terça-feira, 21 de julho de 2020

Caminhada na pandemia

Por Denise Fernandes




Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Com esse espírito de ser encurralado, vou fazer minha caminhada em meio à pandemia. Desvio de seres humanos. Onde havia pessoas, vejo enormes infestações de covid-19. Preciso me proteger. Tenho asma, enfisema pulmonar e mais de cinquenta anos. Mas, sem caminhadas, não dá mais para ficar.

Depois de quatro meses fechada em casa, engordando, imagino como estão minhas taxas de colesterol e triglicérides - que já não eram boas no ano passado. Há um stress em mexer pouco o corpo, não tomar sol, não caminhar: o stress do bicho enjaulado.

Tenho me sentido mais bicho do que ser humano, assim, acuada, com medo da morte, da miséria, da ditadura. Medo por mim, medo pelos outros. O jeito é aprender com minha cachorra que, agora mais velha, dorme tranquila. Quando a morte chegar, ela a receberá com um bocejo.

Então saio em busca do sol, o olho mais atento, o corpo mais dentro do corpo. Passo por nossa rua, nossa calçada, nossos sonhos que ficaram como sonhos, e tudo está banhado de sol. Mesmo estando ausente, você está presente nas minhas memórias, nas calçadas aquecidas por esse sol de inverno do nosso bairro. Perto da esquina, um grupo de meninos e jovens empinam pipas. Vejo quatro pipas no céu azul. Os meninos discutem, um sai protestando.

Lembro do meu pai colocando a pipa no alto, ele me dava para administrar quando ela já havia ganhado o céu. Os meninos no meio da rua, as pipas lá no alto. Ainda bem que saí para caminhar. Não é só das altas taxas de colesterol que fugi. Estou andando sem rumo, sem norte, estou seguindo meu coração âncora e barco. Estou criando espaços dentro de mim para poemas, desenhos e lembranças de carinho.

Enquanto busco, encontro teu espírito. Você me faz companhia nessa terrível pandemia (que o levou para longe de mim). É mais que saudade. Estou aprendendo novas formas de amar, enquanto ando de máscara. E ainda sinto o gosto do teu beijo, mesmo depois de tanto tempo.

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