissé




(Para Oswaldo Antônio Begiato)


quando o poeta se vai,
partes de nós se atordoam.
voam doloridas
para te estar perto.
.


Se refazem, todavia, à beira do milagre,
sem a cisura do sintagma:


. Livre.

domingo, 17 de maio de 2020

De endereço novo

Por Oswaldo Antônio Begiato




No fim da rua,
passando a quitanda,
há uma casinha
branca,
de portas
e janelas azuis.
É ali. Entre sem bater.


No quarto
a cama com
lençol e colcha.
Foi Teresa quem lavou, passou,
bordou suas iniciais e
estendeu.


Faça nelas as dobras
que só seu corpo
sabe fazer
(e, entre as dobras,
esconda seu
perfume).


Fui logo ali,
com um canivete,
escrever nosso nome
no tronco daquela mangueira
(ladeado por um coração).


Quando eu chegar,
vou dar-lhe uma rosa vermelha,
deitar-me na cama
junto a teus pés
e em seguida morrer de amor.


Como sempre faço
quando mudo meu endereço
(você bem sabe disso)!

sábado, 16 de maio de 2020

À toa

Por Meriam Lazaro




Sentindo o vento na face
Da dor eu me dissocio
A mulher nova renasce
Na flor em pleno estio


Caminho pela cidade
Deixando o ninho vazio
Os sonhos da mocidade
Sensualidade ou cio


Eu sigo à toa na vida
Não penso em felicidade
Em cada esquina há guarida
Depois adeus e saudade


No espelho vejo perdida
Antiga face e coragem
Da noite compadecida
Em beijo, bar e voragem


Mas antes que a vida passe
Em solidão ou miragem
Peço ao vento que me abrace
Pra seguir boa viagem

sexta-feira, 15 de maio de 2020

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Comida de primeira

Por Fabio Ramos




dessa
carne


(você não tira pedaço)


foi
um


aperitivo


para


dar o gostinho


(...)


não é
pra


(encher a barriga)


que se
vai


a
um
restaurante


grã-
fino


(...)


não
é
caindo


de
boca


na sobremesa


que
se
come


o prato principal

terça-feira, 12 de maio de 2020

A moda permanente

Por Maurício Perez



Já vimos de tudo, quando o assunto é moda: cabelo longo, curto, pintado, calça corsário, gravata de crochê etc. E sempre será assim. Com um pouco de tempo e dinheiro, as pessoas arriscam, compram e usam novidades. Enjoou? Cansou? Não gostou? Troca. Moda é sinônimo de efêmero. Por isso, surpreende ver a tatuagem virar moda. A única moda permanente.


Em poucos anos, a tatuagem deixou de ser a marca de marinheiros, presos e gangues de motocicleta, para estar presente em 36% de americanos entre 18 e 25 anos. Afastou-se do submundo, foi acolhida pelas massas, e tornou-se também uma indústria.


Há diversos tipos e tamanhos de tatuagem - e inúmeras razões para marcar o corpo: expressão da identidade, personalização, arte, "porque todo mundo faz" etc. E alguns motivos para pensar duas vezes antes de fazer: dificuldade para conseguir certos empregos (que, futuramente, desencadeará uma nova "luta contra o preconceito"), a pele envelhece e os desenhos se alteram...


No entanto, há algo que deveria ser apresentado com mais atenção. Nossa sociedade moderna orgulha-se de valorizar o que há no coração; e não dá importância a formas, ritos e fatores externos. Se é assim, por que marcar na pele o que levamos no coração? Das duas, uma: ou o protocolo, a materialização de realidades espirituais são importantes - e creio que sim - ou, então, a tatuagem é um grande erro.


A sociedade moderna tem pavor de compromisso. Medo do casamento, medo de ter filho, medo de algo que exija dedicação integral (e que não permita pular fora e ficar livre, a qualquer momento). Contudo, a tatuagem estará presente na pele daqui a dez, vinte, trinta anos. Quando a pessoa disser "cansei", "já não significa mais nada", "foi bom enquanto durou", "naquela época eu gostava de fulano, do Senhor dos Anéis e da Penélope Charmosa, mas minha cabeça mudou", o que restará além da lamentação? Teremos uma legião de tatuados arrependidos? Teremos jovens que não farão tatuagens para se diferenciarem dos pais? Eles conseguirão remover os borrões com eficiência? Quem viver, verá.


Há um conselho antigo, que caiu no ostracismo: antecipe as consequências. Antes de agir, pense se a atitude de hoje valerá a pena daqui a um, dez ou cinquenta anos.

É autor do blog Correio Chegou.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

mulher de pedra 2

Por Ana Paula Perissé




névoa cedo
desfigura-se assim
em paleta intensa de rubro.


vestida cedo
madruga sóis
em cores essenciais:


e como se fosse algo de terra,
cedo se refaz
enluarada
o róseo da mulher imaterial,
que me deixou.


altitude densa, porém.
despencam amanheceres
imóvel, sem enigma.


explícita. (deitada e nua
libido de céu,
era minha mulher)


Já é tarde.

domingo, 10 de maio de 2020

Autocrítica

Por Oswaldo Antônio Begiato




Antes a honesta crítica
ao elogio descabido.


