segunda-feira, 21 de setembro de 2020

literatura corporal 2

Por Ana Paula Perissé




conte-me 1´história
com o rasgo de tuas mãos
em meu corpo.
nas extremidades de teu ser, há contos.
vozes antigas. chegue-me perto
e me cante. com tua voz rouca de ensaio
e de textos em puro atos;/
porque há pathos que se aproxima
e corrompe tuas marcas em minhas.
(há gozo&dores em fenda esgarçada)
conte-me mais e me arranhe mais
o alinhavado das minhas veias,
memórias em estado bruto:
nódoas,
ainda sem nome.

domingo, 20 de setembro de 2020

Incorrigível boemia

Por Oswaldo Antônio Begiato




os botequins
sempre abrem
abrem e fecham
fecham e abrem
os botequins
sempre
e sempre
e sempre...


e sempre há neles um cantor
com o sentimento ferido
e o coração rasgado
pelo cutelo do abandono
cantando e cantando e cantando
a canção que não se deixa findar


diferentemente de mim
que sou apenas um pobre ouvidor
e vivo reclamando da vida
horas e horas a fio
quase sempre embriagado
sentado à mesa amargurado
ouvindo e ouvindo e ouvindo
a canção que não pode se findar

sábado, 19 de setembro de 2020

Travessia de flores

Por Meriam Lazaro




É primavera,
Relevo e estação,
Motivo e semente,
Travessia de flores,
Despertar das gentes...
As aves são Marias,
Os dias, guardiões
De sabedoria e sonhos.
O pólen se dissipa e germina,
Na terra há sulcos,
Assoviam brotos e poesia.
Há uma Sofia,
Que mora contente,
Em meio ao nada
Faz versos sabiamente.
É primavera,
A anunciação
De sombras que dançam
Na esperança da luz,
Aniversário
Da Flor em botão,
O Anjo que abraça
E quer por destino
A imensidão!

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Como eu poderia

Por Nana Yamada




Como eu poderia te transformar numa poesia?
Como eu poderia te fazer enxergar
Tudo aquilo que não sei dizer em palavras,
Tudo aquilo que eu não consigo te mostrar?


Como eu poderia evitar de não me apaixonar ao ver o encanto da lua?
Como eu poderia evitar de um sentimento não nascer,
Se o encantamento chegou antes de você chegar?
Se tudo já tinha acontecido antes mesmo de começar?


Como eu poderia não pensar?
Como eu poderia não sentir,
Se você ocupa o pensamento
De cada segundo do meu dia?


Como eu poderia imaginar que seria vítima?

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Cautela

Por Fabio Ramos




você prefere


a boa
ou
a má


notícia primeiro?


(...)


se for
pra
remoer


melhor é não saber de
notícia nenhuma


(...)


se for
pra
saborear


melhor é degustar a notícia
o quanto antes


(...)


se for
pra
destruir


*a porta é logo ali

terça-feira, 15 de setembro de 2020

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

ensaios

Por Ana Paula Perissé




teus sonhos me erguem
em ensaios
teus devaneios,
em tua prisioneira
..só
queria avançar meu olhar em ti
feroz
e fazer morar tua imagem refletida
cá dentro do eterno
de 1´outra orla. pois com minha alma
feito carga,
quanto mais ardor
mais espanto
de luar
sem sol
.
..apócrifa.

domingo, 13 de setembro de 2020

Palavras mudas

Por Oswaldo Antônio Begiato




Quando você vier
apontar minhas lástimas
traga gestos calmos,
traga gestos claros,
traga gestos castos.


Quando você vier
preparar minhas cinzas
traga um quilate de ouro,
traga um ramo de mirra,
traga um frasco de incenso.


Quando você vier
encomendar minhas crenças
lembre-se de que sou
torto,
empertigado em urna de ouro;
louco,
enfeitado com folhas caducas de mirra;
poeta,
ungido com fragmentos de incenso.


Quando você vier
retalhar minha existência
traga o silêncio dos tortos,
traga o silêncio dos loucos,
traga o silêncio dos poetas.


Quando você vier
lacrar o túmulo de minha carne insepulta,
traga palavras mudas e nada mais,
pois meus versos necessitam de silêncio.

sábado, 12 de setembro de 2020

Castiçais

Por Meriam Lazaro




Quero ser o amor sem dono
Sem que me olvide jamais.
Da vida, colher o pomo
E da paixão, temporais.


Quero mergulhar no sono
Das regiões abissais,
Ressuscitar o profano
De donzelas e missais.


Quero o sonho e catedrais,
A queda de muro alpino,
Que sobressaiam os vitrais
E o luminar divino.


Quero o impossível rumo
Das bandeiras e gerais,
Para o despertar soturno
De um tempo que se esvai.


Quero as cinzas deste inverno
Guardadas em castiçais,
Onde em plenilúnio eterno
Em meus braços tu estarás.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Meu amor

Por Nana Yamada




Meu amor,
Talvez você não queira acreditar
Que eu sempre esperei por você
De todas as pessoas que conheci
Nunca encontrei um pedaço de você


Meu amor,
Por anos procurei você
Por todos os cantos do mundo
Sempre estive na espera de você
Sempre falei de você


Meu amor,
Não sei de onde vieste
Não sei da sua história
Mas sei que a minha alma te reconhece
Sei que meu coração conhece o teu


Meu amor,
Deus nos criou para nos unir
Deus sempre me fez acreditar na sua existência
Deus colocou teu amor em mim
Foi o que Ele escolheu


Meu amor,
Acredito no nosso amor
Sei que chamas por mim
Sei que procuras por mim
Sei que estás à espera de mim


Meu amor,
Pegue na minha mão
E prometa não soltar
Nunca mais
Em momento algum...

