sexta-feira, 26 de junho de 2020

Amores

Por Mayanna Velame




Já tive algumas paixões: umas avassaladoras, outras mais contidas. Contudo, todas foram vividas no seu modo e tempo. Falar de amor nos instiga. Afinal, como pode alguém, de repente, remexer nosso senso e juízo? A resposta talvez seja, justamente, não termos nada que defina o que sentimos um pelo outro, quando de fato nos apaixonamos. Amar é um rebuliço no estômago. É sentir o suor nas mãos, é gaguejar enquanto se declara, é escolher o presente com minúcia.


Dos meus tropeços amorosos, sempre dancei com esse sentimento tão nobre. Aprendemos algo em cada relacionamento, e deixamos algum tipo de legado. Creio que isso seja, então, o lado mais humanizador daquilo que chamamos de amor. O "A", por exemplo, ensinou-me a gostar de cervejas, vinho, vodca, loucuras, noites levianas regadas a porres. Foi um amor extremamente etílico. Durou pouco, mas o suficiente para, até hoje, eu apreciar uma boa bebida.


Entre idas e vindas, também amei o "B". Aprendi com ele que o amor pode se fazer presente a distância - e que, embora machuque, a saudade é capaz de condimentar uma relação. "B" me ensinou a gostar de forró, a comer rubacão. Fez-me desbravar o sertão e mostrou-me a simplicidade das coisas belas da vida: andar na garupa da moto e sentar à beira de um açude paraibano (enquanto o arrebol diluía-se entre as serras). "B" ofereceu-me uma música chamada Retrovisor e me disse adeus quando saí de Recife. Lembro-me que chegamos a passear pelas margens do Capibaribe, mas a magia daquelas águas não foi suficiente para regar o nosso amor.


Alguns meses atrás, me apaixonei por "C". Através desse amor, conheci o céu e o inferno. "C" não é oito; é oitenta. É um tipo de amor imprevisível e frenético. Hoje comigo, amanhã não se sabe. Uma hora acredito em suas palavras, em outra, penso ser apenas uma fantasia, um delírio sentimental. "C" se entregou pela metade e isso me frustra, pois o amor, em sua essência, precisa ser inteiro para, realmente, ser amor. Mas admito que "C" tem um lado bom: ele cozinha muito bem, apresentou-me o requinte e a sofisticação gastronômica. Aprendi a tomar amarula com café, e a amar sem medo ou convenções sociais. O mais interessante é que "C" ri do meu sotaque chiado, e, na mesma proporção, eu me desdobro com o excesso de seus erres. "C" é minha tempestade e bonança, solidão e coletividade. "C" é minha história de amor inacabada.


O amor é assim. Por isso, eu me jogo, rasgo-me, sofro, esperneio. Alimento a insônia, caio, levanto. Sonho e escrevo poesia nos muros da rua, para alegrar teus dias cinzentos. Posso me apaixonar por "Y", "X" e "W", abraçar o "H" e ser feliz com o "J". Mas creio que o amor sempre causará um engasgo na garganta. É inevitável. Amor é foguete, movimento, dinâmica. Ele requer doses diárias de coragem e protagonismo. Educado como é, o amor sabe se comportar. Entende sobre ser e estar, percebendo o momento certo de partir - mesmo que, para isso, seja necessário sangrar (em nome da liberdade de quem se ama).

Um comentário :

  1. Muito profundo e reflexivo esse texto,Mas verdadeiro. Sempre levamos algo,E deixamos também,os humanos são assim...uma complicação,ora 8 ora 80. Há quem acompanhe esse ritmo. Ou...será que não? A vida é a maior escola.
    Parabéns...gostei do texto.

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