Artistas há
cuja razão
é consumida
pelo fogo da vaidade.


Diante disso
preciso recapitular
as coisas
que ando pensando
a meu respeito.


Besta como sou
é bem capaz
de me julgar poeta.

sábado, 9 de maio de 2020

Nada mais

Por Meriam Lazaro




Cadeira vazia
Silêncio e vontade
Sol que arrepia
Na pele que arde


Sempre arredia
Caminha na tarde
Flor que foi um dia
Hoje é saudade


Quanta nostalgia
A retina invade
Por que foste fria
Minha mocidade


Densa agonia
Neve a alma invade
Com melancolia
Versos sem alarde


Folha rodopia
Dança sem maldade
Falta eucaristia
Tempo e vaidade


Velha sinfonia
Segue com a idade
Cala a euforia
E a eternidade


Nada mais havia
Singular verdade
Adeus e elegia
Gestos de bondade

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Bordas

Por Mayanna Velame




(Dedicado a Oswaldo Antônio Begiato)


E onde está aquele poeta?
Ele subiu aos céus
para escrever poesia
com as bordas das estrelas.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Se quiser

Por Nana Yamada




Se você realmente me quiser
Terá que aprender a compreender,
Terá que aprender a me ler.
Nada é tão simples assim
Mas nada é tão difícil também.
Estou dando um passo
De cada vez, no seu tempo
Assim é o ritmo da minha vida.


Se você realmente me quiser
Terá que me entender,
Terá que me aceitar.
A vida já me mostrou
Muitas coisas, e hoje só quero
Colocar em prática tudo aquilo
Que eu aprendi,
Nesses tombos da vida.


Se quiser,
Abrirei o livro da minha vida,
Lerei cada parágrafo,
Mostrarei quem sou.
Mas esteja preparado
Para se perder
No meu mundo.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Ava? Lanche!

Por Fabio Ramos




uma
hora


o leite azeda


uma
hora


o caldo entorna:


se
às
12


a mulher magra
engorda


vai
ver
que


ERA FOME


(...)


uma
hora


o bucho dobra


uma
hora


o couro estoura:


se
às
16


a mulher bola
rola


vai
ver
que


ERA JOGO

terça-feira, 5 de maio de 2020

Pandemia

Por Denise Fernandes




Estou pandêmica. Entre a cama, o sofá, o computador. Da televisão, olho a programação. Em busca de distração. Ouço o jornal televisivo pela metade, assustada com o número de mortes e a péssima qualidade dos hospitais.

Estou pandêmica. Desenhada entre a Morte iminente, que parece mais ameaçadora do que antes. E um desejo de dar risadas, de ser feliz a qualquer custo.

Estou pandêmica. Agarrada à vida. Toda hora lavando a mão. Faz tempo que estou em casa, em isolamento social. Mas acho que estou preparada para mudanças. É mais fácil, nesse momento, ficar por aqui; sem ter que decidir para onde ir.

Sempre achei que a vida era uma mistura de destino e livre-arbítrio. O difícil é saber onde está o destino - e onde podemos usar nosso livre-arbítrio. A pandemia se impõe como um destino, clareando nossas escolhas. Diante da ameaça da morte, o purgatório se instala em minha mente. Minhas culpas, meus apegos.

Estou pandêmica. Feliz de estar viva, agarrada aos detalhes. Outro café. Um pássaro que canta, essa tarde.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

flor da lua em quarentena

Por Ana Paula Perissé




(ao amar entendi a que meu corpo serve,
aquele de mais ajuntado veio cá
a beirar minha pele
hoje, confinada)


quarentena.
pouco tempo tem
tua pele me interrogou
de quem seria meu rosto.


a memória já não se fazia palavra,
narrada em tom desaparecido,
lua que evanesce.


sem espelho, delimita o inédito
forma em corpo outro


já havia claustro
já havia vírus
já havia flor


antes do mundo mudar-se.

domingo, 3 de maio de 2020

O poeta em si

Por Oswaldo Antônio Begiato




(In Memoriam)


Enquanto vela
Me velas.
Enquanto chama
Me chamas.


Defunto obtuso de mim mesmo,
Lacro minha boca cheia de perguntas
Com um silêncio quase eterno.


Há, contudo, um vulcão dentro de mim
Que se torna eruptivo quando tua boca
Toca levemente este meu silêncio.


E teus beijos impregnados de fogo,
Sob as luzes da vela quase impassível
Vindas da chama quase efêmera,
Ressuscitam os versos que não posso enterrar.

sábado, 2 de maio de 2020

Quadrinhas de silêncio

Por Meriam Lazaro




Pergunta o arvoredo jovem,
Às copas do verde antigo,
Se em lágrimas se comove
O machado a ser brandido.


Se a consciência escorre
Vendo pássaros emudecidos,
Quando sem a seiva morre
A floresta e o colorido.

sexta-feira, 1 de maio de 2020