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Minúcias

Por Fabio Ramos




qual é a


cor
do


esmalte dela?


e
da
bolsa?


E DO CABELO DELA?


(...)


sobre
você


(nada escapa)


mas
na


mente


ele
antevê


A COR DA LINGERIE TAMBÉM

terça-feira, 8 de setembro de 2020

A cópula das mariposas

Por Denise Fernandes


Imagem: Hide Iizuka


Entrei no meu quintal, e vi algo estranho. Chamei meu filho para conferir a estranheza: duas mariposas enormes, bem diferentes entre si, na parede do quintal. Perto do centro de São Paulo, já é difícil encontrar mariposas grandes, coloridas e, ainda por cima, copulando. Em cinquenta e quatro anos, é a primeira vez que vejo duas mariposas se reproduzindo. Achei lindo. E diferente.

O noticiário traz tanta notícia ruim que a gente fica com tontura, uma angústia que atordoa. Lembrei da nova palavra aprendida: "Serendipidade quer dizer aptidão ou dom de atrair o acontecimento de coisas felizes ou úteis; ou de descobri-las por acaso".

Foi uma felicidade achar as mariposas em cópula no quintal - como a flor que brota sem a gente perceber, como a criança escondida na estante. O resto é cansaço, o luto pessoal e coletivo que se estende como as nuvens do céu. Tem também um medo feio, escuro, povoado de fantasmas. E o amor indecente que as pessoas sentem por seus carros, o barulho horrível dos motores, a saudade das mãos do amado sobre as minhas.

Enquanto as religiões enchem a humanidade de culpas, são os insetos que entendem a sofisticada lógica da existência: ovos, larvas, voos, plenitude, metamorfoses. Como a criança na estante, procuro o meu lugar.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

vigília

Por Ana Paula Perissé




sob o ardor
de teu único gesto
está a gritar
1´chuva de fluidos. te sinto
(inside_)
que de tão nua
despeço-me do ido
para te engolir
em pele
decantada
inteiro.


mordo e assopro
como quem vela 1`ritual
.
aceso.

domingo, 6 de setembro de 2020

Gotas

Por Oswaldo Antônio Begiato




Sou uma gota
d'água;
trago dentro de mim
- céu de rosas que sou -
muitas tormentas.


Sou uma gota
de vinho;
trago dentro de mim
- barril de pólvora que sou -
várias verdades.


Sou uma gota
de lava;
trago dentro de mim
- cratera de cálice que sou -
lágrima e sangue.

sábado, 5 de setembro de 2020

Quisera

Por Meriam Lazaro




Quisera te dar o orvalho
Com a mais terna canção
De sabiás em um galho
E o amor de multidão.


Quisera te dar o Sol,
Anjo da anunciação,
Segredos de um rouxinol,
Do passado a tradução.


Quisera da Lua, a lágrima
Pra molhar tua emoção
E o milagre de Fátima
Com bênçãos em profusão.


Porém só tenho uma rosa,
Pobre rima e violão
Nesta tarde luminosa
E amizade de montão.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Ciclos

Por Letícia Alves



Tem dias que o ar pesa
A saudade aperta
Meu peito dói
Lembrando de tudo que foi


Nós mudamos mais que uma borboleta
O que antes era violeta
Agora está cinza dentro de mim
Estou vivendo essa fase muito ruim


Aquela música que eu te dediquei
Até hoje, da minha memória não apaguei
O verso escrito para ti
Tudo está guardado aqui


Teu ombro era tão gostoso de chorar
O jeito que tu gostava de me abraçar
Suas mãos segurando as minhas
Nossas tardes fazendo baguncinhas


Tive que te deixar pra trás
Eu não consigo mais
Para fazer minha vida andar pra frente
Precisava agir diferente



É uma jovem sonhadora de 18 anos, que escreve sobre corações partidos e o amor. É apaixonada por livros, poesias e contos. Escrever é uma forma de entender seus sentimentos. Mora em Santos/SP.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Use e não abuse

Por Fabio Ramos


Imagem: You Hyeonkyeong


palavra
por


(palavra)


como
tijolo


para construir


(...)


palavra
dada


como
cortina
de fumaça


é palavra jogada no lixo


(...)


palavra
que


falta


na
frase


(solta no ar)


para
ser


levada


em
ventania


(não é palavra enraizada)


(...)


palavra da
lavra
de


qualquer


um
dois


procurando confusão


(...)


pois


o mudo


por
opção


está correto:


ele
fica


(pelos cantos)


de
lado


bem quieto

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Outra caminhada na pandemia

Por Denise Fernandes


Imagem: Hide Iizuka


E canta o meu sabiá. Nem sei se é o mesmo da estação passada, mas por ele espero sempre na mesma época do ano, antecipando a primavera. Vou mudar de casa, se Deus quiser, e vou ter que deixar meu sabiá querido.

Com seu canto poético, de madrugada e à tarde, o sabiá atinge o bem fundo do meu coração, onde o tempo se repete no ritmo das estações. Sabiá adaptado rasgando a madrugada enquanto rolo na cama a pensar em mim, na minha vida.

Sou uma incógnita para mim mesma. Mas as utopias ainda vivem em mim, me estruturam. É por que lanço minhas bases no ar, floresço com a primavera. Eclodindo me encontro.

Fotografo o céu. A lua crescente no céu azul da tarde. Amor eterno, amor no coração. Lembro da sensação da pele do amado na minha mão, no meu corpo. Quase me esqueço das ausências.

Distopia? Apocalipse? Fantasias macabras enquanto sofremos com nossa imensa fragilidade. Como o sabiá, resistimos!